las abuelitas

na casa da vovó pode fazer arte

Priscilla Leal

Dedica-se à pesquisa sobre mulheres e produção cultural. É atriz e gestora cultural. Idealizou os projetos "Mulheres Artistas na Ditadura" e Las Abuelitas

Clarissa Pinkola Estés e Virgínia Woolf: a criatividade da mulher

Era uma vez, um rico fidalgo que cortejou uma moça pobre, mas muito bonita, e conquistou seu afeto. Com ela teve dois filhos, mas ele não se dispôs a se casar com ela. Um dia, comunicou que estava indo para a Espanha casar-se com uma moça rica, escolhida por sua família, e que levaria seus dois filhos com ele. A jovem mãe ficou fora de si. Enfurecida, arranhou o rosto do homem e o seu próprio rosto. Apanhou os dois filhos pequenos e se jogou com eles na correnteza de um rio. A alma da mulher subiu aos céus. Lá, o porteiro-mor avisou que ela só poderia entrar depois de resgatar os filhos. Por isso dizem que, quando anoitece, as crianças não podem ficar nas margens dos rios. A La Llorona pode confundi-los e levá-los para o céu.


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A versão mais moderna da história conta que o fidalgo tinha uma fábrica junto ao rio. Algo, no entanto, deu errado. Durante a gravidez, La Llorona bebeu água do rio. Seus filhos, dois meninos gêmeos, nasceram cegos e unidos por uma membrana, pois o fidalgo tinha envenenado o rio com os dejetos da sua fábrica.

O fidalgo disse a La Llorona que não a queria mais, nem os filhos. Foi embora e casou-se com outra mulher. La Llorona, com dor, jogou seus filhos no rio e, depois, caiu morta.

Essa é a lenda de La Llorona, descrita por Clarissa Pinkola no livro “Mulheres que Correm com Lobos” e trata da vida criativa da mulher. La Llorona representa a mulher que tem sua vida criativa contaminada, que se perde da sua criação, que interrompe sua criatividade. A busca pelos filhos, nada mais é que o resgate desesperado dessa força vital que para de correr no corpo da mulher, deixando-a cansada, sem energia, acomodada.

Essa contaminação pode ser interna ou externa. A mulher pode se autossabotar deixando os inimigos internos atacarem sua criatividade “eu não sei fazer nada mesmo”, “preciso estudar mais”, “primeiro vou arrumar a casa, depois escrevo” e etc. Nesse caso é necessário um mergulho interior para fazer a limpeza do rio, resgatar os filhos atirados à correnteza que se perderam da mãe.

Mas também essa contaminação pode ser externa, e aqui trago o livro da escritora inglesa Virgínia Woolf: “Um teto todo seu”. Esse livro nasceu de dois artigos que Virgínia escreveu para a Arts Society e cujo tema era “mulher e ficção”.

Nessa obra Virgínia ressalta as dificuldades sociais das mulheres para escrever. Em síntese a autora destaca o fato das mulheres terem que ajudar nos trabalhos domésticos, não irem à escola, não terem dinheiro e, principalmente, não terem um lugar para escrever, um teto todo seu. Destaca ainda o desencorajamento social. Quer dizer, a mulher escritora tinha que ouvir “você não pode fazer isso, você é incapaz de fazer aquilo”, e tinha que despender tempo e energia para provar que poderia sim escrever.

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Esses são os inimigos externos que Clarissa também destaca em seu texto. Sempre por trás do ato de escrever, pintar, pensar, curar, falar, cozinhar, fazer, tem um rio que corre livre. Porém, esse rio pode ser poluído por forças externas, da cultura em que essa mulher está inserida. Ele é poluído quando a sociedade diz que as ideias da mulher são inúteis, que não adianta ela se esforçar, ninguém vai se interessar, que continuar é bobagem. Essa mulher então vai sendo minada e vai acreditando em cada palavra. Ou, como diz Virgínia, o esforço para provar que ela é capaz, contamina sua produção criativa, que não consegue fluir por si mesma.

Essa poluição acontece nas pequenas coisas. Quando desprezamos o trabalho de uma artesã porque não tem retorno financeiro, quando impedimos uma filha de praticar uma atividade artística, porque julgamos ser “coisa de homem”, quando não elogiamos aquele prato delicioso, por pensar que simplesmente é obrigação daquela mulher. A mulher pode optar em viver do seu trabalho criativo, como pode praticá-lo sozinha em seu quarto como forma de expressão. Não vou entrar no mérito se é ou não artista, a discussão é o impulso que faz essa mulher criar. Se vivemos em uma sociedade patriarcal que não inseriu as mulheres na historiografia da arte, como criar referências de respeito ao trabalho criativo das mulheres?

Virgínia Woolf começa seu texto narrando seu processo criativo para escrever aquele ensaio. E ela é interrompida diversas vezes. Primeiro porque está andando no gramado da Universidade e mulheres não poderiam andar por ali, depois porque para entrar na biblioteca, por ser mulher, era necessária uma autorização, e por aí vai. Virgínia escreve no século passado, mas hoje também não impedimos o fluxo criativo das mulheres?

