lanterna cultural

Uma luz em tempos sombrios

Douglas Lobo

Escritor e jornalista. Autor dos romances "Terra Amaldiçoada" (2015) e "O Último Natal de um Homem Rico" (2018). Reside e trabalha em Fortaleza, Ceará

As Lições do Passado

No Brasil de hoje, ser conservador é a atitude mais digna que um ser humano pode ter.


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Qualquer um que viva na sociedade contemporânea tem conhecimento de uma de suas mais acentuadas tendências: o fascínio pelo moderno, pelo novo — por tudo, enfim, que seja up-to-date.

Basta reparar, por exemplo, no uso da tecnologia: antes restrita a círculos profissionais, agora é item de uso ordinário.

Esse fascínio pelo novo também se manifesta no culto à juventude, tão presente na cultura de massa e na onda fitness, e que se baseia na suposição de uma idade mágica entre os 20 e os 30 anos.

É fato reconhecido, aliás, que o adolescente e jovem adulto médio dos dias de hoje conhece escassamente o passado, mesmo em suas áreas de interesse. O tempo dos jovens é o tempo da cultura de massa, das redes sociais, do Youtube — nos quais as tendências e os ídolos mudam em poucos meses ou mesmo semanas.

Compare-se os filmes dos 1970 e os de hoje: antes, os protagonistas (e os atores que os interpretavam) tinham em sua maioria mais de 35 anos; hoje predomina o protagonista jovem adulto, adolescente ou criança.

O fascínio pelo novo não se limita porém à tecnologia ou cultura. No debate público, propostas que prometem “avançar” a sociedade — legalização do aborto e das drogas, criminalização de opiniões tidas como preconceituosas etc. - são cercadas por aura quase mística, e quem ousa apontar equívocos em tais projetos é acusado de "reacionário" e, termo mais em moda nesses dias radicais, “fascista”. Policy makers se sentem lisonjeados ao serem chamados de "progressistas", enquanto rejeitam como ofensivo o termo “conservador”.

No debate público, os formadores de opinião concedem aos progressistas o benefício das boas intenções — enquanto lançam aos conservadores a suspeição imediata de interesses ocultos, até que provem o contrário.

Esse culto ao novo (como acontece com cultos em geral) ampara-se na simplificação excessiva. Desconsidera as nuanças. Lança o facho de luz sobre um único aspecto, relegando tudo o mais às trevas.

Mas, a verdade oculta nas sombras é: em tudo devemos algo ao passado. Nossa língua, nosso modelo político, nossa religião.... Em cada um de nós estão presentes os traços gerais da cultura em que nascemos, crescemos e vivemos — e todos remetem ao passado. A Psicologia inclusive reconhece que a história familiar, mesmo a de gerações pregressas ao nascimento do indivíduo, exerce influência importante sobre a conduta humana. Até mesmo o caráter de um povo, ou seja, seus traços distintivos, remete à sua formação e evolução — o que pode ser comprovado na leitura atenta das literaturas nacionais. Nada é plenamente compreensível a partir do atual, do imediato; mas somente com visão retrospectiva, a mesma que o homem moderno minimiza ou mesmo rejeita.

O homem moderno que menospreza o passado é como um peixe que menosprezasse a água que o rodeia. Agindo assim, retrocede — embora se considere evoluído e rotule os que prestam contas ao passado como "conservadores" ou "reacionários". Mal sabe ele (sequer suspeita) que menosprezar o passado, o antigo, o arcaico é perder aquilo que o ser humano tem de único, se comparado às demais espécies animais.

De fato, somente a espécie humana é capaz de registrar suas experiências e transmiti-las a outrem. Este senso histórico, por assim dizer, ajuda-a não repetir os mesmos erros. O acúmulo de experiências permite ainda realizações grandiosas demais para uma única geração. Dizemos que grandes inventores criaram artefatos ou elucidaram processos da natureza — mas o trabalho deles só foi possível por conta dos registros acumulados pelos que os antecederam. Não é exagero considerar o senso histórico como uma das vantagens humanas decisivas em relação às demais espécies animais.

O repúdio ao passado é o repúdio a esse legado humano único: o acúmulo de lições e valores por meio da História. Ao tentar suplantar o passado, relegando-o como se ele jamais existira, o moderno ou progressista opta — para usarmos uma figura de Ortega y Gasset — por descer e agir como orangotango. É uma postura anti-humanista, obscurantista.

Como uma postura assim pode ter se disseminado na sociedade brasileiro, a ponto de entranhar-se no debate público?

Isso só foi possível porque a base de valores tradicionais de nossa sociedade já está em alguma medida enfraquecida — já por processos naturais de modernização, já (e isso é o mais grave) por processos implementados deliberadamente por agentes de mudança social. Estes últimos, imbuídos de Marxismo cultural, estão a serviço de uma "guerra cultural", cujo objetivo é a destruição dos valores greco-cristãos sobre os quais nossa sociedade foi constituída.

Esses agentes do progresso, com presença na educação e nas políticas sociais, constroem um passado imaginário, falsificado, que não merece estudo sério ou reconhecimento. Expostas a isso, as novas gerações crescem num presente constante, incapazes sequer de imaginarem todo o universo de referências que lhe foge do alcance. Se os jovens de ontem eram ingênuos por acreditarem numa História repleta de heróis e seus grandes feitos, os de hoje são cínicos justamente por não acreditarem mais nisso. Acham-se “críticos” aos acreditaram (de modo ingênuo) numa História em que uma burguesia onipresente impediu, a todo instante e a qualquer propósito, a Pasárgada prometida pelo Marxismo, essa religião de ateus.

Num contexto assim, no Brasil de hoje, a quem cabe defender o legado humano?

A nós, conservadores.

Afinal, o conservador, livre da moda de menosprezar o passado, está apto a incorporá-lo no presente, reforçando o papel do homem civilizado e mostrando-se assim à altura do legado compartilhado pela sociedade humana.

No Brasil de hoje, ser conservador é a atitude mais digna que um ser humano pode ter.

Minto: é a única atitude digna que um ser humano pode ter.


Douglas Lobo

Escritor e jornalista. Autor dos romances "Terra Amaldiçoada" (2015) e "O Último Natal de um Homem Rico" (2018). Reside e trabalha em Fortaleza, Ceará.
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