leituras contemporâneas

Artes, Feminino, Humanidades, Línguas, Pensamentos, Psicanálise - e viagens...

Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

JAMES BOND E A SAÍDA DO REINO UNIDO: TEMPOS DE MUDAS

- É isto que você quer?
- Não tenho certeza de que tive uma escolha.
- Sempre temos escolhas...
- Nunca paro para pensar nisto.
- E o que aconteceria se você fizesse?
- O quê – parasse? Não sei.


spectre-daniel-craig-james-bond1.jpg

Bond, James Bond - tão Inglês quanto o próprio Reino Unido.

Acabo de revê-lo contra Spectre. Gosto de James Bond. Algo neste homem tão perfeito quanto irreal. Neste episódio, após matar a tiros de fuzil, despencar junto de um prédio que também desabava e lutar visceralmente dentro de um helicóptero em queda livre (em uma sequência ininterrupta), o botão de seu Armani sequer se abriu. Os olhares mais atentos perceberão, talvez, algumas gotas de suor em seu rosto – não de Bond, mas de Daniel Craig (o ator), naturalmente.

Bond contra Spectre se inicia em meio à conhecida Festa dos Mortos no México. Um desfile vivo, sensual, misterioso e - por incrível que possa parecer - convidativo, repleto de fantasias aludindo aos mortos e à morte. Interessante encenação deste ardente jogo de desejo e peleja entre a Vida e a Morte. Talvez, o próprio jogo de Bond. Cujo início se lança sob o título, “The dead are alive” (Os Mortos estão vivos).

Curiosamente, neste episódio, a ideia central do inimigo é desfazer a Corporação que mantém Bond - considerada agora, obsoleta. Ou seja: seria o próprio fim, a morte, do projeto 007 de uma vez por todas. “O programa é pré-histórico”, diz o novo – e jovem - CEO.

O que nesta saga de um agente secreto fruto dos tempos de guerra fria está morto, o que está vivo? O que se tenta manter a todo custo? O que se perdeu e obstinadamente tenta-se acreditar que não? Falo de Bond e da terra de onde vem: seu Reino Unido. O que foi e não ultrapassado? O que de novo foi conquistado? O quê não se consegue manter e - o que não se consegue mudar? São algumas das perguntas que me vinham à mente enquanto revia – já disse que gosto? – a este último Bond.

007 é o símbolo da própria ‘coisa inglesa’: a elegância, a potência, os sentimentos em segundo plano. Sua missão não lhe deixa tempo para sentir: ele tem que agir, ainda que sob o crivo da decisão meticulosamente (quando possível) pensada. Como James não fala muito, é sobretudo no gesto e no silêncio que seu sotaque britânico se dá.

Bond é ele mesmo obcecado pelo que é. “Se eu não fosse isto, talvez seria um padre”, confessa. Ou seja, parece falar-nos do tudo ou do nada. Do homem superpotente ou do casto; da vida ou da morte; do popular, enfim, oito ou oitenta. Bond é oitenta em sua escolha (que não é escolha como ele já explicou) e o é por inteiro. O que se faz necessário, afinal: não convém matar – ou ser morto - pela metade. Assim sendo, é agente secreto, sedutor e solteiro – por inteiro. Até o último fio de cabelo (que tampouco se desmancha assim tão facilmente).

Mas na tendência atual dos filmes de heróis de ‘humanizar’ seus personagens, Bond é também alguém que às vezes bebe demais, ele admite. Na tentativa talvez – além da busca do prazer -, de aplacar dentro de si, algo de seus próprios instintos (pulsões): quer seja de vida, quer seja de morte. O inimigo afinal, nem sempre está do lado de fora...

No final das contas seus caminhos são tão imprevisíveis e incontroláveis, que a corporação decide implantar nele uma espécie de chip que o rastreará por onde ele for 24/h por dia. Claro que isto também não funcionará. “Você é uma pipa dançando num furacão”, diz-lhe outro personagem.

Ao entrar em seu apartamento, uma de suas colegas da Corporação lhe pergunta: “Acabou de se mudar?” Ele se surpreende, aparentemente sem entender a pergunta, responde que não. Ela havia notado os quadros não pendurados, apenas encostados ao chão contra as paredes - a impressão de um lugar provisório. Que é exatamente onde Bond habita.

Mas o apartamento não é sua casa. Penso que sua casa seja ele próprio. O apartamento é outra coisa - é seu endereço postal. Sua vida é ser quem ele é. Um quê de autossuficiência; de não precisar dos outros; de agir só - e de ser só. Algo de Reino Unido nisto tudo - não poderia deixar de ser. Talvez no fundo, James Bond tenha por bastante tempo (desde 1962) sustentado – e pago o alto preço por - seu sonho-ilusão (a ilusão costuma ser prazerosa). Mas o preço alto é que, por trás dela, não há nada.

