leituras contemporâneas

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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

Anaïs Nin – e o dom de tornar-se mulher

Conhecemos a máxima de Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher – torna-se uma”. Certamente o mesmo vale para o homem. Para o escritor, para o médico, para... todos.


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Mas há aqueles que parecem levar consigo algo que os faz ser o que são. Como um dom. Como a autora Anaïs Nin* parecia levar, com ela - além do dom de escrever -, o de ser mulher. Que, como todo dom, é misterioso. De onde vem?

Há várias versões - a mais difundida fala de uma origem divina ou inata. A Psicanálise também nos dá algumas pistas: as identificações, desde a infância - este intenso jogo cruzado entre nós e os outros; entre nós e as figuras que nos cercam e nos habitam, estariam no cerne ou na base deste 'vir a ser' de cada um de nós.

Afinal ao dizer ‘tornar-se mulher’ estou falando em identidade. Em uma identidade possível, em meio às milhares de identidades possíveis no campo humano. E assim, ao falarmos em identidade humana, estamos também falando de um processo. Que se inicia muito possivelmente com estas micro escolhas (na maior parte inconscientes) desde muito pequeninos, fazendo-nos tornar, dia após dia e ao largo do tempo, quem somos.

“Não vemos as coisas como elas são. As vemos como nós somos”. Anaïs Nin

Mas gostaria de falar de uma identidade feminina – esta à qual relaciono Anaïs -, talvez mais interior, mais profunda. Não o visível da superfície: dos acessórios e dos enfeites que algumas tanto precisamos; das correções (e corretivos), dos coloridos das unhas, da boca e do rosto; nem do salto alto que nos leva... um pouco além talvez (ou assim acreditamos). Quero falar de algo ‘de dentro’. O que é isto, que nos torna mulher?

Não é a maternidade necessariamente - pode também ser entre tantas outras camadas, mas não exclusivamente. Já que muitas não são mães e a maternidade não garante que a mulher se torne uma. Falo ainda deste intenso e eterno jogo do que somos e do que não somos. Jogo entre nós e o(s) outro(s). Na mulher, parece haver uma falta que nos impulsiona, nos assola e nos move - às vezes, adiante. Outras vezes, em outras direções. E faz-nos tentar preencher o vazio, o buraco, a ausência, de tantas maneiras. E talvez por isto, acredito, a criatividade feminina.

As tentativas sempre (dadas as devidas condições internas e externas) de refazer. Fazer e refazer. Não por mera repetição - mas, por re-criação: criamos e recriamos. O trabalho, a comida, a relação, a história. A cada vez. Movidas por esta falta que nos empurra a desejar algo mais – nem que seja, a simplicidade.

Anaïs Nin era assim. Foi assim que a conheci, através das páginas de seus livros. Eu andava pelo mercado de pulgas de Genebra aquela manhã. Pouco tempo atrás haviam lançado o filme “Henry e June” (para quem gosta de escritas e escritores, recomendo fortemente): retrata a história de um dos livros de Anaïs, sobre seu (real e passional) encontro com o escritor americano Henry Miller e sua esposa June, em Paris no final dos anos 1920.

Eu andava quando, avistando à distância numa banca de livros usados um volume rosa claro, reconheci sua foto na capa. Não era uma edição de bolso como se tem por aí. Era um livro antigo, volumoso - em realidade, a primeira edição europeia dos Diários de Anaïs. Foi esta a primeira vez que entrei em contato com sua escrita. A primeira de tantas outras.

E neste livro ela falava disto: deste feminino que, apesar de irredutível, não é brutal. Age em silêncio, de forma cálida e constante.

Anaïs apaixonava-se e amava, às vezes mais de um homem e também mulheres. “É possível”, ela garantia. O lugar do amor, em sua alma, era grande ela dizia. O lugar de seu desejo. O lugar do conto, da criação, da fantasia – os lugares em sua mente.

Sua vida foi polêmica. Suposta e secretamente bígama ao longo de muitos anos - sem contar os amantes - escreveu sobre o Incesto em forma de prosa e vendeu seus livros de forte cunho erótico/sensual. Um de seus diários aguardou sua decisão de que fosse publicado somente após a morte de seu marido - por cuidado, por amor.

“Eu adio a morte ao viver, ao sofrer, ao errar, ao arriscar, ao dar, ao perder” Anaïs Nin

Seu rosto, sua escrita, sua maneira de ser, atiçavam a curiosidade. Quem era afinal a mulher, a escritora, Anaïs Nin? Ela se revelava, ao mesmo tempo em que se ocultava. Seu ser feminino era assim: se encolhia e se expandia. Suas palestras nas universidades americanas ao final de sua vida, costumavam lotar.

Muitas biografias foram publicadas a seu respeito. Nenhuma, a meu ver, completa. Nenhuma biografia afinal poderia ‘contemplar’ toda a vida de um ser humano. De uma escritora como Anaïs Nin. Ou melhor dizendo – de uma mulher, como Anaïs Nin.

“(...) Tudo bem se uma mulher for, acima de tudo, humana. Mas eu sou uma mulher, antes de tudo” Anaïs Nin

Desconfio que a mulher, a escritora e o ser humano Anaïs Nin eram indissociáveis. Como todas nós, ela era tudo isto e era também o que não sabemos. Acho que não sabemos quase nada, afinal, sobre ela. Under a glass Bell foi o título de um de seus livros, um dos primeiros. O título é propício: "Sob uma redoma de vidro". O que há, sob uma redoma de vidro? Aparência de transparência; mas há algo que ressoa lá dentro, ou, algo que se (res)guarda, se protege.

Atualmente, alguns alegam que, até mesmo seus diários – tidos como os mais fortes e mais sinceros de seus textos - mentiam. Eu não duvido. Não duvido de Anaïs Nin.

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“Apropriar-se de conhecimento não mata o sentido da dúvida e do mistério. Há sempre mais mistério”. Anaïs Nin

*Anaïs Nin (21 de fevereiro de 1903, Neuilly, próximo a Paris - 14 de janeiro de 1977, Los Angeles) batizada Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, foi uma autora nascida na França, filha do compositor Joaquin Nin, cubano criado na Espanha e Rosa Culmell y Vigaraud,de origens cubana, francesa e dinamarquesa. Anaïs Nin tornou-se famosa pela publicação de diários pessoais, que medem um período de quarenta anos, começando quando tinha doze anos. Foi amante de Henry Miller e só permitiu que seus diários fossem publicados após a morte de seu marido Hugh Guiler. Seus romances e narrativas, impregnados de conteúdo erótico, foram profundamente influenciados pela obra de James Joyce e pela psicanálise. Dentre suas obras destaca-se Delta de Vênus (1977), traduzido para todas as línguas ocidentais, aclamado pela crítica americana e europeia. Foi realizado no cinema em 1990 um filme, Henry & June, dirigido por Philip Kaufman, sobre o período em que Anaïs Nin conheceu Henry Miller. Nele Anaïs Nin é interpretada pela atriz portuguesa Maria de Medeiros (fonte: Wikipedia).

“A vida encolhe ou se expande à medida da nossa coragem” – Anaïs Nin


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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