Eu ouso afirmar que sim. Que ainda vivemos em uma sociedade na qual a mulher tem que provar que sua arte ou até mesmo seu hobby é digno de respeito. É só pensarmos na mãe que tricota e é interrompida o tempo todo pelos filhos, afinal ela não está fazendo nada, é trivial, não é importante. O problema é que a mulher vai introjetando isso. Ela realmente acredita que o assado que ela faz de domingo, cujo prato ela enfeita e a receita inventa, é sua obrigação, nada mais. Ela se perde dos elogios, não valoriza seu poder criativo. Se for elogiada, certamente vai responder “isso não é nada, é só um assado”. O artesanato dela fica escondido, o tricô parado na gaveta para quando ela tiver tempo, e por aí vai.

E a mulher que quer viver da sua arte, muitas vezes se esconde: “Não estou pronta”, “Preciso estudar mais”, “quando eu estiver pronta mostro minha arte”. Muitas se escondem em lugares relacionados à atividade criativa, mas que não é a atividade criativa.

Para criar é necessário inspiração, concentração, organização, implementação e manutenção. Virgínia Woolf já defende isso na década de 30 quando diz “a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu para escrever”.

Mas como criar essas possibilidades se nos faltam referências de mulheres que percorreram esse caminho, infelizmente são poucas as que chegaram até nós, e somos bombardeadas com afirmação de que mulher pode fazer isso e não aquilo? Se ainda temos que provar que podemos criar em determinadas áreas?

A arte acaba sendo deixada para momentos roubados, curtos e que sobram.

Clarissa Pinkola afirma que se a mulher vive em uma cultura que agride sua função criadora, é isso que ela vai incorporando em sua psique: uma força esfacelada e doente e não uma força sã, cheia de vitalidade e potencial.

No entanto, esse texto não tem como pretensão vitimizar a mulher ou apontar eventuais desculpas. A história é como é e o movimento de mudança deve vir de todos os lados e, felizmente, está vindo: das pesquisadoras, artistas, grupos feministas. Mulheres que estão repensando seu lugar na história e questionando-a.

Hoje podemos burlar essas regras. Podemos nos unir.

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Virgínia Woolf escreveu esse belíssimo ensaio que hoje podemos ler, sublinhar e discutir. Clarissa Pinkola em seu texto afirma que podemos reassumir o rio: seja sensível e selvagem, comece, proteja o tempo, fique com a criatividade, proteja a vida criativa, ofereça alimentos para a vida criativa, forje seu verdadeiro trabalho e aceite elogios.

Aceitar elogios não é perder o bom senso. Se a mulher sabe que seu trabalho está no começo, que ainda não tem forma, se ela tem consciência do seu papel de criadora, ela tem noção do que é um elogio bajulador, mentiroso e do que é um elogio honesto e construtivo.

Ir para os extremos pode ser, inclusive, outra forma de boicote interno, pois se eu acredito que meu trabalho é o máximo, também paro ali. A fantasia completamente divorciada da realidade é paralisante tanto quanto o pensamento destrutivo.

Quando ela diz “aceitar elogios” é para a mulher, principalmente, se cercar de pessoas que darão esse olhar positivo a ela. Mais uma vez não estou falando de um coro de pessoas falsas que vão falar o que você quer ouvir. Mas pessoas que entendem sua criatividade e compartilham dela, que admiram seu rio.

Isso porque, muitas vezes nos cercamos de pessoas opostas. Pessoas que desprezam nosso trabalho, nosso bordado, que acham que nosso alimento é pura obrigação e que nosso artesanato não tem serventia. Que estar no palco é vaidade de menina, que nossa voz é bonitinha no chuveiro, que nosso livro tem que ficar na gaveta e nossas poesias na agenda. Não! Essas pessoas só servem para aumentar as vozes de uma cultura que definiu onde uma mulher pode expressar sua criatividade e onde ela não pode.

Já pensou a energia que se gasta tentando provar o contrário? Virgínia Woolf já trouxe isso no século passado, porque continuamos repetindo?

Temos mais sorte que a Virgínia. Pois com a internet e as redes sociais, podemos encontrar nossa turma. Experimenta jogar “mulher literatura”, “artesanato”, “graffiti e minas” e você encontrará muitas parceiras. Pegue um tempo para discutir seu ponto no bordado com aquela colega que também borda para relaxar. Esse relaxamento é o rio correndo limpo e livre, é a La Llorona com seus dois filhos.

E quando alguém elogiar o seu assado, aceite! Certamente está delicioso.

Cerque-se de quem vai somar.

E se alimente também. Leia Virgínia, Clarissa, Simone, Michelle...grandes mulheres! Leia grandes homens também. Entender o início e o caminho das coisas é ganhar argumento contra o boicote e impedir que sua La Llorona jogue seus filhos no rio...os filhos são sua cria, sua criação, a capacidade de produzir algo onde antes não havia nada!


Priscilla Leal

Dedica-se à pesquisa sobre mulheres e produção cultural. É atriz e gestora cultural. Idealizou os projetos "Mulheres Artistas na Ditadura" e Las Abuelitas.
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