lanterna cultural

Uma luz em tempos sombrios

Douglas Lobo

Douglas Lobo é escritor. Em 2015 lançou seu primeiro livro, o romance "Terra Amaldiçoada".

Para que tanta redundância?

O excesso de franquias no cinema comercial americano reproduz a redundância dos tempos atuais, comprovada nas redes sociais.


Jaws 19.jpgCena em "De Volta para o Futuro 2" brinca com a franquia "Tubarão"

Quantas referências aos filmes anteriores da franquia “Exterminador do Futuro” há na nova sequência da série, lançada neste ano? Contei dez, mas, como não sou daqueles fãs que sabem tudo, é provável que sejam mais. Curiosamente, a nova película pretendeu relançar a franchise; porém, em vez de novo frescor, trouxe apenas a carga já degastada dos filmes anteriores.

Recentemente, as comemorações dos 30 anos do primeiro “De volta para o futuro” trouxeram algo parecido. Ou seja, mais do mesmo: o DeLorean, o skate flutuante, as mesmas histórias de bastidores… exceto que o tempo passou, os atores envelheceram, e a força da primeira película foi diluída – em parte pelo próprio excesso de exposição da franquia, decorrente do culto que se formou em torno dela.

Curiosamente, Robert Zemeckis demorou cinco anos para convencer os produtores a bancarem “De Volta para o Futuro”. Já o primeiro “Exterminador do Futuro”, estreou como um filme alternativo, mais sombrio do que o público médio estava acostumado; ninguém acreditava em seu sucesso comercial, mas hoje bonecos temáticos para crianças e adultos podem ser encontrados em várias lojas. Por sua vez, “Caça-Fantasmas”, filme feito por um grupo de iconoclastas vindos do Saturday Night Live, tornou-se uma linha de produtos da Lego.

Será esse o destino de todas as franquias? Serem sugadas até a exaustão? Absorvidas pelo mainstream por sua força cultural, para então perderem sua força precisamente porque foram absorvidas pelo mainstream?

Parece que sim. A consolidação comercial marca o ápice da influência de um produto cultural – e o início de sua queda rumo à irrelevância. Não há como comparar, por exemplo, a força de Star Wars quando o filme estreou com o que se vê hoje – mesmo que atualmente haja um público gigantesco à espera do novo filme da franquia; afinal, também há compradores para fraldas, carros etc., sem que isso dê a esses produtos qualquer status cultural.

The-hunger-games-trilogy.jpg Trilogia Hunger Games: continuação anunciada

Pergunta fácil: quem ganha com esse esvaziamento cultural de obras que um dia foram relevantes?

Hollywood, claro. Afinal, a indústria depende muito de franquias. Agora mesmo a produtora Lionsgate anuncia novos filmes da saga Hunger Games. Em 2014, sete dos dez filmes de maior bilheteria eram sequências, remakes ou reboots. As trilogias de antes deram lugar a quatro, cinco filmes e, no caso dos Vingadores, com cada filme isolado se integrando ao filme central. Ganha a indústria, perde porém o público. Nos anos 90 Hollywood fervia com roteiros originais (os “spec scripts”), vendidos muitas vezes por autores criativos, desafiadores. Filmes como American Beauty, Thelma & Louise e Good Will Hunting foram negociados naquela década.

Hoje impera o material por encomenda, controlado desde a concepção por homens de negócios, não pelos escritores. Não por acaso, a criatividade no storytelling se refugiou na TV. Correndo o risco de soar saudosista, parece que antes Hollywood fazia seu business com um pouco mais de arte. Hoje, negócio e arte parecem se repelir mutuamente.

A seu modo, Hollywood reproduz uma característica de nossa época, comprovada nas redes sociais: a redundância. O mundo se tornou um amontoado de tribos isoladas, cada uma com suas convicções e visão de mundo próprias. Nesses guetos, qualquer opinião divergente é banida, porque quebra o senso de pertencimento grupal. Ler e ouvir o que já se sabe e com o qual se concorda de antemão tornou-se um mantra. Afinal, o novo conteúdo é desafiador, exige um alargamento de percepção, muitas vezes em diálogo com uma voz dissonante.

Natural portanto vermos os mesmos filmes várias vezes. O interesse comercial da indústria cria um público que se fecha mais e mais para novos desafios artísticos. O cinema comercial americano tornou-se um círculo fechado, como insetos que voassem ao redor de uma lâmpada. Resta saber quanto tempo até que caiam mortos…


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