CLEÂNE ALVES

"... A paz em cada gesto que faça..."

FELICIDADE CLANDESTINA: A ESPERA POR SER FELIZ

A menina pobre do Recife ousa sonhar, pois o inconsciente é totalmente indiferente ao real. Nesse trânsito de emoções a menina já sabia ser aquela uma felicidade clandestina, que anunciava a todas as futuras clandestinidades. A espera pelo dia seguinte será, na fala da narradora-personagem, um fato corriqueiro na vida dela, sabia que o coração iria bater forte sempre e a cada nova ilusão de conquista e, mesmo que esperasse, esperasse... nada a faria desistir...


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No conto Felicidade Clandestina, Clarice Lispector aborda a infância de uma garota pobre do Recife, cujo maior sonho era possuir livros e, por isso, sofre humilhações por parte da filha do dono de uma livraria. O enredo do conto não se concentra em descrições de aspectos físicos. O ambiente não é o foco. As características físicas são postas em segundo plano, para revelar um caráter mais profundo das personagens e, se tratando de Clarice Lispector, é possível falar em caráter psicológico.

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A personagem principal não podia ter livros, e desejava-os completamente, no entanto, a filha do dono da livraria, mesmo tendo muitos, não aproveitava em nada o mundo da leitura, mas usava do seu lugar de privilégio para subjugar às outras garotas. A extrema obsessão por leitura fazia com que a personagem aceitasse os maus tratos da antagonista e continuasse a pedir (esperar) o livro.

Parece que se estabelece entre as duas garotas uma luta, uma relação de poder fortalecida e legitimada por uma deter o livro e a outra almejá-lo. Trata-se de uma questão social universal sobre as desigualdades e as lutas entre as classes, bem como a necessidade de haver uma interferência ou transformação da sociedade. Felicidade Clandestina mostra como os ideais mercadológicos já estavam arraigados naquele contexto social. A ideologia de mercado justificava o sucesso por meio de forte marketing comercial.

“Até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai”.

A narrativa gira em torno da espera da personagem pelo desejado livro “As Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato. “Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.

A constante espera, a monotonia, os acontecimentos que parecem não variar, deixa o conto um tanto quanto angustiante, por, em quase toda narrativa, sugerir a impossibilidade de realização do desejo da personagem protagonista do conto.

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Tal espera pode simbolizar também a espera por educação, saúde, alimentação, a narrativa sai do plano do prazer e chega à realidade a cada vez que recebe a resposta negativa sobre o empréstimo. Possivelmente o conto Felicidade Clandestina pode ser entendido como um autorretrato de Clarice Lispector, que assim como a personagem, viveu grande parte da infância no Recife com a família e sofreu privações financeiras, mas desde muito cedo nutriu interesse pela leitura.

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Na verdade, “Felicidade Clandestina” tem uma significação contrária ao discurso do que seria a felicidade, historicamente constituída e perpetuada.

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Ao fazê-lo, a autora questiona os paradigmas impostos e busca provocar novos sentidos ao termo. Confrontando modelos consolidados com a simplicidade da narrativa: a antagonista tem um livro (possível objeto promovedor da felicidade), mas não ler; já a protagonista não tem o livro, mas gosta de ler e num dado momento irá usufruir do livro possuído pela antagonista.

Assim, a autora parece questionar: quem tem a felicidade, aquele que tem e não desfruta ou aquele que desfruta (mesmo clandestinamente), e não tem?


CLEÂNE ALVES

"... A paz em cada gesto que faça...".
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