lanterna cultural

Uma luz em tempos sombrios

Douglas Lobo

Escritor e jornalista. Autor dos romances "Terra Amaldiçoada" (2015) e "O Último Natal de um Homem Rico" (2018). Escreve para adultos que ainda se lembram da magia de boas histórias.

O Brasil Narcisista

Impossível ver o mundo de hoje sem lembrar do historiador Christopher Lasch (1932 – 1994), celebridade nos 1980 devido a seu livro “A cultura do narcisismo” (1979). A tese básica da obra é que a erosão progressiva do senso de comunidade lançou a sociedade norte-americana numa era de narcisismo, caracterizada pela perda de importância da personalidade, substituída pela preocupação com a imagem. Isso equivale a deixar de nos preocupar com o que somos para passarmos a nos preocupar em como somos vistos.

O Brasil dos últimos anos parece caminhar para esse caminho.


christopher-lasch.jpg

Impossível ver o mundo de hoje sem lembrar do historiador Christopher Lasch (1932 – 1994), celebridade nos 1980 devido a seu livro “A cultura do narcisismo” (1979). A tese básica da obra é que a erosão progressiva do senso de comunidade lançou a sociedade norte-americana numa era de narcisismo, caracterizada pela perda de importância da personalidade, substituída pela preocupação com a imagem. Isso equivale a deixar de nos preocupar com o que somos para passarmos a nos preocupar em como somos vistos.

O Brasil dos últimos anos parece caminhar para esse caminho.

Numa sociedade narcisista, a preocupação com a imagem se torna tão grande que o mundo dos indivíduos passar a ser constituído de espelhos imaginários. Mais grave ainda é que o cuidado excessivo em projetar uma representação acaba por fazer o indivíduo acreditar nela de fato, como um ator que se enclausurasse para sempre no papel. Com isso, o próprio senso de personalidade é perdido, às vezes para sempre. Experimenta ficar todo dia de frente para o espelho, a imaginar que você é alguém diferente. Questão de tempo até o cérebro acreditar.

Chega a ser assustador que exercícios assim sejam recomendados hoje em dia por psicólogos e palestrantes motivacionais, mas não surpreendente: é a prova de que já vivemos em uma sociedade narcisista.

De fato, é característico desse tipo de sociedade que o narcisismo se mostre encoberto por mensagens motivadoras, escapistas em relação à realidade (“você é especial”, “imagine e conseguirá”, “a idade está na cabeça” etc.). Toda a voga do “feel good”, tão forte nos Estados Unidos a partir da publicação do livro Feeling Good (1980), de David Burns, e que agora chega ao Brasil, encobre uma pressão velada para que os indivíduos pareçam bem, mesmo que não estejam. Seja feliz, viva sorrindo, diga sempre que sua vida é especial — mesmo que seja tudo mentira; afinal quem se interessa de fato por você, numa sociedade onde todos só olham para a própria imagem no espelho?

Quando lhe dizem que é preciso dar “bom dia” a todos, mesmo que seu dia não esteja bom e os problemas se acumulem, a mensagem subliminar é: “eu não ligo para os seus problemas, não venha me desmotivar com eles.” O outro só existe se agradar o meu eu.

O fenômeno das bolhas, criado pelas redes sociais, é o ápice de uma sociedade narcisista. Projeta-se uma imagem que os algoritmos das redes sociais reforçam, de modo que a identidade individual desaparece, soterrada pelo disfarce social. Christopher Lasch morreu um ano antes do surgimento da internet, mas arrisco dizer que o grande historiador, vivo fosse, chegaria à conclusão lógica, inevitável: o que é uma bolha senão um espelho que nos rodeia?


Douglas Lobo

Escritor e jornalista. Autor dos romances "Terra Amaldiçoada" (2015) e "O Último Natal de um Homem Rico" (2018). Escreve para adultos que ainda se lembram da magia de boas histórias. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/Ensaios// //Douglas Lobo