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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

AMY

De tanto talento, me vem à mente a imagem de estrelas cadentes quando entram na atmosfera da Terra e, após um brilho rápido e intenso, se apagam rapidamente – num piscar de olhos. Mas a breve e forte impressão que nos deixam – nos olhos e na alma - é o que vale a pena olhá-las.


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Acabo de assistir ao documentário “Amy” (EUA, 2015), sobre a vida e a morte de Amy Winehouse.

Aos 16, Amy amava jazz: Tony Bennett, Sarah Vaughan, Dinah Washington (curiosamente, o gosto musical não era o de ninguém lá de sua casa). Ao cantar um simples ‘Feliz Aniversário’, já nesta tenra idade, denotava sua potência vocal e afinação perturbadoras (fala-se em uma extensão vocal de três oitavas) – vindas sabe-se lá de onde. Era a sua voz.

Queria sair de casa desde os 13 anos, confessou no documentário. Encontrar outro ‘lar’ – dentro e fora dela. Disse um produtor musical ao escutá-la, no auge de seus 18 anos: “A very old soul in a very young body” (uma alma muita antiga num corpo muito jovem).

Era esta a sensação que eu também tinha, ao escutá-la interpretar jazz e soul, em meio a uma Londres atravessada pela música eletrônica de seu tempo. Bem, não de seu tempo exatamente, mas do de sua geração. Pois ela, parecia, era de um outro tempo: o seu próprio; ou seja, mais em sintonia com suas identificações musicais pouco comuns, do que com o que se ‘tocava por aí’. Em realidade, Amy não gostava muito do que se tocava por aí e não se constrangia em dizê-lo, a quem quer que fosse. Tocava e cantava, o que ‘lhe vinha de dentro’.

Não à toa, encantou. Para além de seu talento - ela não vivia a meio-termo, nem a meio tempo. E o que nos encantava era provavelmente, além do talento, a verdade que lhe brotava em forma de música e ela acolhia. Pois num próximo momento, passou a escrever suas letras e músicas. A partir do lugar que podia falar com alguma propriedade: sobre si mesma. Suas próprias vivências, conflitos, mergulhos emocionais – em poços dela mesma. De seu mundo interno conturbado, afetivo, rico – e muitas vezes, aflitivo.

“Eu componho porque sou confusa da cabeça e preciso colocar no papel... e aí componho para me sentir melhor comigo mesma. Para tirar algum proveito das coisas ruins.”

Ela sabia, na própria pele – era um vulcão que lhe incinerava a ela mesma. O vulcão de sua história, da história de suas relações afetivas, da história com a música, com o mundo, com ela própria. “My freudian fate” (meu destino freudiano) diz ela em uma de suas letras, referindo-se muito provavelmente à percepção que tinha da presença e imposição de sua vida emocional passada, em sua vida quotidiana presente. Sua saúde debilitada ao final, afinal, não havia brotado do nada - nunca tinha sido muito boa. A bulimia a perseguia desde sua adolescência, assim como os episódios de depressão.

“Tenho 20 anos, e sou uma cantora de jazz” - o fardo não era pouco. Mas o prazer também não. O prazer de fazer o que sabia, o que queria, em realidade, o que se lhe impunha: sua música. Custe o que lhe custava.

E lhe custou.

Perguntaram-lhe sobre tornar-se famosa, que é o que vinha se apontando no horizonte. Havia sido nomeada para o Grammy da música internacional (2008 – o qual venceu, em cinco categorias) e respondeu, sinceramente: “Não acho que eu aguentaria… eu provavelmente enlouqueceria”.

Sabia de sua turbulência emocional, de sua própria dificuldade em parar. Em se organizar, mais que tudo, internamente. Todos próximos o sabiam. Sua mãe, a primeira pessoa na vida de Amy, o sabia mais que ninguém: “Percebi muito cedo que quando Amy havia decidido algo, estava decidido... Eu tinha dificuldade em me impor a ela (...). Ela dizia: mãe, você pega muito leve comigo, eu sempre escapo da bronca. Você devia ser mais rígida!”.

“E eu aceitei isso”, conclui a mãe. “Eu não era forte o bastante para lhe dizer: pare!”. Amy sentia falta de algo ou alguém, que a parasse. Desde muito cedo.

Não me parece coincidência que anos mais tarde, já próximo à sua morte, uma de suas grandes amigas nos conta, neste mesmo documentário: “Tudo o que ela queria é que lhe disséssemos chega! Pare!”. O mesmo verbo não cometido: parar.

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Conta-nos ainda este documentário, não somente a mãe não conseguiria se impor às decisões de Amy sobre si, mas o pai, este também, fora ausente desde sempre - bem, ao menos até o momento da fama de Amy. Ele mesmo nos conta: “Saí de casa quando Amy tinha um ano de idade”. Ele tinha outra mulher, outra família – outra vida.