Contudo, parece-me que o agente secreto neste episódio, de alguma forma é revelado - a nós e a ele mesmo. Ela (sua parceira no filme) o questiona: “Você tem um segredo, mas não o dirá a ninguém. Porque não confia em ninguém”. Ela o compreendeu, afinal: ele não consegue confiar; ele não consegue precisar. Se o pequeno James perdeu os pais quando criança de forma tão inesperada quanto abrupta, quando novamente poderia confiar ? Quando novamente poderia precisar ? A não-garantia de nada parece tê-lo paralisado no lado ‘80’ da moeda.

Mais à frente, a moça lhe dirá: “Não quero esta vida para mim. Mas também não vou te pedir para abandonar a sua”. Ela sabia o que dizia.

Ele, no entanto, ao responder (lá no início deste texto) que não sabia o que aconteceria caso parasse para pensar, assinalou assim que havia deixado um espaço em aberto, uma lacuna ainda não preenchida dentro de si mesmo. Um espaço para algo que ainda não tinha, que nele, ainda não existia. Ou seja, admitiu-se em alguma medida imperfeito e incompleto (lembrando que estar acompanhado não significa estar com alguém – Bond costuma estar acompanhado).

Mas para chegar aí, parece ter atravessado em boa medida sua própria solidão: a de ter conseguido finalmente, pensar sobre si, sobre sua própria finitude (talvez até mesmo o risco que viveu em ser 'extinto', pelo jovem CEO, tenha-lhe sido um gatilho). E assim, algo no encontro com ela, neste momento preciso - e pela primeira vez -, o tenha tocado de maneira diferente.

Ao final do episódio, ele, ao invés de cobiçar o moderno carro que se encontrava em montagem na corporação, recuperará um de seus antigos (o charmoso Aston Martin DB5). Ele resgata o carro mas, talvez, o que resgata seja algo dentro dele mesmo.

“Mate-me” diz-lhe por fim seu inimigo. Bond não o faz e conclui: “Tenho coisas melhores a fazer”. Ele pensava nela. Pois já não era fora dele que a verdadeira batalha estava agora.

DanielCraigBond.jpg

Aludindo uma vez mais ao poderoso Reino inglês, parece-me que este não tenha conseguido ainda atravessar sua solidão de Império: seu sonho-ilusão de ser só (apesar dos 43 anos de casamento com a união europeia).

Em realidade, o belo, grandioso, potente e elegante Reino inglês deseja de fato mudanças? Sim mas, pelo que vimos, pela metade. Cinquenta por cento as quer. Sabemos, não dá para se querer algo pela metade. Minha compreensão política não alcança a complexa trama de razões que levaram o Reino Unido a se retirar do Mercado Comum Europeu. Mas até onde escuto, tenho a impressão de que a metade que se retraiu e puxou consigo a outra, é justamente a metade do medo da mudança, da dependência, da negociação trabalhosa, da presença do outro. Talvez não confiem mais na possibilidade da parceria - ou, desconfiem em demasia. Certamente nenhuma parceria é fácil – todos sabem, Bonds ou não.

O título é SPECTRE: um espectro de possibilidades. Talvez haja mais opções afinal entre o oito e o oitenta. Bond viveu parte das suas: entre a vida e a morte, geralmente; além de não viver em lugar nenhum, e de acreditar-se infalível. Mas o Bond cuja porção maior reinava até agora, parece ter ganho a outra, apostando no novo. E assim estendido a mão a uma outra possibilidade: a de justamente precisar e, ser falível. Uma vez que no campo das relações humanas, nada nem ninguém é infalível. Nem mesmo James Bond.

E então aqui, por fim, talvez encontremos nele algo que o diferencie das terras da Rainha: James vive agora com a ‘dor’ (e o prazer) de ser incompleto, buscando junto dela (pela primeira vez), a possibilidade de ser. Não sabemos o futuro – nem de 007 nem do Reino Unido - mas ao menos neste momento, parece ser assim. E, claro, falo do lugar que ambos ocupam, em minha mente, somente. Conjecturas sobre o que não é dito - e eu construo -, por trás das imagens e ações que venho assistindo: tanto na tela, quanto fora dela.

Cheers!

PS. O título deste texto, "Tempos de Muda", parcialmente inspirado no belo livro de Renato Mezan – Tempo de Muda, Ensaios de Psicanálise (Cia. Das Letras, 1998).


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Cláudia Antonelli