lambida casual

por Leticia Flores

Letícia Flores

Experimento a vida para ter o que escrever.

Mas, no final das contas, é ela que me escreve

Como não desistir da paixão?

Este texto é escrito para dois leitores: o primeiro, o ser amado; o segundo, você. Você que já desistiu tantas vezes das paixões, acreditando que era o amor o grande vilão da história. Aqui, abro minhas veias para serem percorridas pela sua leitura e faço um apelo: não desista da paixão! Como? Não desistindo do amor.


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Voltava de uma curta viagem à sua cidade quando me peguei pensando, pela enésima vez, qual seria, afinal, a diferença entre paixão e amor. Acabávamos de nos despedir, depois de boas horas juntos, e já sentia no peito o fio de luz que nos liga se afinando, reclamando a distância, olhando no relógio pra ver quantas horas faltavam para o próximo encontro, pedindo – por favor – para voltar. Lembrei dos nossos primeiros dias, talvez três anos e meio ou quase quatro anos atrás, quando sentia esse tremilique por você quase todas as vezes em que te via e, hoje, percebo que isso acontece ainda mais quando não te vejo. Dadas as conclusões, lembrei-me do poeta que dizia (na verdade, só me lembrei daquilo que ele dizia, o nome do poeta me passara em branco) que a paixão é fogo, arde, queima a palha e, findo o combustível, ia-se embora. Já o amor, ah… o amor ficava, construía, amansava, sossegava e trazia a tão almejada paz.

Fiquei confusa. Como seria possível o amor conviver em harmonia com a paixão? Como seria possível amar e ser apaixonada pela mesma pessoa, depois de tantos dias seguidos te vendo, te amando e te querendo sempre mais e mais, não importasse a rotina, não importasse o humor, não importasse o descontentamento pessoal: fosse o desemprego, fosse pegar uma pancada de chuva no meio do caminho para a faculdade. Foi, então, que, passando por uma casinha bem charmosa, mas aparentemente bastante antiga, habitada, bem cuidada, cheia de plantas, de luz e de vida refletindo de seu interior, que percebi como a massa, o rejunte, os tijolos e as pinturas desses dois sentimentos trabalhavam. A paixão, que arde, dói, enlouquece-nos as veias, avermelha os olhos e acelera o coração é aquilo que nos é desperto quando lembramos do alvo da nossa cólera. Se o amor está ausente, cedo ou tarde, paramos de nos lembrar. Talvez porque paixão, sem amor, seja mesmo parte daquele teorema do fogo de palha na palha. Mas, por outro lado, o amor ali presente – quando o é, não quando gostaríamos que o fosse – é capaz de manter as nossas boas lembranças guardadas no peito em stand by, enquanto não temos espaço no HD pra pensar em amar, em compartilhar, em viver – naquele exato momento em que você está pegando uma chuva forte no meio da avenida mais movimentada da cidade em horário de pico ou quando você acabou de se ver no grande, gordo e assustador olho da rua.

A lembrança da paixão se apaga, se esconde, se perde. Mas o amor, ah… o amor que fica, constrói, amansa, sossega e traz a tão almejada paz, é também ardiloso, teimoso e sempre vai buscar os sinais da sua paixão ao menor sinal de calmaria das nossas mentes sufocadas, mastigadas e cuspidas pela rotina massacrante dos nossos dias. Eis, enfim, que ele a acha. Então ele te prepara o espírito para aquela lembrança doce, bonita e até mesmo selvagem dos nossos melhores dias. Ele – o amor – nos acaricia mansamente os cabelos, fazendo-nos aquele cafuné que a gente tanto precisa no final de um dia cansativo. Daí, quando você está pronto – mas só quando você está pronto – a paixão dá sinal, muitas vezes meio tímida, como aquele finalzinho de isqueiro que quase não dá conta de acender a última ponta. Mas acende, e queima, e arde, e mata. A saudade escandaliza seu peito e você me liga. O WhatssApp já não é mais tão eficiente quanto a nossa transmissão de pensamentos. A gente já nem se surpreende mais – sermos perdidamente apaixonados um pelo outro é ridiculamente natural pra nós dois.

E então você, coração desapaixonado e o segundo leitor desta minha voz que clama agora por meio de linhas rabiscadas em papel de Word, pode ficar tocado ao ler uma análise tão pessoal e cuidadosamente talhada em cima dos meus próprios sentimentos verdadeiros e vai querer me perguntar: como isso é possível? E eu, como sempre, vou te responder: eu não sei. É algo tão simples que simplesmente não sei explicar. Não depende de mim. Depende de mim, de você, de nós. Depende da leveza com que você leva a sua vida e da sua incapacidade de guardar rancor. Depende da efemeridade das coisas ruins na sua vida e da sua capacidade de mandá-las embora rapidamente. Depende do que você escolhe guardar na caixa preta do seu coração para deixar o amor resgatar novamente. Depende do que você escolhe. Depende de você.

O que quero dizer com isso, no final de todas essas contas, é que é uma perda de tempo irreparavelmente grande desacreditar o amor. Eu sei, já te disseram tantas vezes, mas você quase nunca vê esperança, mas eu vou insistir mais um pouquinho e repetir que jogá-lo na sarjeta, chamá-lo de cretino, vingar em outros corpos sua desilusão não vai fazer as coisas serem diferentes desta vez. Mas escolher guardar o bonito, plantar o livre e colher o leve, independentemente do que os outros vão pensar de você por isso, vai fazer não só com que as coisas sejam diferentes, mas que sejam absurdamente maravilhosas, doces, sublimes e gratificantes, desta vez.


Letícia Flores

Experimento a vida para ter o que escrever. Mas, no final das contas, é ela que me escreve.
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