lanterna cultural

Uma luz em tempos sombrios

Douglas Lobo

Sou um escritor que busca a simplicidade, nesta época em que ser complicado tornou-se "cool".

Em busca de emprego

A situação não está facil para ninguém, e Juvenal terá que se virar para achar um emprego


Em busca de emprego.jpg

A situação anda difícil e, não bastasse estar desempregado, Juvenal ainda tinha que aturar as cobranças da esposa:

“Fica dormindo nessa rede enquanto eu cuido da casa.” O gato da casa, deitado a um canto, acordava com os ralhos da mulher. “E isso porque tá devendo dinheiro pra todo mundo. Tanto homem por aí e fui terminar com um lixo desses.”

“Olha como fala comigo, mulher”, dizia Juvenal enquanto se balançava na rede.“Mais dia, menos dia, eu me enfezo. E aí…”

“E aí o quê?” A mulher parava de varrer o chão por alguns segundos.“Tu não passa de um pamonha”.

“Cuidado, mulher…”

“Se não traz dinheiro, vai cuidar da casa. Anda”, e ela brandia a vassoura, “pega, vai varrer, vai…”

“Ficou doida? Homem que é homem não faz tarefa doméstica.”

“Homem que é homem traz dinheiro pra casa.”

“Emprego é pra gente com pouca inteligência, mulher. Gente simplória. Eu nasci pra coisa complicada.”

Mas a esposa continuou a aperrear. Para voltar a ter sossego, Juvenal decidiu procurar um emprego.

Depois de mandar seu currículo para todos os locais possíveis, algumas empresas começaram a ligar de volta, chamando-o para entrevistas.

A primeira foi em uma loja de artigos de informática.

“Desculpe, senhor Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz franzino com óculos, “mas o senhor não é qualificado o suficiente para a vaga”.

“Como assim? Eu tenho até faculdade”.

“Faculdade de Administração”.

“Onde eu aprendi gestão, organização, controle de estoque-“

“Somos uma loja de informática, senhor Juvenal. O senhor sabe o que é um chip de memória?”

Juvenal pensou por um segundo antes de falar:

“Tem a ver com batata frita?”

“Chip, senhor Juvenal. Não chips”.

“Ih, então não sei.”

“Memória RAM? Transístor? Hard drive?”

Juvenal pulou da cadeira. “Eu sei o que é um tablet! Juro!”

A segunda entrevista foi em uma revendedora de automóveis.

“Infelizmente, seu Juvenal”, disse o entrevistador, um rapaz de cabelo curto espetado, “o senhor é qualificado demais para a vaga”.

“E isso não é bom?”

“Precisamos, seu Juvenal, de vendedores que não sejam muito qualificados. Ou eles ficam aqui só alguns meses, até arranjarem emprego em outro lugar.”

“Não dá pra dar um jeito?”

“Com essa faculdade de Administração no seu currículo, seu Juvenal, fica difícil dar um jeito…”

Para a terceira entrevista, em uma mineradora, Juvenal tirou do currículo a menção à faculdade.

“Seu currículo é impressionante”, disse a entrevistadora, uma morena de corpo bem-feito vestida em um terninho. “Mas pra ter certeza de que você é o que procuramos, eu preciso fazer algumas perguntas.”

“À vontade.”

“O senhor e sua mulher se dão muito bem?”

“Nós nascemos um pro outro.”

“Você pode ser sincero conosco, Juvenal”.

“Estou sendo, moça.”

“E o senhor é financeiramente estável? Ou tem dívidas?”

“Não devo nada a ninguém, moça.”

“Bem, neste caso não há mais o que pensar”, ela disse, fechando a pasta sobre a mesa.

“O emprego é meu?” Juvenal sorriu, já antecipando a cara da esposa assim que ele contasse a nova.

“Não”.

“Não?”

“Seu Juvenal, mineração é um emprego muito pesado.”

“Imagino.”

“Ao longo dos anos, descobrimos que só permanecem nele dois tipos de empregados.”

“Quais?”

“O que estão em crise no casamento, e que por isso não querem ficar muito tempo em casa. Ou os que estão endividados. Nenhum dessas situações é seu caso.”

“Bem”, disse Juvenal, disposto a abrir o jogo, “na verdade-”

Antes que ele concluísse, a entrevistadora se levantou da cadeira e, sorrindo, estendeu-lhe a mão.

“Você é um exemplo de vida feliz, Juvenal. Assim que sair daqui, chegará em casa e sua esposa estará à espera, com o jantar pronto, cheio de carinho e amor. Parabéns.”


version 5/s/// //Douglas Lobo