CLEÂNE ALVES

"... A paz em cada gesto que faça..."

VIDAS SECAS: DE SILÊNCIOS E INJUSTIÇAS

Graciliano Ramos parece propor uma reflexão sobre a questão fundiária no Brasil dos anos 1930. Mostrando imagens sociais e geográficas de refúgios sertanejos, que diante da impossibilidade concreta e injusta de mudanças, desenvolvem mecanismos próprios e seguem vivendo à margem da sociedade.


Vidas Secas personagens.jpg

Vidas Secas narra o drama do vaqueiro Fabiano, de sua esposa Sinhá Vitória e de seus filhos (o menino mais velho e o menino mais novo) e ainda da cachorra Baleia na luta por sobrevivência no sertão. Baleia e Fabiano fazem parte de um processo inverso: ela, personificada, identifica-se em “sentimentos” e ações com o dono; ele é um homem “machucado” pela vida e apresenta comportamento embrutecido.

A comunicação estabelecida entre os sujeitos é marcada por sons indefinidos e muitos olhares: Sinhá Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto.

Os personagens da obra são vítimas da estrutura social e não dominam plenamente a linguagem oficial, mais que isso, sofrem com palavras, que funcionam como mecanismo de opressão. Por não possuir fluente comunicação, Fabiano não conseguia interagir com a sociedade, atrapalhava-se, não se fazia entender. Somente Sinhá Vitória o entendia, por isso conjecturava sempre sobre a necessidade de conversar com a mulher. No entanto, a companhia mais presente era Baleia, que não exigia nada dele, só se preocupava em caçar preás. Fabiano sentia-se confortável próximo aos animais, conseguia domar cavalos e, ao montá-los, sentia-se parte deles.

foto15.jpg

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia.

As ações da família eram monótonas e cíclicas, mesmo quando se inseriam num lugar de movimento. Fabiano observava a vida sem elaborar nenhum pensamento relacionado aos acontecimentos e a possíveis mudanças, pois as coisas aconteceriam ou não independentemente da personagem.

Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Será que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia.

A consciência de não influenciar nas mudanças do espaço em que vivia, fazia com que Fabiano aceitasse as estruturas sociais, que eram o reflexo da concentração de renda nos meios de produção, excludente, injusto e propagador de violências.

Na festa, no desafio do soldado amarelo, na cadeia, nas contas “erradas” do patrão, na secura do agreste sertão, cada uma delineada à sua forma. As marcas iam sendo deixadas no corpo da personagem, mesmo a terra árida era capaz de aprofundar as rachaduras nos pés de Fabiano. A violência era tanto revelada quanto velada: na surra ou no descaso do Estado.

page_1_thumb_large.jpg

Por que motivo o governo aproveitava gente assim? Aquela cambada só servia para morder as pessoas inofensivas. Ele, Fabiano, seria tão ruim se andasse fardado? Iria pisar os pés dos trabalhadores e dar pancadas neles? Não iria.

Na relação patrão e empregado parecia haver independência: o patrão não dependia em nada do trabalho de Fabiano, como ele existiam muitos miseráveis dispostos a trabalhar por um prato de comida; Fabiano, por sua vez, sabia que poderia vencer dificuldades e isso o orgulhava.

vidas-d.jpg

Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegava naquela situação medonha e ali estava forte, até gordo, fumando o seu cigarro de palha. Cansada das “andanças” pelo sertão, a família resolve ir em busca de algo novo, outra terra. Fecha-se o ciclo das vidas secas: inicia-se a chegada da família à fazenda abandonada e tem seu término com a partida dos retirantes para a cidade.

vidas-j.jpg

O sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos.

Assim, na cidade novos ciclos serão traçados, mas a família não seria a única a tomar o caminho errante do retiro.


CLEÂNE ALVES

"... A paz em cada gesto que faça...".
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //CLEÂNE ALVES