las abuelitas

na casa da vovó pode fazer arte

Priscilla Leal

Dedica-se à pesquisa sobre mulheres e produção cultural. É atriz e gestora cultural. Idealizou os projetos "Mulheres Artistas na Ditadura" e Las Abuelitas

A jornada de Xavier na trilogia do filme Albergue Espanhol

O diretor francês Cédric Klapisch começou a escrever a jornada do personagem Xavier em 2002, com o filme "Albergue Espanhol", e encerrou em 2013 com o "Enigma Chinês". Não sem antes visitar a Rússia no filme "Bonecas Russas", em 2005. A trilogia de Cédric nos leva da juventude à maturidade, e torna-se um convite à reflexão sobre a nossa própria jornada.


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A trilogia do diretor francês Cédric Klapisch começou com o Albergue Espanhol, em 2002. No filme, Xavier interpretado pelo ator Romain Duris, é estudante de Economia, em Paris, e decide fazer um intercâmbio em Barcelona, para aumentar suas chances no mercado de trabalho. Xavier chega a cidade sem falar espanhol e sem ter onde morar. Acaba sendo aceito em uma república formada por estudantes de diversos países e por lá vive uma diversidade de experiências que mudam a sua vida e sua escolha profissional.

Xavier decide mudar o próprio percurso e virar escritor, sonho que sempre alimentou na infância.

No filme seguinte "Bonecas Russas", lançado em 2005, o personagem está enfrentando dificuldades em se estabelecer na carreira de escritor e reencontra seus colegas de república em um casamento na Rússia. Xavier está na faixa dos 30 anos, busca um relacionamento amoroso ideal e vive a realidade do caminho profissional que escolheu.

Por fim, no último filme "Enigma Chinês", o personagem já tem algum sucesso como escritor, apesar de estar passando por um bloqueio criativo, casou-se, tem 40 anos e é pai de dois filhos. Por motivos da vida, ele se muda mais uma vez, agora para Nova York, e começa um novo momento.

Essa trilogia rende diversas abordagens.

O personagem principal, por exemplo, está sempre envolvido em uma teia de mulheres, perdido no meio delas. Esse fato já permite diversas interpretações, mas o que também chama a atenção na jornada do Xavier é o cotidiano.

Os filmes franceses têm como característica minuciar o cotidiano: mostra-se o personagem tomando água, banho, dormindo,etc. Esse fato aliado com o caminho percorrido pelo protagonista nos dá a possibilidade de pensar sobre nossa própria jornada.

O que sonhamos e o que vivemos?

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Quando jovens, se temos alguma inclinação artística ou um desejo de vivermos fora dos "padrões", imaginamos um futuro "exótico", sem rotina, sem nada mundano.

O artista é aquele que não cumpre regras, que troca o dia pela noite, que é pago para criar quadros, cenas ou histórias. A rotina é vista como inimiga mortal do artista.

Quando Xavier decide largar o escritório para escrever, ele simplesmente sai correndo. Foge daquela realidade, daquele padrão. No entanto, no filme seguinte, vemos Xavier escrevendo uma novela medíocre, algo em que não acredita, trabalhando para ganhar dinheiro e para se estabelecer.

Ele está feliz. Em momento algum pretende voltar para a antiga carreira de economista, aquela que nem começou. Porém ele se depara com a vida real, começa a viver o sonho que escolheu.

Muitas vezes já estamos nesse caminho mas ainda fantasiamos com um futuro diferente. É normal ouvir frases como "quando mudar de emprego, minha vida vai mudar", "se eu tivesse tido a possibilidade de fazer o que gostava seria diferente", e por ai vai. Mas será mesmo que seria?

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O filme mostra que mesmo Xavier fazendo aquilo que queria e que gostava, ele teve que ceder. Afinal, a vida real e presencial, exige que você pague para ter coisas e, principalmente, mostra que o mundo não tem os mesmos valores que a gente.

E reconhecer isso pode ser libertador, já que te permite explorar outras portas e pensar em possibilidades que antes não se encaixavam naquele desejo da juventude.

Xavier correu daquele futuro trancado em um escritório e amarrado em uma gravata. Escolheu um outro caminho, dentro da arte de criar histórias. E dentro desse novo percurso encontrou chatices e rotina também. Simplesmente, porque isso faz parte da vida.

Assumir esse aspecto nos permite viver o hoje e ter a insatisfação dosada: algo que nos permita ir para frente.

O personagem escritor não reclama da sua condição. Ele vai vivendo, se adaptando, focado na sua escrita. No último filme, Xavier está estabelecido na profissão e é reconhecido, mas a vida exige uma nova mudança. E ele vai. Chegando em Nova York trabalha no que precisa para se manter dentro do novo objetivo. E escreve.

O que chama a atenção na jornada descrita é que essa adaptação não é passiva. Ela é necessária e natural, pois não temos o controle total do nosso caminho. A partir do momento em que o protagonista escolhe seu novo trajeto profissional, ele defronta-se com novas dificuldades e novas rotinas. E isso é orgânico. Porque a vida presente, essa que a gente vive agora é assim: rotineira, cotidiana, com problemas e soluções.

Sem dúvida temos que ser Xavier e correr atrás do que queremos. Se é o escritório fechado ou aberto, não importa. A escolha é pessoal e nossa. O importante é não ter ilusões: pode ser que você já esteja vivendo o que deseja e nem tenha percebido, pois está atrás daquele momento em que a rotina desaparece.

O grande barato da maturidade é isso: a gente aprende que esse momento não existe. As pequenas coisas do dia a dia fazem parte sempre.

E no fim, quando nos fazemos presentes, é possível encontrar beleza e inspiração nessas partículas cotidianas.


Priscilla Leal

Dedica-se à pesquisa sobre mulheres e produção cultural. É atriz e gestora cultural. Idealizou os projetos "Mulheres Artistas na Ditadura" e Las Abuelitas.
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