lanterna cultural

Uma luz em tempos sombrios

Douglas Lobo

Escritor e jornalista. Autor dos romances "Terra Amaldiçoada" (2015) e "O Último Natal de um Homem Rico" (2018). Reside e trabalha em Fortaleza, Ceará

Uma Vocação Desperdiçada

Resenha do livro "O Rio é tão Longe: cartas a Fernando Sabino", de Otto Lara Resende.


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Nas cartas que Otto Lara Resende enviou a Fernando Sabino ao longo da vida (O Rio é tão Longe: cartas a Fernando Sabino. Introdução e notas de Humberto Werneck. São Paulo: Companhia das Letras, 2011) , fica claro que o autor do romance "O Braço Direito" foi um ficcionista genuíno que se desviou de sua vocação.

De fato, romancista e contista de alto calibre, Otto Lara Resende escreveu em vida, no entanto, poucas obras (cinco livros de contos e um romance). Isto se deve — e esta epistolografia atesta-o — tanto a seu perfeccionismo quanto à sua dispersão em vários afazeres profissionais.

No primeiro caso, a busca da obra perfeita, bem-acabada, levava-o a retardar a publicação de material, a ponto de Fernando Sabino aconselhá-lo: "é um livro, não tem que ser o livro, diabo!"

No segundo caso, o excesso de compromissos profissionais deixava-lhe pouco tempo disponível para o individualismo solitário da carreira literária. Afinal, a criação literária é antes de tudo um ato individual, isolado; a contribuição de um escritor para a sociedade só é possível quando ele se isola dessa mesma sociedade — numa contradição mais aparente que real.

Como o próprio Otto Lara Resende reconhecia, ele vivia mais para os outros que para si. "(...) Vivo crucificado em mil probleminhas alheios, causas chatas, aquela minha vocação de ser devorado pelos outros", escreve de Lisboa, a 15 de março de 1969 (pg.308). Ele chega a celebrar sua recusa em emprestar dinheiro a alguém, mas confessa que isso lhe fez dormir mal e ter remorsos. Em carta de 22 de maio de 1969, confessa: "É o velho problema: não querendo (ou não sabendo) dizer não, querendo satisfazer ao interlocutor, sujeito à pressão, caio numa aparente perplexidade e hesitação." (pág.331).

Essa dificuldade de dizer "não" fez com que assumisse quantidade impressionante de atividades (jornalista, diretor de banco, adido cultural, procurador, professor, advogado), que relegaram a literatura às horas mortas do cansaço e da sonolência.

Otto Lara Resende parecia ter noção dessa vida desperdiçada, embora tentasse disfarçar essa consciência por meio do bom humor. "Meu Cemitério Literário!", escreve a 11 de junho de 1969. "É maior do qualquer cemitério de automóveis da Califórnia" (pág. 354). As cartas são cheias de comentários sobre projetos abandonados, procrastinação, adiamentos, num escritor em quem o conforto material advindo dos cargos atuou mais contra a vocação literária que a favor — armadilha do acomodamento burguês para a qual Mário de Andrade alertara Fernando Sabino, em outra correspondência, mais famosa.

Curiosamente, a mesma epistolografia mostra que se Otto Lara Resende não se tornou o ficcionista que almejava ser, dúvida ele se tornou um escritor, isto é, alguém que dominava as palavras. Escritas em um português que dialoga com a linguagem falada, sem descuidar porém da gramática e das nuances da língua culta, as cartas reunidas neste livro comprovam o que os amigos de Otto diziam dele: que seu maior talento era a epistolografia. O perfeccionismo do escritor, claro, levou-o a rejeitar a proposta de Fernando Sabino, ainda nos 1960, de publicar sua correspondência. Décadas depois, o projeto de edição preparado por Sabino acabou publicado pela Companhia das Letras.

Se em vida o profissional Otto Lara Resende venceu o escritor, essa correspondência póstuma não deixa de ser, assim, uma vingança do escritor contra o profissional. Escritores têm este privilégio, o de continuarem a luta depois de mortos — ainda que se trate, como no caso aqui, de um conflito consigo mesmo: a faceta criativa versus a profissional, no interior de um homem cuja disponibilidade excessiva aos outros acabou por soterrar a ânsia individual da criação literária.


Douglas Lobo

Escritor e jornalista. Autor dos romances "Terra Amaldiçoada" (2015) e "O Último Natal de um Homem Rico" (2018). Reside e trabalha em Fortaleza, Ceará.
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