lambida casual

por Leticia Flores

Letícia Flores

Experimento a vida para ter o que escrever.

Mas, no final das contas, é ela que me escreve

Mulher maravilha? Não, obrigada

Administrar relacionamentos é tarefa de todo ser humano. Escolher as palavras, observar o contexto, ter empatia, fazer-se entender da melhor forma possível, esforçar-se para bem interpretar as mensagens que ficam nas entrelinhas de cada discurso: sim, é árduo, mas não é trabalho de "mulher maravilha" - é trabalho de todos.


Um guia para que mulheres entendam como homens pensam e moldem suas atitudes com base nesse conhecimento “precioso” – quem não deseja? Eu mesma, se voltasse aos meus insuportáveis 15 anos, trocaria os testes da Todateen/Capricho por uma obra prima desse porte. Poderíamos citar alguma obra específica escrita, é claro, por algum homem especialista no assunto (o que é irônico, já que o assunto, neste caso, é 'mulher'), um psicanalista, ‘coach’, guia espiritual... – como um recente livro publicado na minha cidade – mas estaria sendo terrivelmente injusta com as outras dezenas (se não centenas ou milhares) de manuais do gênero.

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Sarcasmos à parte, a intenção de conteúdos que se propõem a orientar mulheres a "entenderem os homens", embora seja um desserviço social, não é de todo ruim. Quando um autor se dispõe a publicar conteúdos de autoajuda, de fato espera-se que seu objetivo seja… ajudar. Por isso, este texto não intenciona criticar nenhum autor/escritor/youtuber/blablablá em especial, mas sim alertar sobre as motivações que levam alguém a aconselhar pessoas do sexo oposto sem se atentar a detalhes profundamente importantes: lugar de fala, lugar de ser e sentir e, principalmente, a capacidade de evolução constante do cérebro humano – tendo em vista que evolução nem sempre é para melhor, mas sim para o que é necessário diante de cada contexto social, cultural, histórico, biológico e geográfico.

# Conteúdo para mulher escrito por... homem?

Eis o primeiro sinal de fumaça ante o incêndio: conteúdos femininos produzidos por homens. Soa tão natural quanto as Redações das revistas femininas dos anos 60, que eram compostas majoritariamente por caras que assinavam seus artigos em nome de mulheres – os primeiros ghost writers. Atualmente, eles não precisam mais se esconder atrás de um perfil feminino; sendo os líderes inatos de uma sociedade patriarcal que valoriza o discurso masculino em detrimento do feminino, é fácil serem creditados em suas “conclusões eficazes” quando decidem tornar públicas suas ideias e “pesquisas de campo”.

Mas será que nós, mulheres, ainda somos tão social e politicamente imaturas a ponto de aceitar orientações de comportamento vindos de homens?

# … porque homens e mulheres são ‘geneticamente’ diferentes

Calma, calma. Não estou tentando convergir para um discurso femista (aconselho um ‘google’ a quem ainda não entende a diferença entre femismo e feminismo). As diferenças biológicas entre homens e mulheres são sabidas. Xis + xis, xis + ípsilon, coisa e tal. Acontece que as características que nos distinguem fisicamente não podem nos restringir ao senso comum “homem é assim mesmo. Entenda, aceite e lide com isso” – e vice-versa.

Não.

Um grande, redondo e tremendo não.

Deixando a ingenuidade de lado e observando a forma como os relacionamentos masculino x feminino são constituídos nos diversos contextos – profissional, acadêmico, interpessoal, íntimo – da sociedade atual, é possível pré-concluir [eis a base do preconceito] que:

- eles são mais fechados; - elas sabem lidar melhor com sua inteligência emocional; - eles são distraídos; - elas precisam administrar inúmeras funções e, por isso, estão quase sempre se sentindo sobrecarregadas; - eles são distraídos e fechados; - elas dão conta de tudo; - eles… hãm? - elas são “Mulheres maravilhas” - eles …

Em contrapartida, a justificativa é sempre a mesma, e ela não surge apenas do discurso masculino – muitas mulheres continuam sustentando essa máxima sem ousar questioná-la:

“Porque sim.”

Porque sim. Porque homens e mulheres são diferentes. "É genético, biológico, intrínseco."

Diante de tal justificativa, aceitar a situação e se apropriar das nossas capacidades sedutoras e “maravilhásticas” seria a melhor saída para contornar o "incontornável" (leia-se machismo).

Basicamente, somos instruídas, desde a tenra infância, a criar estratégias mirabolantes para fazer jogos de sedução, interpretar as entrelinhas dos gestos quase sempre despropositados dos homens, enganá-los quando da administração do dinheiro, aprender a dar de mamá numa teta enquanto assinamos contratos com a outra, enquanto eles arrotam o alfabeto. Não precisamos de livro nem canal no YouTube para nos "ensinar" o óbvio.

