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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

azul impermeável

Uma crônica mais ou menos adolescente.


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“Com caco de gessooo… com caco de vidroooo…”, dizia a música que Jota escutava, alta, em seu quarto.

Caco era uma palavra que ele gostava. Talvez ele estivesse se sentindo algo assim: cortante, cortado. Além do quê, a ideia lhe trazia um grande alívio. Claro que ele não sabia ao certo o que seria desaparecer do mundo – ninguém sabia. Mas, mais que isto, não pensava no que isto poderia representar. Sobretudo, aos que ficavam.

“Seria o fim de tudo”, ele disse em voz baixa. Sim, tudo. Tudo o que Jota conhecia. E que ele achava que, agora, já bastava. Jota não tinha a perspectiva de que tudo o que conhecia, não era tudo o que havia na vida. Nem de perto. O mundo poderia ser tão maior! Tão mais amplo, tão mais complexo. Tantos lugares, tantos caminhos, tantos desafios mais!

Em alguma parte dele, ele sabia disto. E também não sabia. Pois tinha a sensação de que já havia feito tudo, provado tudo, conhecido tudo. A verdade é que, no auge de seus dezessete anos, ele se sentia cansado.

“Ainda bem que essa música não fala de amor”, ele pensou. “Toda merda de música que toca fala de amor. De nhã nhã nhã de merda! Essa porra de amor!”, agora, ele falava mais alto que a música. É claro que em Jota, neste momento, era justamente o amor que estava adoecido - e também o adoecendo.

Não necessariamente o ‘amor romântico’ do namoro, que ele também já tinha conhecido. Ou do sexo. Mas algo no território dos afetos, dentro dele, estava machucado - e machucando-o.

Aquilo que ele fazia neste momento não se parecia em nada com o ‘quando eu crescer’ que havia sonhado tantas e tantas vezes quando criança. Gostavam tanto quando ele imitava jogador de futebol... piloto de Fórmula 1... soldado militar... ou, simplesmente, quando imitava seu pai.

Quando criança.

Ele lembrava-se muito bem. Um dia de chuva, seu pai havia chegado em casa com uma capa impermeável azul marinho, tão escura, que parecia quase preta. Estava toda molhada e reluzente. Jota fixou seu olhar fascinado sobre aquilo que lhe pareceu, por um instante, um super-herói.

Seu pai entrou ofegante, batendo os pés no chão, a água pingava no tapetinho da sala. O cheiro molhado da chuva vinha junto com o dele, com algo de suor que Jota tanto gostava: seu pai estava em casa.

- Que roupa é essa? a mãe de Jota questionou o pai.

- É do aumento. Deu pra comprar. Se a gente economizar este mês, compro uma pra você também, ele dizia, enquanto ainda batia os pés no tapete.

Mas a mãe não havia dito nada. Não pareceu animada com a proposta. Certamente, pensou Jota hoje, não era o que ela queria. Mas ele, menino, desejou a tal capa de seu pai. Decidiu que também teria uma. Assim que trabalhasse, como o pai, teria uma.

Mas as coisas foram mudando. A vida foi mudando. O tempo foi mudando as coisas, e mudando a todos. Um dia não muito longe daquele, seu pai já não estava mais ali.

A mãe ficou. Jota quis colocá-la para fora de casa um dia. Um dia em que ela lhe disse que se casaria de novo. Mas, Jota percebeu que era dentro dele que as coisas estavam do avesso. No fundo, era para fora dele que ele queria colocar, o que sentia. Tirar de dentro de seu peito; todo amor e ódio que sentia pelo mundo, naquele momento.

Estava tudo confuso, dilacerado dentro dele. E ele queria separar – ou então, recolar. Pouco a pouco. Em realidade, tudo o que queria mesmo, era seu pai de volta. Mas o tudo, ele já sabia desde cedo, era sempre impossível. “O pai de volta”, estas palavras se entalavam em sua garganta. Chegava a sentir dor. Destas vezes, ia dormir mergulhado em seu próprio choro.

Nestas ocasiões, era como se chovesse dentro dele mesmo. Sentia tantas coisas e... tão pouco podia fazer. As coisas da vida e do mundo lhe pareciam tão distantes. Pareciam-lhe estranhas e frias. Como se não fossem para ele. Como se ele não pertencesse a este mundo.

Ele pensava no caco de vidro.

Jota tinha uma escolha agora. Como um caminho a escolher, uma bifurcação. Ou em direção ao mundo – a este estranho mundo, por mais frio, distante e difícil que fosse - ou para fora dele.

Naquele dia de chuva, depois que seu pai entrou, enxugou-se um pouco e sentou-se sobre o sofá da sala para descansar, Jota, ele, jogou-se em seus braços num salto só e pousou em seu colo. Jota não esqueceria nunca mais aquele momento - não queria esquecê-lo. Mas para isto - pensou ele agora, numa espécie de olhar para dentro de si mesmo: ele precisaria viver.

Para lembrar-se, ele precisaria viver.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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