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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

Os Sonhos

“Somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono”.

William Shakespeare – A Tempestade (Ato 4, cena 1)


Dreaming_(13687618944).jpg Foto Moyan Brenn

A frase é linda.

Mas afinal, pergunto-lhe: que matéria é esta, que – diz-nos Shakespeare - temos em comum com os sonhos?

Pretensão humana? Somos tão vastos assim? Pois é como se eles, nossos sonhos, fossem mais que nós mesmos: não têm tamanho.... não têm peso... não têm idade... não têm, limite. Neles voamos, viajamos, nos curamos. Fazemos guerra e fazemos amor. Às vezes sofremos - mas logo acordamos.

São muito mais do que somos. Será? Ou... são de fato o que somos? Em estado bruto. Sim, somos feitos da mesma matéria que os sonhos. Uma vez que aquilo que nos liga a eles, nada mais é que - nós mesmos.

Freud já o sabia, mais de um século atrás (1900). Deixou seus colegas neurologistas a ver navios (em sonhos), ao afirmar que, um sonho, era muito mais que uma ‘simples descarga cerebral’ – como queriam. Aliás, visão de muitos até hoje, que passam a régua da lógica cartesiana sobre toda a riqueza da subjetividade humana mais profunda, misteriosa e não controlável.

E sabia da importância do que dizia. Precisou de um pouco mais de 700 páginas* (que o levaram ao prêmio Goethe de Literatura em 1930 pelo conjunto de sua obra) para dizê-lo, claramente.

Com seu trabalho, de início, ele entendeu que o que os sonhos representavam se aproximava mais do que os leigos acreditavam do que os cientistas de sua época. Ou seja – que, ao invés de uma mera descarga cerebral em forma de imagens, somente – os sonhos diziam-nos algo mais.

Não exatamente a ‘premonição’** que também se lhes atribuíam leigamente à época (e também ainda hoje). Antes, um conhecimento maior, sobre nossas mentes. Sobre nossos funcionamentos. Sobre nossos desejos, medos, e... tudo o mais que é nosso e, geralmente desconhecido em vigília. Afinal, o sonho é nosso. O produto, é de fabricação própria - da nossa mente. Contando-nos assim, a nós, muito do que não sabemos sobre nós mesmos.

E assim, este algo mais, é o que Freud descreveu, magistralmente. E o que uma análise reitera, a cada vez que, com o viajante no divã, analista e paciente aventuram-se, vez ou outra, nas profundezas de um sonho.

“Freud foi uma dessas pessoas peculiares que parecia pensar que sonhos merecem maior consideração”, afirmou despretensiosamente Bion (1977), outro grande psicanalista que, ele também, em seu maravilhoso dialeto, ‘falou a língua dos sonhos’.

“Para lembrá-los”, disse-nos o autor, “da existência deste estado de mente peculiar onde nós vemos coisas e vamos a lugares os quais, quando nosso estado de mente muda porque acontece o que chamamos ‘acordar’, então ignoramos esses fatos, essas viagens, essas vistas, sob o fundamento de que são apenas sonhos” (de Taming wild thoughts, W. Bion, 1977).

Sonhos não são ilógicos. Têm sua própria lógica – sua própria maneira de ‘funcionar’: desfiguramos, transformamos homens em mulheres, mulheres em homens, em crianças, em ‘outros’ (vertentes nossas), estranhos e conhecidos, jovens e velhos, vivos e mortos. Passado, Presente e Futuro. Escrevemos com nossa mente, enredos maravilhosos, caóticos, assustadores e, certamente, misteriosos.

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Porém sempre, verdadeiros – por mais que queiramos dizer o contrário. Revelam alguma verdade, sobre nós mesmos. Resolvemos conflitos e até mesmo, às vezes, a questão maior de todas: o duelo da vida e da morte. Por algumas horas, a vida ‘de fora’ para, e cede lugar para esta outra dimensão de nossas mentes, às vezes tão negligenciada, esquecida, ignorada.

Assim como nossa mente noturna, nossa mente diurna às vezes também encontra estes outros estados: de fúria, ciúmes, raiva, paixão. Parecem-nos estranhos. Mas são em realidade, profundamente familiares.

Claro, aceitar isto tudo é um pouco questão de... opção talvez?

Pode-se achar (nada contra) que somos feitos de sangue, músculos, ossos, articulações etc. Ou que somos feitos do que comemos, como me disse minha (e provavelmente a sua também) nutricionista. "Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que somos feitos de histórias", esclareceu-nos, no entanto, Eduardo Galeano.

Somos feitos de tudo isto. Somos feitos de tantas coisas afinal, que me dá até um pouco de sono... "Somos feitos de silêncio e sons", canta-nos ainda, Lulu Santos.

Já é noite. Neste momento, sou feita de algodão egípcio, de milhões de fios. Tenho sono – minha vida pequenina, no momento, está cercada por ele - e penso nas estrelas... das quais também somos feitos, dizia nosso querido astrofísico, Carl Sagan.

Para concluir – talvez um pouco precipitadamente – este assunto que mereceria muito mais tempo (o tempo atemporal do sonho), lhe desejo o mesmo que a mim: bons sonhos! Pois, "o resto”, afinal, “é silêncio" - também disse Shakespeare, para fechar e, ao mesmo tempo, agora, abrir com chave de ouro minha mente noturna... que começa a despontar.

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* FREUD, S., A Interpretação dos Sonhos, Obras Completas de Sigmund Freud, vol. IV, Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda., 1900/1987. ** Ainda que recentemente eu tenha sonhado com sete vacas magras e sete gordas, tal qual o sonho supostamente premonitório do Faraó, desvendado por José (conforme descrito na Bíblia). Supondo que, o sentido do meu sonho, tenha bastante a ver com o do Faraó, a respeito do Egito de então. E do Brasil de agora.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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