Para aceitar com resiliência tal responsabilidade sordidamente imposta por Darwin, o melhor caminho - reforça o discurso retrógrado de séculos passados - seria assumirmos o papel de Mulher Maravilha – e nos orgulharmos disso.

# Mulher maravilha? Não, obrigada

Mas não sejamos hipócritas.

Ninguém aqui está a fim de tirar os sutiãs do armário, tacar-lhes fogo no meio da sala (por favor, meninas, não façam isso em casa!) e declarar greve aos afazeres domésticos. A questão não é feminina – é de higiene, asseio, disciplina, saúde, bem-estar. Cuidar da própria casa, da própria roupa, dos animais de estimação, das plantas, dos filhos, dos panos de prato e de chão, da louça, da comida, das contas, do trabalho e da rotina é semente que se cultiva apenas quando se descobre o sutil e imprescindível prazer de realizar tais tarefas. É o que dá sentido à vida e a ressignifica a cada novo raiar de dia. Tanto para a mulher quanto para o homem.

Entretanto, quando a rotina é compartilhada com alguém (independentemente de ser do sexo oposto ou não) – seja sob o mesmo teto, seja nos calientes primeiros meses de namoro – a tendência é assimilarmos os conselhos das nossas avós, hoje encarnados por psicanalistas-coachs-doraioqueoparta, e acrescentarmos ao nosso já saturado desgaste mental mais uma tarefa: a de compreender a nebulosa mente do homem.

# Mais uma responsabilidade pra chamar de nossa. Só que não

Enfim, chegamos ao ponto que converge todas as reflexões anteriores a uma só meta: a de convencer mulheres que – com todas essas incríveis capacidades “maravilhásticas” – elas não só podem como devem assumir a sublime tarefa de “administrar o relacionamento”.

Administrar relacionamentos é tarefa de todo ser humano - permita-me a redundância - que se relaciona. Escolher as palavras, observar o contexto, ter empatia, fazer-se entender da melhor forma possível, esforçar-se para bem interpretar as mensagens que ficam nas entrelinhas de cada discurso: sim, é árduo, mas não é um trabalho exclusivamente feminino.

Como se não bastasse todo o peso carregado, geração após geração, sob o estigma de burras, bruxas, santas e putas, a conclusão a que chegam os inteligentíssimos homens vestidos de formações conceituadas e preconceitos inatos é a de que nós devemos investir nosso precioso tempo em leituras que nos permitam entender e aceitar que “o homem é como é e está tudo certo assim” simplesmente porque somos “mais capazes que eles, nesse sentido” [uma tentativa de discurso feminista travestido de machismo]

Entretanto, tal discurso não apenas soa arenoso, já que o homem – por mais ‘desconstruído’, instruído e aberto que o seja – não pode simplesmente se apropriar do lugar de fala, de ser e de sentir da mulher, como também se torna estupidamente falacioso visto que se constrói em cima de senso comum machista patriarcal ignorando uma questão muito simples do ser humano: a seleção natural.

# “Homem é assim mesmo” é o caralho

Você não precisa concordar com a teoria evolucionista, a lógica é simples (e comprovada cientificamente): nossas capacidades cognitivas são reforçadas ou descartadas a depender de sua necessariedade no ambiente [dá-se a isso o nome de "neuroplasticidade"].

Se antigamente tínhamos uma capacidade excelente de enxergar no escuro devido à necessidade de caçar à noite, hoje os neurônios responsáveis por tal excelência se encontram atrofiados. Da mesma maneira, se o macho jamais precisar se esforçar para trabalhar melhor suas emoções, adentraremos mais um século repetindo o mesmo ciclo vicioso no qual ‘ela’ dá conta de todos os detalhes da relação enquanto ele, barbado, se preocupa em passar a fase do chefão do seu videogame.

Enquanto vivermos num mundo em que as mulheres precisam de proteção, jamais teremos o que de fato precisamos: projeção.

Pare de passar pano para o passado e entenda de uma vez por todas: “homem não é assim porque é assim”, alguns homens (talvez a maioria) são “assim” porque não sentem necessidade de mudar e, portanto, não precisam exercitar áreas do cérebro que estimulem o desenvolvimento de neurônios os quais permitam sinapses que os levem a ser proativos, prestativos, abertos, atentos e emocionalmente inteligentes.

Já passou da hora de nós, mulheres, pararmos de criar condições confortáveis que eximem o ‘tico-e-teco’ dos caras de trabalhar. E se sermos financeira, emocional, psicológica e profissionalmente independentes ainda não é o suficiente para isso, talvez esteja na hora, sim, de reacender as fogueiras dos sutiãs...


Letícia Flores

Experimento a vida para ter o que escrever. Mas, no final das contas, é ela que me escreve.
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