lambida casual

por Leticia Flores

Letícia Flores Montalvão

Eu experimento a vida para ter o que escrever.

Afinal de contas, qual é o papel do homem na família tradicional?

O que acontece quando queremos imputar a pessoas o sentido da palavra "tradição"? Bom... eu poderia dizer sem pestanejar que ocorreria um desastre. Vamos entender porquê?


Tradição: palavra de três sílabas que, unidas, podem nos ajudar a compreender muitas coisas. Mas, veja bem: muitas coisas. Ultimamente, esta pequena palavra tem gerado uma certa polêmica quando o objetivo é compreender pessoas. Por que, então, é tão difícil conceituar um ser humano por meio de uma suposta tradição? Ora, ora. Não estamos falando de um café, certo? O café tradicional do Brasil é o café preto. O da Itália, corto. No Marrocos, reaproveitam a borra deste café para ler o destino das pessoas. Já em Catanduva, interior de São Paulo, muitas donas de casa a reutilizam para espantar o mosquito da dengue. Café = uma bebida, um grão, um ingrediente... sobretudo, uma coisa! O que acontece quando queremos imputar a pessoas o sentido da palavra tradição? Bom... eu poderia dizer sem pestanejar que ocorreria um desastre. Vamos entender porquê?

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Entendendo a diferença entre o ser humano e um grão de café

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Bem, ao contrário de muitas coisas – que podem ou não ser consideradas tradicionais de acordo com determinada cultura – as pessoas trazem consigo peculiaridades que um grão de café não traz. Além de suas próprias experiências, o ser humano se diferencia pelos seus sentimentos e, consequentemente, pelo seu modo de se relacionar. Os laços que nascem de determinadas relações, por sua vez, podem ou não levar à constituição da famigerada família, bem como pode estreitar os laços do que chamamos “pessoas do nosso próprio sangue”. Apesar de o nosso querido cantor e compositor Falcão já ter nos avisado há algum tempo “Não é preciso ter conta sanguínea. É preciso ter um pouco mais de sintonia”, há muitos brasileiros que insistem em criar padrões de acordo com o que creem ser uma tradição mais ‘adequada’. É neste momento que começamos a confundir pessoas com café, sem levar em consideração uma premissa básica: o ser humano é livre – ou deveria ser – para fazer suas escolhas. Se ele vai ser um café preto, espresso ou um cappuccino, a decisão é dele! Só dele!

O que tudo isso tem a ver com a família tradicional?

Explico. Começamos falando de tradição para chegarmos a esse momento crucial de desmembramento dessa frase polêmica – e por que não dizer preconceituosa? Acontece que a família, como bem sabemos, não é formada por grãos de café. Uma família é formada por seres humanos. Seres humanos, como já sabemos, fazem escolhas, sentem afinidade e trazem consigo suas próprias experiências de vida. Por isso mesmo é que começa a ficar complicado definir apenas uma pessoa como tradicional. Imagine só definir um grupo de pessoas que se unem para constituir uma família? É aí que entra a tradicional mão-de-ferro do preconceito, querendo definir quem são as pessoas que devem constitui-la, como devem se comportar dentro desse suposto modelo e quem deve exercer determinado papel ali. Erro, meus amigos. Um graaaande erro. Imagine só como deve ficar a cabeça de uma criança que cresce ouvindo que somos providos de livre-arbítrio, mas quando podem finalmente realizar suas escolhas baseados naquilo que acreditam ser o melhor pra elas são veemente julgadas, criticadas, recriminadas e escorraçadas pela sociedade – literalmente ou sob olhares discriminatórios. Imagine o que sente essa criança quando, de repente, descobre que ela precisa ser um grão de café destinado única e exclusivamente a ser um café fraco ao invés de se atuar socialmente como a borra que ajuda no combate à dengue? Há duas opções: ou este ser humano aceita as imposições de uma tradição doentia OU resolve se rebelar. Ah... os rebeldes!

