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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

a pele que habito - um outro olhar

Podemos olhar e ver o óbvio. Ou, podemos inverter: olhar e enxergar, o que não é óbvio. O que não aparece, claramente. A Psicanálise – e todos que o queiram -, entre outras coisas, busca isto: ver além das aparências.


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Relembrando o enredo, já de quatro anos atrás (quem não assistiu ao filme, agora é o momento!): “Trata-se de um drama de vingança na história de um médico cirurgião plástico que tenta encontrar o homem que estuprou sua filha”, diz-nos a sinopse do filme. Este, é o óbvio. É o que (a)parece.

Vicente, um jovem rapaz, sai de uma festa onde vive momentos tensos, atordoado despenca de uma ribanceira com sua moto e se dá por morto/desaparecido. Um médico o rapta, inflige nele uma série de cirurgias mutativas que o transformarão, com o tempo, em uma mulher: Vera. Isto, também, é o que aparece. Ou – o que parece.

Proponho então agora, por um instante, olharmos de uma forma diferente. Olharmos, como se olha, ou melhor, como se escuta, a um sonho: com seus elementos deslocados, transfigurados, confusos e camuflados.

Ou seja, escutar a história contada por Almodóvar, não como factícia, real. Sim, real, mas não da realidade externa: mas da interna, dele, de quem a conta.

Iniciemos. Não no início, mas ao final, quando Vicente – já transformado em Vera – retorna então à sua casa, encontra sua ex-colega de ofício e sua mãe, e diz-lhes: “Fui raptado, por um cirurgião, que manteve-me prisioneiro, mudou meu sexo, e...”, diz aproximadamente isto. De forma rápida, um pouco abrupta, e, até, talvez, pouco afetada. Quase como se fosse uma mentira. Talvez não seja uma mentira, mas uma realidade criada. Na mente. Em sua própria mente.

Acontece que, Vicente/Vera, neste exato momento que retorna à sua casa, veste o vestido que sua colega Cristina lhe havia dado no início e dito, antes de todo o ocorrido: “Se quiser saber como é de verdade (este vestido), terá que tornar-se uma mulher” e, com o vestido no corpo, Vicente parte e, agora, retorna. Uma mulher.

Podemos pensar a história da tela – este é o outro olhar -, como a história contada por Vicente, especificamente. Como 'um sonho': sua forma de contar sua própria história. Incluindo o médico que o rapta; que o mantém prisioneiro, que o seduz ao final... (não sei se ao longo de quatro anos, como diz o filme. O tempo da mente é diferente!).

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Pois bem. Na continuidade então deste nosso outro olhar: Vicente não foi raptado - saiu de casa. Não foi jogado de sua moto - jogou-se, ele mesmo, no precipício com sua moto. A fuga ou a busca de algo, às vezes, leva à morte. Vicente não morreu, mas pôde, ao menos, ser dado como morto ou desaparecido. Aí, então, procurou o médico-cirurgião. Para sua transformação.

Quem quiser, retorne confortavelmente o olhar para o óbvio, para o que foi contado tal qual foi contado (correndo o risco, no entanto, de ‘cair no conto’, e acreditar. Diria W. Shakespeare em Macbeth, ato V cena 5: “A tale told by a fool”, ou seja, “um conto contado por um louco”).

Cinema é Arte. A criação do artista, uma metáfora. Um pouco como ‘pedaços de um sonho’. Talvez pouco nos ajude assistir a um filme de Almodóvar, com os olhos concretos da realidade. Ela poderá até parecer-nos violenta demais – conforme muitos dos comentários que escutei, a respeito deste filme.

Para mim, é um filme que trata de Identidade. Como disse, de uma transformação de gênero e de identidade sexual. Mas não somente: identidade num sentido mais amplo. De nome, de ser no mundo. É um filme que fala disto. De forma brutal e, ao mesmo tempo, sim, delicada. Pois humana. Sim, ele é violento. Mas não talvez enquanto um psicopata que mutila um jovem passivo (que é o que aparece na tela). Mas talvez, violento, porque a busca da identidade de gênero, ou da identidade, “simplesmente”, pode-nos ser e é, muitas vezes, um processo violento.

Quem somos, o que somos, no mundo para os outros e para nós mesmos? Quem somos – no fundo e na superfície – de nós mesmos?

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Frequentemente, as histórias contadas na clínica (principalmente em início de processo – quando o paciente não se ‘apropriou’ ainda inteiramente de sua realidade - não todas, saliento), se assemelham um pouco a este “eixo”: são vítimas, de suas histórias, de seus destinos, de suas realidades psíquicas. De tudo ou quase tudo que lhes ocorre.

A história contada – manifesta - parece ou, aparece, muitas vezes, como ‘de grande maldade’ do mundo e dos outros. (Sem desmerecer que muitas vezes sejamos vítimas de fato, de situações reais). O processo de apropriação - de sua própria história - é lento. E doloroso. Como no filme.

O impacto e a transformação estética neste filme nos mobilizam, pressionam-nos em nosso âmago. Como não poderia deixar de ser, tratando-se destas questões. Rosto queimado, transfiguração, pele nova.

Sentimo-nos fragilizados, chocados, impactados, pelas imagens e pelas transformações. Assim como Vicente deve ter se sentido, durante a transformação ‘de sua pele’. (Quem foi que disse, ‘o mais profundo, é a pele’?).

Tomemos cuidado com o que ‘parece’. O inconsciente não parece, nem aparece, assim tão facilmente. A olhos – e corpo - tão nus. Recobre-se, neste caso, de uma pele de porco – conforme escutamos na fala de Dr. Robert (Antonio Banderas): muito mais forte ainda, que a pele humana.

Ao final, era a pele que Vicente/Vera habitava (tal qual o título). Não havia outra. Era a sua própria. Quis trocar de pele. Podemos pensar que foi necessária uma grande fantasia, para fazê-lo.

Afinal, isto é Almodóvar – a pele que ele, este grande e genial diretor - habita.

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Obs.: Esta não é a única forma de pensar este filme – mas é uma. Um espectro. Assim como quando escutamos alguém. Sabendo que há várias possibilidades de escutar, de entender. Sem que nenhuma, por mais ‘precisa’ que pareça, deva ser conclusiva.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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