leituras contemporâneas

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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

UM CONTO DE AMOR

“O amor não precisa”, diz um verso de Pirandello.
Curiosamente em sua escrita é isto mesmo, um verbo intransitivo. Não tem "de": nem de nada, nem de ninguém.


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Ao final de uma conversa, uma amiga me aconselhou: “Faça algo diferente, com pessoas que você gosta”.

Eu fiz. Fui lá caminhar sozinha aquele dia, num lindo caminho de terra a uns 10 km de casa onde, me parece, acabo indo em momentos importantes. Importantes internamente: divisores de água. Caminho cercado por árvores, plantas, algumas nomeadas por pequenas plaquetas. Pessoas e cachorros passando, passeando, conversando.

“O amor não precisa”.

Existirá sem nada? Sem nada, nem ninguém, sobre o quê se pousar. Sem uma tela onde arranhar seus riscos, deslizar suas tintas, seu colorido? Existirá em estado latente – dentro da gente, adormecido? Aguardando então (se é que aguarda) uma pista onde pousar. Onde pousar-nos: nossa mente, coração, nosso olhar em busca daquele outro.

Se assim for, existiria em silêncio e independeria dele ou dela, ou de nós mesmos. “O amor não precisa” – nem de nada, nem de ninguém.

Até o dia em que encontra – muito por acaso - esta tela e nela por alguma razão muito misteriosa, de alguma maneira, ele passa a viver também fora da gente. E se queima, feito cerâmica no forno. Solidifica-se, concretiza-se, realiza-se. Até mesmo às vezes, por descuido ou hábito, se petrifica e então, arrisca virar outra coisa.

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Numa tarde, em plena avenida movimentada, em torno de meus dezessete anos, vi pichado num muro de minha cidade:

“Quebrar a prisão do dia-a-dia, através da Paixão. Shakespeare – by Paty”

Estive sob o impacto destas palavras ao longo de vários dias. Talvez anos. Sem muito compreendê-las. Mas sabia – intuía - que este muro, esta ideia, marcariam-me. Como aqueles carimbos forjados no gado a ferro e fogo, cujas marcas nunca desaparecem. Só que, neste caso, internamente.

De maneira imprecisa no início – afinal, o que isto significava? O que era exatamente a paixão? O que era o dia-a-dia? (no auge dos dezessete anos). Mais que tudo - o que seria esta prisão? E ainda, o que seria quebrá-la? Nem mesmo Shakespeare ainda ao certo eu conhecia.

Mas isto tudo – pois era bastante – ficou em mim. Destilando, feito extração de óleo essencial: de pouco em pouco. As palavras algumas vezes não precisam de um sentido imediato. Como as músicas que gostávamos e não conhecíamos a letra, num primeiro momento. Não era somente a música ou a letra: era algo que vinha junto ‘do todo’ e, de alguma forma, nos tocava. Em outra dimensão da comunicação.

Esta frase no muro, aquela tarde, foi assim. Algo que ainda precisaria ser decifrado. Em realidade, precisaria ser vivido, para ser compreendido. E revivido. Recomeçado. E precisaria ser construído. Dia após dia. Transformando-se no fim, talvez, em algo parecido com o próprio muro onde a frase estava pichada – mais do que em suas palavras, no muro que as sustentava. E um dia talvez, precisaria ser desconstruído, e depois, reconstruído. Num dia qualquer, como se fosse a primeira vez. Para que se mantivesse novo. Ou ao menos, vivo.

Algo que hoje chamo de Amor.

E que, agora, me aproxima do pensamento de Pirandello. Diferentemente da paixão, “O amor, não precisa”. Nem de quebras, nem de rotina, nem de prisão, nem de Shakespeare. Simplesmente, não precisa.

Ou ao menos, assim ele acredita - o amor. De tão livre que é. Sobretudo, de nós mesmos. Tão aprisionados que somos, em nosso dia-a-dia. Pois talvez a grande diferença entre o amor e nós, seja mesmo esta: nós precisamos de tanto...

Pondero afinal – quem mais tinha razão: Pirandello ou Paty? Onde começa a paixão, onde termina o amor, onde começa o amor e termina a paixão... Ou, por que às vezes termina um e começa o outro e nem sempre andam juntos. Mas às vezes sim. E tão bom assim, quando vão juntos.

É claro que a pergunta - Pirandello ou Paty; o Amor ou a Paixão - é retórica, pois não conta com uma resposta pronta. Para cada um esta história será diferente. E única. Cada um terá sua própria história de amor e de paixão.

Lembrando - talvez nem todos se lembrem - e isto é o que afinal aprendi com ambos, que, enquanto estivermos vivos, talvez sempre faltará uma parte em nós, por viver. Uma parte ainda desconhecida; não vivida.

Uma quota deste amor teimoso, independente; latente, dentro da gente. Que teima em querer renascer, como se fosse a primeira vez. E teima em querer ser paixão. Ele não precisa, mas desconfio que queira, manter-se vivo. Mantendo-nos vivos.

Cabendo-nos então, vivê-lo ou não. São as escolhas que a vida nos exige. Diz-nos Anais Nin: à medida de nossa coragem.

Mas o conto de amor - ele começa agora.

Ela havia notado algo diferente nele aquele dia. Ela já o conhecia, havia algum tempo até... Mas - foi algo aquele dia, em seu olhar um pouco distraído, talvez, que veio de encontro ao dela. Ou seria algo no dia. Ou ainda, seria nela?

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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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