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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

O Papai Noel, o Coelho da Páscoa e a Mega-Sena da Virada - ou O (agri)doce sabor da Ilusão

O que estes três têm em comum?
Joguei os dados ao alto e, ao caírem, deu: "Ilusão".


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A ilusão – ou, vou preferir, fantasia, a mesma daquela necessária à criança no processo de construção de sua mente. Acolhendo nela, entre outras coisas, o Papai Noel: tão bondoso, encantador, misterioso e amoroso. Mistura talvez de um bom avô com uma boa avó: um grande provedor de presentes, mas também de carinho, colo e abraço (ainda que às vezes um pouco suado...). Acolhedor do sonho e da tal ilusão - como num ciclo: ele encarna e nos devolve a ilusão que nós crianças criamos e nele vestimos. Ele nos compensa, com sorrisos e ho-ho-hos enquanto nós lhe mantemos vivo, em nossas mentes e nos saguões dos Shopping-Centers - para nós e para nossas crianças. Figura daquele que, uma vez ao ano, vem lá de longe - de onde quer que ele saia, até onde quer que estejamos. Mantendo-nos sempre (enquanto a fantasia durar) no desejo de seu retorno, em dias especialmente prazerosos do ano.

Ah... a Magia do Natal! Pouco importa se nosso país é tropical e não tem renas, nem neve, nem duendes, nem lareiras. Não importa. Ele – nossa fantasia em projeção - sobrevive e vem ao nosso encontro.

Na criança, é natural. Sua mente é particularmente propícia à fantasia. Se eu falasse em teoria, falaria na predominância do Princípio do Prazer (em oposição ao da Realidade) e na constituição da fantasia como modus operandi predominante na mente infantil: regendo sua lógica, seus desejos, suas construções.

Assim vale para o Coelho. Com seu lado particularmente arteiro: chega na calada da noite (ao menos em casa era assim) ou em outro momento secreto e se vai, tão rapidamente quanto veio. Ele não fica. Ele é o verdadeiro "cara" – carregando com ele, também, nosso desejo, nossa admiração e amizade incondicionais. O que queremos, é verdade, é pegá-lo em flagrante: fazer com que ele nos veja! Olhá-lo de perto. Como se os ovos de chocolate não bastassem: queremos algo dele. Ou melhor - queremos ele. De preferência, só para nós.

Mas nunca o conseguimos, claro. (Nunca soube de alguém que tenha conseguido). E não conseguimos pela simples – tão simples – e amarga razão, que ele não existe. Tampouco o Papai Noel. Um dia mais cedo ou mais tarde - costuma ser em torno dos 7-8 anos, concretamente falando - a verdade nos é revelada. Geralmente um primo mais velho, um "amigo", alguém – geralmente chato -, que, junto às nossas suspeitas, nos confirma: "Papai Noel não existe”.

Uma pausa para a retomada do fôlego – e do prumo. Temos de convir: seus efeitos, sobre nós, foram um dia poderosos.

E a Mega-Sena? No meio de tudo isto.

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Bem, até algumas semanas atrás, acreditava-se que alguém sempre ganhava - e isto garantia a democrática e infalível chance, a todos. “Alguém sempre ganha”. Pode ser eu, pode ser você (se jogarmos, claro).

Atualmente porém, há sérias dúvidas – se a chance é de fato democrática, ou se seria mais uma valeta da corrupção num país inundado por ela. Resta saber. Detendo-nos neste não-saber por um instante, passemos a pensar.

Penso que o grande prêmio da Loteria – ou uma grande soma de dinheiro vinda sei lá de onde (talvez da Lapônia) ao meu encontro - seja em grande parte, ou ocupe em minha mente, alguma coisa do lugar do Papai Noel ou do Coelho da Páscoa: ou seja, algo da ordem da fantasia. A nossa Terceira, e grande, fantasia. O resquício da infância. Da magia do Natal, da passagem do Coelho - da chegada de uma grande soma de dinheiro com a qual eu serei sorteada (o que seria o mesmo caso eu pegasse o Coelho ou o Papai Noel e os mantivessem comigo até o final dos tempos...).

Estes efeitos sobre nós – não da realização, pois também não pegávamos nem o coelho nem o velhinho de vermelho, mas – seus efeitos afagadores, "anunciadores", logo a partir do momento da aposta, se fazem presentes. Quem já prestou atenção nas conversas da fila de uma Mega-Sena da virada, escutou: “Vou comprar uma casa... vou trocar de carro... vou ajudar minha família... vou...”. (Obviamente sei disto porque já estive lá nesta fila).

E, dizendo assim, com estas palavras atravessadas pela possibilidade de que o desejo se tornasse realidade – não importando a porcentagem de chances, afinal "alguém sempre ganha" – faz-se um tempo tão prazeroso, tão apaziguante, tão acalentador, quanto aquele da fantasia.

Persistindo por todos os momentos de espera até a grande, dura, e amarga, revelação da realidade: quem ganhou foi José sabeseláquem na cidadeX do Brasil. Instantes mágicos que repetem – entre a aposta e o sorteio – o mesmo anseio, desejo, prazer, fantasia e ilusão, daqueles de outrora: o doce prazer da espera por algo que, eu tenho quase certeza, virá...

Mais que isto, no caso da aposta na loteria, por alguns instantes é como se uma dor - a dor do querer, e não ter: ou seja, a dor da falta – diminuísse sua chama. E diminuindo sua chama, consigo sonhar e preencher parcialmente esta falta – com a grande casa; com a grande viagem; com as belas refeições, com o carro novo sonhado.

A possibilidade por mais remota que seja – não importa, é suficiente para que eu aposte. Afinal, a aposta não vem da razão - da porcentagem real: zero vírgula em não sei quantos milhões (considerando que exista); mas de outro lugar em nós. Do mesmo lugar que um dia, esperou o Papai Noel e o Coelho da Páscoa.

Mas eles não vieram, na realidade. Somente na fantasia.

Em nossa mente de criança, conseguíamos facilmente substituí-la - esta tal realidade - desde muito pequeninos. Mas houve aquele momento crucial no qual foi preciso abandonar a fantasia para poder batalhar pelo leite. No bebê, é geralmente pelo choro que isto se dá. No adulto - espera-se -, pelo trabalho.

Assim hoje, nossa mente dita adulta tenta dar conta das tantas exigências, demandas e frustrações da tal realidade onde nosso desejo como vimos nem sempre - ou muito pouco - se realiza.

Por outro lado, quando a dor e a falta são demasiadamente grandes, busca-se algo que afaste da verdade... que nos recolha - um pouco -, ao mundo onde tudo é possível; onde meu desejo se realiza.

Ou seja: busca-se em fantasia - ou nos sonhos muitas vezes -, a concretização daquilo que falta; o preenchimento; o esvaziamento da angústia. No fim das contas, da angústia de, simplesmente, viver.

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PS. Em tempo: um ótimo Natal a todos! Sinto ter sido neste texto, "a amiga chata". Eu particularmente gosto bastante desta época do ano...


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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