leituras contemporâneas

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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

Entre Quatro Paredes

A expressão alude a um lugar íntimo. A um espaço particular, pessoal e restrito.


ElzaTortello.jpg "Possibilidade" - Imagem gentilmente cedida pela artista, Elza Tortello

De praxe, Entre quatro paredes também remete ao sensual, ao erótico.

Não deixa de ser. Entre quatro paredes, existe o quarto. Um espaço reservado e exclusivo: exclui todo o resto do mundo. Entre estas quatro paredes, cada um decide o que faz, ou deixa de fazer.

A temática instiga a imaginação - as possibilidades e impossibilidades de cada um; a fantasia, o desejo; os limites e as fronteiras, os voos, as escaladas e os mergulhos. Como disse meu amigo astrônomo, "o que há entre os quatro pontos cardeais do Universo", de cada um. Pois não somente entre o céu e a terra, mas, suspeito que também no vasto território da sexualidade humana há mais do que poderia supor nossa very vã filosofia. Do encontro de dois corpos que, de preferência, se amam.

Mas há outras quatro paredes no mundo também.

Entre as quatro paredes brancas do salão principal de uma Galeria de Artes em Ancara na Turquia, esta semana, seu Embaixador Russo foi assassinado à queima roupa. Inadvertidamente, durante seu discurso de inauguração de uma exposição de fotografias.

Traduzido para o Português como “Entre Quatro Paredes”, a peça teatral em um ato Huis Clos de Jean-Paul Sartre (1944) carregou a conhecida máxima, “O inferno são os outros”.

“Os três personagens morrem e chegam ao inferno. Este, porém, não tem demônios nem fornalhas como na tradição cristã. É apenas um quarto fechado onde os três se veem condenados a conviver uns com os outros. Confinados, sem espelhos, os três são obrigados a se ver através dos olhos dos outros. Inês tenta conquistar Estelle, que, por sua vez, mostra interesse por Garcin. Inês joga um contra o outro, forçando-os a exibir as suas faltas. À medida que a convivência se torna insuportável, Estelle tenta matar Inês (...). Garcin tenta se vingar amando Estelle diante de Inês. Expostos em suas falhas, os três acabam chegando finalmente à conclusão formulada por Sartre - na voz do personagem Garcin: o inferno são os outros” (Fonte: Wikipedia).

Entre as quatro paredes de seu quarto em uma pensão de Arles, na França, Van Gogh pintou a série de três quadros que retrataram este mesmo quarto - e que se tornariam entre os mais conhecidos de toda a arte humana (e, segundo Van Gogh ele mesmo, “seu melhor trabalho”).

dsc_0391.jpg "O Quarto", Van Gogh, 1888

Entre as quatro paredes de uma cela de prisão, pouco se pode. A não ser que estejamos falando do grande poeta e escritor Oscar Wilde e de seu texto, De Profundis, de 1897 – escrito em forma de cartas durante sua longa e sofrida reclusão devido à sua “má conduta social”.

“Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara” (O. Wilde).

Há ainda as quatro paredes de um escritório de trabalho, onde tarefas e vínculos se fazem, desfazem e refazem ao ritmo dos sabores e dissabores humanos; as de um quarto de hospital, onde pessoas se curam ou de lá, misteriosamente, nunca mais retornam; de uma imensa biblioteca onde o silêncio, carregado por mentes pensantes, ressoa pesado. Há também as quatro paredes de uma sala de análise. Aí, todo um capítulo à parte (o qual inevitavelmente não caberá aqui).

Onde, num encontro fértil entre analista e analisando, muita coisa mental é produzida/gerada. O passado pode ser revisitado, o presente (re) construído, as ilusões estilhaçadas. As fantasias tocadas; medos, desejos, pensamentos – sonhos – escutados, vivenciados. (A experiência emocional). Verdades enxergadas. Novas perspectivas construídas, tecidas.

Pode-se também fazer verdadeiros “piqueniques” entre quatro paredes. Quem nunca em Paris encheu a sacola de queijos, uma baguette e uma garrafa de vinho e lá foi, num dia frio (senão faria fora, o piquenique), mais do que economizar o alto custo de uma refeição na Cidade das Luzes, se entregar aos prazeres de uma degustação em petit comité entre as quatro paredes do quarto de um hotel? De qualquer cidade do mundo, aliás.

Mas, há também morte e suicídios entre quatro paredes. O escritor e poeta português Mário de Sá-Carneiro matou-se com apenas 26 anos, também em um quarto de hotel envenenando-se com uma dose letal de arseniato de estricnina, em 1916. Deixou uma carta de despedida a seu amigo, Fernando Pessoa:

Paris, 31 de Março de 1916. Meu Querido Amigo, A menos de um milagre na próxima segunda-feira, 3 (ou mesmo na véspera), o seu Mário de Sá-Carneiro tomará uma forte dose de estricnina e desaparecerá deste mundo. É assim tal e qual – mas custa-me tanto a escrever esta carta pelo ridículo que sempre encontrei nas "cartas de despedida"... Não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando: afinal tenho o que quero: o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui... Já dera o que tinha a dar. (...) (M. de Sá Carneiro)

Também entre as quatro paredes do próprio quarto no Palácio do Catete, Getúlio Vargas se suicidou com um tiro de pistola, em Agosto de ’54. Igualmente em Agosto, porém de ’62, a bela Marilyn Monroe era encontrada morta em sua própria cama. A lista é, em realidade, longa.

991783-22122015-_dsc4098_1.jpg Quarto de Getúlio Vargas, Palácio do Catete, Rio de Janeiro

Mas, deixemos a morte um pouco de lado, voltemos à vida – voltemos ao quarto; ao quarto com vida.

Onde, para outros, entre quatro paredes refere-se efetivamente ao puramente familiar – aos espaços mais especiais da família. Onde as crianças acordam os pais de manhã nos finais de semana; ou o inverso durante a semana. Onde leva-se por exemplo – num gesto de amor- o café à cama no dia das Mães, dos Pais, dos namorados; dos aniversários.

Em suma, entre quatro paredes pode-se fazer muitas coisas: amar, trabalhar, ler, orar, comer, chorar, morrer também - ou, simplesmente (para muitos nem tão simples assim) dormir e sonhar. Podemos enfim, entre quatro paredes, viver. Talvez "entre quatro paredes" seja isto mesmo: um pedaço - uma pequena amostra - da Vida, ela mesma.

Porém - e é este o grande prazer e a prerrogativa de se estar entre quatro paredes - um pouco mais resguardados dos barulhos e ruídos, como disse no início, do resto do mundo. Entre quatro paredes, este lugar íntimo, particular, pessoal e restrito - mas também, infinito.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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