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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

de Amor e Lei

Se me perguntassem, de que é feito um ser humano? Eu responderia: de Amor e Lei.


menino e estatua NOVA.jpg (Foto Luciano Andrade)

Claro, não somente. Também é feito de lembranças, sonhos, desejos, medos, necessidades, dores, histórias e pensamentos. De seu consciente e de seu inconsciente: de algo que nos diferenciaria (quando sim) dos animais. Quando falo de Amor e Lei, falo dos alicerces que nos tornariam humanos. Vamos a eles.

Logo de início, o amor que nutre e edifica: que permite ao pequeno sujeito em formação (desde bebê) a vivência de sentir-se amado, cuidado e protegido. Sentir-se potente e capaz. Sabemos – não é nenhuma novidade – que o que nutre o humano, não é somente o leite. Mas o leite e o olhar, o afago, o calor de quem o alimenta. Geralmente – quando possível -, é a mãe que, onde quer que esteja e quem quer que seja, amamenta e com seu olhar, banha seu bebê com amor, esperança e entrega. É com nossos pais – ou aqueles primeiros que nos cuidam – que primeiramente aprendemos o amor e os afetos.

O garoto da foto, nitidamente, se revela em falta – e provavelmente em busca - deles. Talvez até os tenha tido – mas não o suficiente, não mais. Prematuramente.

São notórias as pesquisas com macacos – que não são humanos e mesmo assim, neles já vemos a importância do ‘algo além do alimento’. A macaca-robô que ‘automaticamente’ alimentava: os filhotes preferiam aquela real, que tinha pelos e aconchego. Outra macaca-mãe automática que também amamentava, os bebês cresciam, mas não conseguiam reproduzir e continuar a espécie.

No ser humano - seria então o afeto que daria a 'liga necessária' entre as pequenas partes de seu ser. Para que assim ele se constitua sobre um solo sólido. Podendo um dia, ele também, amar e ser amado, cuidar e ser cuidado. (O que se configuraria no que L. C. Figueiredo, autor contemporâneo, chamou de ‘cuidados recíprocos’ em sua Teoria Geral do Cuidado: a preocupação com o outro. Tornando-se uma questão de cunho ético, na vida do sujeito amadurecido: o cuidado que foi/é necessário para mim, também o é para o outro. Para a preservação do que é meu, e do que é do outro: nossa integridade física e emocional. E até mesmo de nossos patrimônios. O contrário disto, ao extremo, seria o vandalismo: o não-cuidado com os conteúdos compartilhados).

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Já a Lei, a primeira, disse-nos Freud (1856-1939), é aquela que em algum aspecto herdamos culturalmente: a interdição do parricídio (não matar o pai), junto ao tabu do incesto. Ou seja, primeiramente, haveria algo transmitido inerentemente de geração em geração que imporia o respeito à lei ela mesma (o pai) e um limite para o amor. Esta seria a primeira Lei.

Primeira, e fundante: fundando-nos na Cultura, na Civilização e afastando-nos do mundo selvagem. Uma lei que se construiria então na fronteira entre o dentro e o fora de cada um. Na comunicação – não somente verbal – entre nós e o grupo. Sendo o primeiro grupo, a própria família (qualquer que seja). Haverá, certamente, graus e contornos, e por vezes curtos-circuitos nessas leis em cada um de nós – por diversas e às vezes misteriosas razões.

Esta mesma lei interna (dirá-nos ainda Freud), que colocará uma espécie de dique entre nossas pulsões e o mundo: para contermos em nós mesmos, o que é nosso. E aquilo que de nós transborda por falta de algo que ampare e contenha – quer seja amor, ódio ou violência -, tanto os dispositivos internos quanto os externos serão inundados. Ou seja, nestes casos, com a frágil fronteira entre o dentro e o fora, além de assolarmos a nós mesmos (na loucura, na autodestruição), o mundo fora também receberá sua carga deste poço de afetos não contidos, não-marcados pela lei, ou seja, pelo limite: na violência, no roubo.

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“Quero do outro aquilo que não me deram”; “Quero destruir aquilo que não tenho, aquilo que invejo”. A capacidade de conter em si seus próprios afetos diria respeito a um ‘continente próprio’, desenvolvido – a partir de outros continentes próprios e desenvolvidos (como do pai e da mãe). Capaz de tolerar em si, a frustração, a revelia, a realidade: com todos seus tormentos e tormentas. Busca-se nas drogas muitas vezes o papel de antídoto para estas cargas afetivas que não encontram ‘diques’ dentro do jovem sujeito. Antídoto ineficaz, porém. Uma vez que, ao invés de paradeiro, serve mais como trampolim – para outros lugares ainda menos confiáveis (dentro e fora dele).

Diques, no humano, são batidos no amor e na lei. Na criança, permitindo a busca do desenvolvimento, do aprendizado e do crescimento. O pequeno sujeito ao saber que algo ou alguém o parará se preciso, segue adiante de maneira mais livre. Ele não está solto, num trapézio com seus pés ao ar... e sem rede de proteção.

Mas o que acontece é que, muitas vezes, ele está. E às vezes ele cai ou, até mesmo, se joga: às vezes, sem retorno. E às vezes, para não se jogar ou cair sem retorno, ele busca algo ou alguém que o pare, antes que o acidente ocorra. Como no caso de jovens que, conscientemente ou não, fazem o crime em busca de serem freados pela polícia. A polícia/o policial, uma mistura desesperada de mãe e pai - de Amor, e de Lei.

Não à toa, a Psicanálise lança mão em seu arsenal de conceitos, de dois importantíssimos: as chamadas função materna e função paterna. Christopher Bollas (1996), outro autor contemporâneo, enfatiza a importância de ambas no trabalho psicanalítico – não importando se o analista é um homem, ou uma mulher. Muito resumidamente, diriam respeito à capacidade de acolher e de ‘amar’; assim como a de sustentar os limites necessários.

Estas importantes funções que, no fundo, deveriam estar presentes em cada um de nós: para a preservação dos bons laços humanos, quaisquer que sejam. Pautados pelo respeito às fronteiras que cada relação – quer seja de trabalho, de amizade, ou de parentalidade – pede. Em realidade, implora por, e agradece.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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