lanterna cultural

Uma luz em tempos sombrios

Douglas Lobo

Escritor e jornalista. Autor dos romances "Terra Amaldiçoada" (2015) e "O Último Natal de um Homem Rico" (2018). Escreve para adultos que ainda se lembram da magia de boas histórias.

O mergulho de Stephen King na escuridão

Nas novelas reunidas em Full Dark, No Stars (EUA: Gallery Books, 2011; no Brasil: “Escuridão total sem estrelas”), Stephen King traz protagonistas que realizam atos grotescos. No entanto, o autor nos consegue fazer sentir empatia por esses personagens, à medida que percebemos que a linha que separa o bem do mal pode ser fina como cetim.


Big Driver.jpg Maria Bello e Will Harris em cena do filme para TV Big Driver, baseado em uma das novelas do livro. Foto: Chris Reardon – © 2014 – Lifetime

Nas novelas reunidas em Full Dark, No Stars (EUA: Gallery Books, 2011; no Brasil: “Escuridão total sem estrelas”), Stephen King traz protagonistas que realizam atos grotescos. No entanto, o autor nos consegue fazer sentir empatia por esses personagens, à medida que percebemos que a linha que separa o bem do mal pode ser fina como cetim.

Isso não é novo na carreira de King. Na verdade, é um recurso cuja eficácia o autor defende em seu livro sobre escrita de ficção, On Writing: dar um “nó” na cabeça do leitor, desafiá-lo em suas convicções, forçá-lo a entender motivações que o desafiam.

1922 conta a história de um fazendeiro que mata a esposa para herdar terras de propriedade dela. Ele consegue o intento, mas a partir daquele momento uma série de percalços passa a atingi-lo. King descreve o mergulho do protagonista no desespero como uma punição divina pelo pecado cometido. O inferno em vida do personagem — provável presságio do que sofrerá após a morte — acaba por nos sensibilizar, numa empatia tão surpreendente quanto incômoda.

1922.jpg Thomas Jane em 1922, produção da Netflix baseada em uma das novelas do livro

Big Driver trata de uma mulher estuprada em uma rodovia. Escritora policial, ela inicia uma investigação para localizar o estuprador. No entanto, a personagem não busca a Justiça; busca vingança, e isso a levará a caminhos que ela jamais imaginara. À medida que o conto prossegue, a protagonista descobre uma força interior que nem desconfiava ter. Enquanto isso, pegamo-nos cada vez mais a torcer por ela.

Fair Extension recria a clássica história do pacto com o demônio. O protagonista, um pai de família fracassado e com doença terminal, tem a chance de mudar sua vida após se encontrar com um estranho vendedor de estrada. O benefício porém vem com um preço: dar o nome de alguém para quem as desgraças dele possam ser transferidas. Ao conhecermos melhor o personagem, e o homem a quem ele repassa a má-sorte, passamos a ter a incômoda sensação de que o demônio talvez seja um fator de equilíbrio na ordem humana (espero que só algumas vezes…).

A Good Marriage mostra uma esposa apaixonada que descobre por acidente um lado tenebroso do marido. Agora ela precisa escolher entre a decisão correta, do ponto de vista moral, e a proteção dos filhos. O dilema da protagonista termina em uma decisão que a maioria de nós condenaria, mas talvez a tomássemos sob as mesmas circunstâncias.

Full Dark, No Stars mergulha na escuridão humana, nos atos abomináveis a que às vezes somos levados. Digo “somos” porque os protagonistas neste livro não são psicopatas ou mesmo cruéis: são homens e mulheres comuns, com quem nos identificamos e de cuja convivência fictícia saímos com a perturbadora consciência de que o mal nem sempre é tão fácil de evitar quanto aprendemos quando crianças.


Douglas Lobo

Escritor e jornalista. Autor dos romances "Terra Amaldiçoada" (2015) e "O Último Natal de um Homem Rico" (2018). Escreve para adultos que ainda se lembram da magia de boas histórias. .
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