A tradicional rebeldia

Ah... os rebeldes! Por que eles são tão importantes para a família? Porque, geralmente, é dela que você vai ouvir pela primeira vez este adjetivo, caso não se enquadre no que é considerado tradicional. Eles querem fazer seus horários, competir de igual para igual, amar pessoas do mesmo sexo, amar pessoas de sexo diferente e querem até amar sem fazer sexo. Eles transgridem as regras, vestem-se de maneira diferente, falam de maneira diferente, expressam-se de maneira diferente e, principalmente, pensam de maneira diferente. Diferente do quê? Do que é imposto pelo preconceito. Do que é imposto pelas pessoas preconceituosas. Do que é imposto pelo chamado núcleo familiar tradicional. Eles não são assassinos, não são ladrões, não são criminosos. Eles são corajosos. Eles, como todo e qualquer ser humano, usam do seu livre-arbítrio para definitivamente serem livres. E isso, meus caros amigos, incomoda. Ah... incomoda muito! Eles são homens e mulheres que exercem diversos papéis na sociedade e, consequentemente, na família. Mas, afinal de contas, onde fica o papel do homem na tal família tradicional?

Afinal de contas, qual é o papel do homem na família tradicional?

Chegamos ao ponto G. Ao êxtase. Ao orgasmo da nossa discussão. Faça uma pequena busca no Google e descubra que há dezenas, centenas, milhares de pessoas que definitivamente acreditam que o homem tem o papel de prover a família tradicional. Ainda que a nossa sociedade machista já aceite com certo orgulho que a mulher também possa trabalhar fora e ajudar nas despesas da casa, a função dela sempre será primordialmente cuidar da limpeza do lar (ou pelo menos ser responsável pela funcionária que o faça), pela educação dos filhos e, pasmem, devem preferencialmente ganhar menos que o marido.

Agora, tenho certeza de que você, não deva estar concordando muito com esses estereótipos, não é mesmo? É porquê são apenas estereótipos. Se um dia te fizeram acreditar que sua família só é digna de ser assim considerada se for composta por um homem-macho-alfa-provedor-da-casa, uma mulher minimamente submissa – ainda que dentro do mercado de trabalho – e um casal de filhos perfeitos; desculpe, mas te enganaram feio, bro! Isso porquê aqueles chamados rebeldes fizeram uma revolução e bagunçaram todos os conceitos socialmente impostos. Eles colocaram o dedo na cara do discriminador hipócrita e gritaram: “Família é quem você escolhe pra viver. Família é quem você escolhe pra você”. Fizeram suas malas, pegaram suas coisas e deixaram para trás a ilusão construída por tantos e tantos anos sobre o que deve ou não ser uma família para você.

Eles são homens como você. São homens que trabalham fora, que trabalham em casa, que cozinham, que cuidam dos filhos, que amam seus homens, que fazem amor com suas mulheres. Eles são homens que escolheram não ter filhos, que preferiram se casar com uma pessoa mais velha ou que vivem melhor com seu cachorro amigo numa chácara afastada da cidade. São homens que têm o cabelo comprido, que são carecas, que usam perucas e que adoram vestir lingerie. São homens que se maquiam, que fazem as unhas ou que simplesmente preferem apreciar o resquício de graxa que fica entre a unha e a carne depois de um longo dia de trabalho.

Eles são homens que têm pau, são homens que têm vagina. Eles são homens como você e podem ser mulheres como eu. Podem, ainda, serem homens também como eu. Mas, primordialmente, são pessoas como só eles são. Com seus defeitos, suas qualidades e, sobretudo, com suas escolhas. O papel que exercem na família? O papel do ser que ama e é amado. O papel do ser que respeita. O papel do ser confia e compartilha. O papel do ser que não julga. O papel do ser que não é mais um grão de café.

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Esse ser, meus amigos, esse homem não acredita em família tradicional. Sabe por quê? Porque ela, meus caros amigos, a família tradicional (prepare-se para esta revelação)... não existe! Foi apenas mais um conceito primata no qual te fizeram acreditar a fim de conquistar um padrão, uma cultura e uma economia mais interessante – e definitivamente não mais interessante para você!


Letícia Flores Montalvão

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