Nada contra. A não ser, “Ele não estava lá para dizer: obedeça sua mãe. Era tudo o que eu precisava”, diz-nos ainda, Amy, reconstruindo sua própria história.

“Senti que Amy superou isso tudo muito rápido”, resiste o pai, visivelmente alheio às questões emocionais mais profundas. O mesmo pai que alguns anos depois, diria – diante das câmeras: “Ela não precisa de reabilitação. Ela está bem.”

O final da história nos mostrou, nós vimos - não era bem isto.

Mas não estamos aqui para apontar culpados. Mesmo porque, a dinâmica da vida e da morte de cada um, sabemos, é sempre muito complexa. Repleta de nuances, verdades parciais, pessoais, ambivalentes.

Mas o fato é que a fama de Amy trouxera seu pai de volta – alguns meses de proximidade, de aparentes cuidados, de viagens juntos em turnê. ‘Tinha um pai’ agora. Bem, ao menos, um manager. Que havia surgido tão repentina e abruptamente, quanto desaparecido, lá no início.

Mas Amy, é claro, queria ser amada e estabeleceu com seu namorado Blake, uma relação à medida de seu turbilhão: se drogavam, se amavam, se drogavam, se machucavam. Recomeçavam. Como uma adição.

“Éramos como irmãos gêmeos”, diziam. Algo novamente, com limites confusos, simbióticos, dependentes. Mais tarde, este amor indiferenciado, mostrou melhor seu rosto: “O amor está me destruindo aos poucos”, percebeu ela. Ou, o cantaria, aos 23 anos: “Love is a losing game” (o amor é um jogo perdido).

Após o retorno dele para uma ex-namorada, Amy escreveu Back to Black em duas ou três horas, conta o documentário. Foi outro grande hit, no qual diz, “I died a hundred times” (eu morri uma centena de vezes).

Até que ele foi preso, e ela, sozinha, continuou drogando-se. “Está aqui alguém tentando desaparecer”, conta-nos um de seus amigos cantores.

Em meio a tudo isto, porém, Amy, diante da possibilidade de um contrato milionário, cogitou ingressar em um programa de reabilitação. Sabia que não estava nada bem. Seu corpo e sua saúde se debilitavam a olhos nus, mais do que jamais antes. Foi o momento em que seu pai, com a mesma ausência já incorporada desde a infância de Amy, decidiu: “Ela não precisa, ela está bem”. São suas próprias palavras, que escutamos angustiados, neste documentário.

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“Não sabemos o destino das coisas, se as escolhas tivessem sido diferentes”, diz um amigo próximo. Certamente ela não teria escrito Rehab (letra na qual conta justamente não ter feito a reabilitação) canção que lhe valeu projeção no mundo todo mas, por outro lado, poderíamos conjecturar que, talvez, também, não teria morrido, se tivesse ido para a reabilitação... Conclui em voz baixa, seu amigo.

Não podemos afirmar. Mas podemos sonhar.

“Foi mais do que pude suportar”, diz-nos Amy, uma vez mais, num cristalino insight sobre si mesma. A vida, claramente, a partir de certo momento, foi mais do que pôde suportar. E suporte, parece, tampouco foi algo que lhe rodeou nos momentos precisos.

Até que seu coração parou. “Sua saúde frágil... as drogas... fizeram com que seu coração parasse”, diz-nos uma das psicólogas que esteve em contato com ela, em uma das clínicas em que Amy esteve internada.

“Eu sou como você”, disse-lhe uma vez Tony Bennett, talvez o maior ídolo vivo de Amy, enquanto gravavam um dueto. “A cada vez que eu canto a mesma música, é diferente”, ele complementa. “Não, eu sou como você”, ela o corrige. “Eu, sou como você”, enfatiza, fazendo jus à ordem das coisas. Ele era o cantor sênior.

“É preciso esperar... a vida nos ensina”, ele completou.

Amy não pôde esperar. Não pôde nos esperar. Cada um tem seu tempo. Ele tinha seus 80 anos – havia esperado o tempo de sua vida. Ela não passava dos 27, quando seu coração parou. Sua voz, seu tormento, cessaram. Só que, cedo demais.

Que descompasso, contorno, atalho, repentino para fora da vida? Amy falou em Freud e relembrando-o, este dizia que por fim, vencem os batalhões mais fortes. É claro que a batalha é interna. E por mais que digam, conjecturem, compilem e exteriorizem – como eu e este interessante documentário que recomendo - a batalha é interna, é árdua, e é secreta.

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Amy Winehouse, 14-Setembro-1983 (Londres), 23-Julho-2011 (Londres).

PS. Acabo de saber que 'Amy' levou o Oscar deste ano de melhor documentário!


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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