leituras contemporâneas

Artes, Feminino, Humanidades, Línguas, Pensamentos, Psicanálise - e viagens...

Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

O SEXTO SENTIDO DO VIAJANTE

Um certo olhar. Um pouco para dentro, outro pouco para fora. É assim que o viajante olha.


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Os sentidos um pouco mais aguçados. Os cheiros, as temperaturas, o tato, as distâncias, os sons. As cores, as vozes.

Também os sabores. As palavras, as pessoas. A curiosidade na ponta – dos dedos, da pele, dos movimentos. Alguma facilidade em se misturar - em se tornar, talvez, um pouco mais como o outro.

Um desejo de ir lá. De ir-se de si - de se transportar.

Próximo e distante ao mesmo tempo, o viajante fala ao se calar. Percebe-se que tem grande apreço. Pelas palavras, pelas falas, pelos dialetos. Principalmente depois do primeiro - do primeiro corte sobre o próprio peito. Da primeira distância que relativizou o que era, supostamente, seu - o que era central.

Mudou de lugar. As coisas mudaram. Fora, mas principalmente, dentro.

Assim como a saída da infância relativiza a grandeza das coisas – dos lugares, do mundo, do tempo (jamais a importância). Há outras medidas e outras formas de fazer - outras maneiras de ser.

Assim, quando se sai do lugar, não se sai somente do lugar - casa, cidade, país. Sai-se (se é possível o reflexivo aqui... sim, pelo visto o corretor não me censurou. Ufa! deve ter aberto uma exceção para este caso tão especial que é o do viajante) – enfim, sai-se de si.

Mas não é nada de alma fora do corpo – pelo contrário. É ela bem junto dele. Parece-me que viajar nos une irremediavelmente, antes de tudo, a nós mesmos. Aprendemos a confiar, um pouco mais, em nós mesmos. (Depende-se disto para seguir adiante).

Para sairmos não só de casa mas - da casca. Feito casulo. Efeito casulo: após o rompimento, algo muito diferente acontece. As asas se abrem. O olhar se alarga. Os espaços multiplicam-se. No humano, o dentro se aprofunda.

Para alguns, isto é por demais vertiginoso. Por isto que nem todo o mundo é viajante. Muitos são turistas. A diferença, não poderia ser maior.

Mas o viajante faz turismo também, de vez em quando. É como se estivesse "uns dias de férias", descansando. Da experiência extenuante – tão extenuante quanto boa - de viajar.

De não saber, e de querer. Estar naquele exato momento entre o aqui e o lá distante. O foi e o será; o sim e o não. Entre ele e o outro. Este momento preciso e precioso que une e separa as coisas, ao mesmo tempo. Às vezes sem nome. Nas lacunas - do olhar, do toque, do lugar.

É aí que o viajante está. Entre as linhas deste texto. Nas linhas, ele não está.

Claro que, no fundo, procurando se encontrar. Lá fora, projetado no mundo, sua profunda dualidade: como numa foto, o negativo dele mesmo; o outro lado, da própria imagem. O outro lado, da própria mente. Como se , fosse o diferente.

Mas é dentro dele, que ele tenta alcançar. Às vezes a distância é longa. Há montanhas, vales, rios e até mesmo oceanos. Mas o viajante não se cansa... Cada milha é uma milha mais adentro.

O sexto sentido, é aquele que ele busca para si - toca de leve, tenta se apoderar. Ele o toca, por um instante - eterno instante - mas este também já não está.

Por isto é tão difícil o viajante parar: o caminho não acaba. O caminho não acaba até ele se encontrar.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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