lambida casual

por Leticia Flores

Letícia Flores

Experimento a vida para ter o que escrever.

Mas, no final das contas, é ela que me escreve

O sexo e a conexão com o presente

Em tempos de loucura, o presente é um presente. Mergulhamos de cabeça em uma sociedade doente onde viver o agora é um grave desvio de comportamento. Mas, se nos arriscarmos a desviar o olhar para a superfície, veremos um fio de luz que reflete a esperança de ali retornar, botar a cara no sol, voltar a entrar em contato com a natureza, viver os sentimentos na sua mais perfeita harmonia e intensidade: desde os mais acalentadores até os mais apavorantes.


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Em tempos de loucura, o presente é um presente. Mergulhamos de cabeça em uma sociedade doente onde viver o agora é um grave desvio de comportamento. Mergulhamos e mergulhamos de olhos fechados, de terno e gravata, de salto e maquiagem, esperando que, no fundo do rio da louca vida, encontre-se a felicidade. Mas, se nos arriscarmos a desviar o olhar para a superfície, veremos um fio de luz que reflete a esperança de ali retornar, botar a cara no sol, voltar a entrar em contato com a natureza, viver os sentimentos na sua mais perfeita harmonia e intensidade: desde os mais acalentadores até os mais apavorantes.

Voltar à superfície dói. Exige fôlego, força e coragem. Abandonar um mergulho tão profundo em busca do caminho pré-moldado desde antes de você nascer não é uma tarefa fácil: “Eu preciso deste emprego”, “eu preciso deste personagem”, “eu preciso desta máscara”, “eu preciso desta paisagem” – frases típicas de quem se jogou completa e intensamente na acelerada sede de ser alguém, que bateu a cabeça em alguma pedra lá no fundo e, agora, está dormindo. Dormindo para o presente; dormindo para o amor. Mas você deve estar se perguntando: como sobreviver a este mergulho sem voltar à superfície? Não se sobrevive. É preciso voltar, respirar, rever a luz do sol. Ainda que se pretenda mergulhar de volta ao vício ao qual você tanto se apegou, é preciso respirar os espaços de vida desperta no meio deste caminho. Do contrário, morre-se. Morre-se afogado, enrugado, envelhecido, inchado, dopado, doente. Então, como enganar a si mesmo e driblar o desejo instintivo de retornar a si mesmo?

Muitas são as ferramentas, mas a mais prática, simples, prazerosa e mágica é o sexo. Para quem está adormecido no fundo do leito do seu próprio rio de acomodações, meditar, praticar yoga ou refletir sobre seu propósito no universo são tarefas que exigem entrega demais, comprometimento demais e, sobretudo, tempo demais – ah, o tempo, moeda cara que poucos de nós temos para esbanjar. Por isso, o que melhor do que transar?

O sexo, afinal de contas, aguça todos os sentidos, começando pelo olfato. Sente-se o cheiro da presa, fareja-se o(a) predador(a). os olhos se abrem e, do fundo do riacho, nossos corpos dão o primeiro passo para retornar ao momento presente. É preciso estar no aqui para se transar, é preciso estar no agora para gozar. Fingir o gosto, enfim, nada mais é que simular que uma alma adormecida no passado ou no futuro esteja vivendo o presente de corpo e alma: não está. O homem está no preço da gasolina enquanto a mulher está na castração, no machismo, no julgamento, na submissão, no ontem que a machucou ou no amanhã que a pode machucar. Passados todos esses obstáculos, o agora reina. Abrem-se os olhos, as mãos, a boca. Sente-se a língua quente nas cavidades mais íntimas do seu corpo liberto, descoberto e desperto. Que são os cabelos quebrados? Que são os lençóis rasgados? Que são as roupas no chão? – são preocupações que não se ocupam do presente – nenhuma preocupação o faz. Elas vivem no fundo confortável das águas paradas nas quais você escolheu se aprofundar. Mas agora... ah, o agora é prazer, é pele, é olhar, é trançar-se freneticamente os dedos das mãos, é a levitação dos pés.

Entregar-se ao orgasmo é divino e não o é apenas pelas reações sintomáticas do corpo que inflama, arrepia e treme, mas sim pela pureza do sujo e despudorado (possível) amor. É divino pois é o presente gritando sua presença pelos seus poros. É o presente escorrendo pelas suas pernas bambas. É o presente grudando no suor dos seus seios, do seu peito, dos nossos braços. Transar com liberdade é entregar-se ao agora. E é de agora que estamos carentes no fundo do rio.

No entanto, infelizmente, enquanto estamos “dormindo”, não percebemos a falta desgraçante que o agora nos faz. O buscamos – com razão e instinto – no ‘orgasmo atrás de orgasmo’ que nos sacode lá embaixo, puxando nossas almas rio acima, trazendo-nos ofegantes à superfície, esfregando a luz na nossa cara, embebedando-nos de vida. Por outro lado, quando o amor – sem acaso – acontece, mergulhar na rotina novamente passa a não ser mais tão tentador. As conversas pós-coito te mantêm um pouco mais no presente. Os olhares te sugam para o aqui. As mãos dadas tornam-se mais uma porta, não de entrada, mas de saída, para a escuridão de um dia a dia debulhado em recordações e preocupações.

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Quando o amor acontece – acontece mesmo: sem ciúme, sem medo, sem ego; como a entrega a um orgasmo – simplesmente não queremos mais fechar os olhos. Queremos, por outro lado, aprender-se mais, conhecer-se mais e descobrir mais ferramentas para conectar-se ao presente. Quando o amor acontece, enfim, amadurece-se para o viver e começa-se a aprontar-se para reconhecer em outras atividades que não o sexo a conexão com o aqui; a comunhão com o agora. Descobre-se a meditação, descobrem-se as artes marciais, descobre-se o yoga, descobre-se a espiritualidade, descobre-se um novo universo dentro de si mesmo e do outro. Descobre-se que o outro é você, que você é o outro e que o inferno (bem como o paraíso) somos nós: aqui e agora.

Transar, então, passa a ser apenas uma das muitas ferramentas de autoconhecimento. Transa-se menos, mas transa-se bem. Quando o amor e o presente acontecem e por nós são reconhecidos, transa-se pouco, mas transa-se longo e transa-se melhor. É preciso, enfim, mais do que o sexo para se desafogar. É necessário estar disposto a deixar a casa segura que se construiu por tantos anos no fundo do seu próprio mergulho doentio; é preciso invertar a direção da entrega e, ao invés de mergulhar na sociedade, mergulhar-se, enfim, em si mesmo: com suor, com lágrimas e, sobretudo, com amor.


Letícia Flores

Experimento a vida para ter o que escrever. Mas, no final das contas, é ela que me escreve.
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