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A vida permite várias interpretações

Carolina Mussoi

Depois do último trem: o realismo fantástico e a metáfora da negação à morte

Josué Guimarães, autor gaúcho, nascido em São Jerônimo, brindou a literatura brasileira com diversas obras. Figura multifacetada desempenhou, dentre várias atividades, a de jornalista, político e escritor, sendo essa última a de maior abrangência. Em “Depois do último trem”, de 1973, encontramos aquilo que se pode considerar como a metáfora da negação à morte. O realismo fantástico percorre toda a narrativa, característica essa, aliás, que pode ser encontrada em outras obras do autor, como em “Enquanto a Noite não Chega”, de 1978; e em “O Cavalo cego” de 1979.


Muitas vezes precisamos abandonar um lugar, uma ideia, uma rotina para responder a certos anseios e vontades de mudança. Depois, vontades satisfeitas - ou novas possibilidades criadas - acabamos querendo voltar àquele que foi o berço de todo um ideário; de uma vida e de tomadas de decisões. Nem sempre é possível. E quando o é, podemos encontrar consequências inimagináveis e, às vezes, intransponíveis. Esse é o clima que paira na obra intitulada Depois do Último trem, de Josué Guimarães.

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Eduardo, protagonista da novela (Moysés,1974), retorna a sua cidade natal, Abarama, e descobre que ela desaparecerá dos mapas em poucos dias. A construção de uma barragem transformará o local da cidade em uma represa; tudo ficará submerso. Ele acompanha as últimas horas daquele lugar e revive fatos que perdeu em seu período de ausência. Distante por dez anos, ele encontra aqueles que seriam os habitantes remanescentes e divide com eles a inércia; a impossibilidade da luta contra o destino: o deixar de existir. O desespero frente às perdas ocorridas em seu período de ausência, derramadas de uma só vez logo em sua chegada, faz com ele passe a imaginar como teriam sido cada um dos desfechos: a despedida de seu irmão, a fuga da irmã, morte de seus pais, a partida de Zoraide, enfim: como teriam sido todos momentos de adeus.

Nesse imaginar de Eduardo, e em muitos dos desfechos dados às demais personagens, percebemos traços do realismo fantástico, expressão literária que marcou a escrita latino-americana na segunda metade do século XX. Essa forma de escrita reúne e mescla partes do enredo, da narrativa lógica, com aquilo que pode ser considerado sobrenatural. Podemos ver exemplos desse movimento nas passagens em que se relata a morte de um ilusionista na cadeia, a invasão de gafanhotos gigantes e, com mais sutileza, nos diálogos entre Eduardo e seus familiares (uns já mortos, outros ausentes). Junto a esses elementos, podemos destacar, também, os momentos em que o próprio protagonista se confunde entre a fantasia e a realidade: o relógio deixando de marcar o tempo; a mãe descrita como uma figura quase etérea, mexendo uma panela que ferve, embora a chama do fogão não esteja acesa; o fato de os gafanhotos gigantes deixarem as mãos do Padre da cidade “tisnadas de sua gosma pegajosa”, os diálogos com o tio, vítima fatal de sua loucura.

O tempo transcorrido, mensurável apenas através das noites e demarcado pelas descrições quanto a mudanças climáticas, e de elementos importantes da cena, como a mala de costuras de sua mãe: horas empoeirada; horas recheada dos trabalhos manuais, nos faz perceber que Eduardo está, na verdade, vivendo um diálogo com fantasmas do passado. O tempo cronológico passa a não existir, sendo o último vínculo do protagonista com a realidade a figura de Tio Lucas. Homem de idade avançada, com a saúde comprometida, e que passa boa parte do dia a relatar e a criticar as ações dos outros; do próprio sobrinho, inclusive. É importante lembrar que a narrativa fantástica desponta no período em que o Brasil está sob a égide da ditadura, sendo a literatura e suas possibilidades metafóricas uma das formas de livre expressão, permitindo imprimir-se às palavras a angústia, o desespero, a inércia frente ao medo da morte. Nesse sentido, entende-se que a crueza do real, do sentimento de perda de Eduardo é suplementado - e por que não dizer acalentado? - através das situações permitidas pelos elementos não reais. A respeito da relação estabelecida entre esses elementos na literatura fantástica (o real e o não real), José Hildebrando Dacanal sustenta que: “[...] na literatura latino-americana, aí incluída a brasileira, a oposição fica totalmente afastada, de tal sorte que ambos os elementos convivem sem maiores problemas.” (DANACAL, 1970, p. 85).

Nesse contexto, entendemos que a personagem de Tio Lucas, em verdade, ocupa o lugar da consciência de Eduardo. Na medida em que a narrativa se desenvolve, percebemos, cada vez mais, o embate entre os dois. Se a saída de Arabama foi consequência dos maldosos relatos de seu tio, o retorno - embora em nenhum momento descrito - parece ser a chave para um acerto de contas, mas entre Eduardo e suas próprias angústias, seu próprio destino projetado na figura (irritante e insuportável para o protagonista) de Tio Lucas. Não sabemos por que Eduardo voltou para a cidade, mas sabemos que dela não sairá; não sem antes resolver todos os seus fantasmas. Com final melancólico, o autor nos faz refletir sobre os diversos momentos de chegadas e partidas pelos quais passamos; escolhas que fazemos e as consequências disso para nossas vidas, mas muito mais evidente se torna que toda a narrativa, todo o desespero e todas as reflexões de Eduardo nada mais são do que metáforas para o desfecho a que todos nós estamos fadados: a morte. Alegoricamente relacionada à chegada das águas, o trem torna-se a última esperança do protagonista em abandonar o passado em que está submerso, ou seja: a última esperança de viver. Mas era tarde demais: o último trem já havia passado há muito tempo.

Referências:

  • DACANAL, José Hildebrando. Realismo Mágico. Porto Alegre, Ed. Movimento, 1970.
  • GUIMARÃES, Josué. Depois do último trem. Porto Alegre: L&PM, 1973.
  • MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. São Paulo: Cultrix, 1974.


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