leituras contemporâneas

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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

tempo, tempo, tempo

"Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo."

Lewis Caroll


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Tempo 1:

Aos cinco anos de idade, aprendi a “ver as horas". Meu tio J. me ensinou. Foi lá no quartinho dos fundos da casa de minha avó, com toda a paciência do mundo, enquanto nos sentávamos a uma mesa de madeira antiga - que cheirava à madeira antiga e poeira. De um lado, um pequeno engradado de supermercado estocava laranjas - sempre havia pelo menos uma dúzia delas, o que conferia ao lugar um sutil perfume cítrico, junto ao da madeira e ao da poeira. De outro, a estante também em madeira que meu avô, pai de J., havia construído – fazendo dali uma espécie de dispensa de alimentos. À nossa frente, pregada à parede, uma pequena lousa a giz.

Nela, ao alto do lado esquerdo, tio J. mantinha escritos permanentemente o que me pareciam ser códigos secretos: um pequeno desenho da lua registrava sua fase exata daquele dia (Crescente, Minguante, Nova ou Cheia); ao lado, outros códigos, que não me recordo muito bem... talvez por não entendê-los: pequenos traços, símbolos, marcações e números. Mas ele os entendia – e talvez somente ele - e talvez por isto mesmo sua facilidade em revelar, a mim, este imenso código secreto: o Tempo.

Tio J. tinha seus quarenta e poucos anos. Era um tipo peculiar – andava de terno, guarda-chuva, sapatos lustrados, todos os dias e onde quer que fosse: até mesmo à quitanda da esquina. Os códigos da lousa faziam parte de sua vida, um todo maior, marcada por alguns rituais que eu acompanhava com tanto gosto e interesse, sempre que passava uns dias na casa de minha avó, sua mãe. Onde ele sempre viveu, até o fim de sua vida.

Nessas ocasiões (geralmente nas férias), nos levantávamos cedo: seis horas da manhã já era tarde. Escovávamos os dentes e lavávamos o rosto – dentro de um tempo cronometrado, que ele pré-determinava; tirávamos as capas de sobre as gaiolas dos canários e fazíamos – meu tio fazia e eu observava atentamente – com eles, o treino diário: tio J. aproximava lentamente sua mão esquerda pela lateral da gaiola, o pequeno pássaro saltava um trampolim adiante, em direção ao lado direito. Depois levantava a outra mão e o canário fazia o caminho inverso. Com o tempo, um simples revelar de sua intenção – mão direita ou mão esquerda – quase sem o mover de sua mão, punha o pássaro em movimento. Era mágico! (Ainda que hoje eu pense que fosse natural – o pássaro, talvez sentindo-se ameaçado, movia-se para o lado oposto da gaiola. Mas na época, era mágico. A mente infantil tem este poder de tornar as coisas 'mágicas').

Depois passávamos pela jabuticabeira – uma das árvores daquele pequeno quintal que então, me parecia imenso e sem fronteiras – onde, em épocas de frutos, colhíamos e varríamos os que haviam caído. Finalmente chegávamos à cozinha, onde então um sub-ritual tomava lugar: uma colher de azeite, para a manutenção da saúde e uma leve cor rubra no rosto; um ovo cozido, uma pequena fatia de pão e um copo de leite com chocolate em pó. A manhã estava garantida!

Mais tarde, ele folheava página por página o jornal, varria o quintal com a tal vassoura piaçava e arrumava algumas ferramentas (atividades que então eu me distanciava, à procura de minha tia). Ter me ensinado a ver as horas ligou-me a ele de forma especial. Atemporal. A todo o sempre – eu sabia.

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Tempo 2:

Salto no tempo. Minha madrinha, em seu leito de quase morte. Agora eu tinha vinte e poucos anos. Não tínhamos tanto contato, mas eu a admirava. Ela havia viajado muito – nunca para fora do país mas, tinha estado em todos os estados do Brasil - e, gostava de mim. Deu-me um único e grande presente, quando eu ainda era pequena: uma corrente de ouro com um pingente, a Virgem Maria ainda moça.

Neste momento eu morava em outro país, estava de passagem e sabia que, talvez, não mais a veria. Ela estava deitada e me fitava, com seu olhar afetuoso e inteligente. Eu lhe perguntei o que eu já sabia: "Madrinha, a senhora sente que... o tempo passou rápido demais?"

- Ah sim! ela respondeu. Veemente, sem mais detalhes.

Esta foi, sim, a última vez que nos vimos. Pouco depois, retornei ao lugar onde eu vivia e ela prosseguiu viagem, agora, para fora de nosso mundo.

Tempo 3:

Mais um salto no tempo. Meu mesmo tio J., agora, com 80 anos de idade. Seus olhos azuis eram os mesmos: grandes, incisivos. Encontro-o no hospital. Ele acena ao ver-me. Um gesto indefinido: mistura de oi e tchau, ao mesmo tempo... Mais um de seus códigos? Ele sorri, aquele pequeno sorriso no canto que já fazia parte de seu rosto.

Permaneço confusa por um instante - este código ele não havia me ensinado. Na alegria do oi e do encontro, no entanto eu sabia – saber sem aula - que era em realidade, um tchau.

Dali a alguns dias ele se foi.

Pisco os olhos e nos vejo novamente à lousa verde... ou era um quadro negro, já não me lembro mais. O giz branco colado às mãos. Os canários lá fora... o mistério daquele círculo que ele desenhava com riscos, os minutos, as horas... o Passado, o Presente, o Futuro. Que alegria desvendar um mistério da Vida! “Que horas são agora?” “E agora?” “E que horas serão daqui a pouco?”. Que prazer imenso!

Qual? Talvez, o de me acreditar “detentora do Tempo”, naquele momento.

Dali a pouco, como num piscar de olhos um pouco mais demorado, já não estávamos mais ali. E os códigos secretos, que eu acreditava permanentes no canto do lado esquerdo, também não. Em realidade, não eram permanentes.

Mas estão, agora, em minha mente.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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