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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE

“Eu vejo a fenda do humano”, diz Poirot em determinado momento. A fenda que revela então, o que está às escuras: o assassino em cada um.


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Acabo de assistir ao clássico do cinema, Assassinato no Expresso (do) Oriente. Que, em festivais de filmes, em minha opinião participaria na categoria Hors Concours. A história policial escrita por Agatha Christie e publicada em 1934 teve sua estreia no cinema em 1974 com Ingrid Bergman e Sean Connery no elenco. A de agora também é de primeira: entre outros, Jude Dench, Michelle Pfeiffer, Penélope Cruz, Johnny Depp, Willem Defoe e o próprio Kenneth Branagh que o dirigiu nos dá uma vez mais prova de sua sólida formação shakespeariana no papel do irreverente Hercule Poirot.

Mas é hors concours por ser algo além de um filme. Pois não é somente um recorte da literatura, é um recorte da humanidade ela mesma.

A história, inspirada no existente e luxuoso trem “O Expresso” que liga a Ásia de então à Europa, alguns já conhecem. Detetive Poirot, o grande mas não único protagonista da trama, encontrando-se em Istambul, sobe a bordo inadvertidamente no último instante (uma destas imprevisibilidades precisas da vida) uma vez chamado a retornar a Londres, sua cidade, para desvendar seu próximo mistério. O que “não sabia”, é que seu próximo mistério já estaria ali, neste acaso sincrônico de última hora a bordo do trem, durante o caminho. A vida é assim.

É inverno no Leste Europeu e no trajeto ocorre uma nevasca que desencadeia uma avalanche, descarrilando o suntuoso trem que permanece ali, sobre uma frágil ponte em meio à paisagem bucólica, branca e gélida, até o final da história. Que se dá ali mesmo, exatamente entre o Oriente e o Ocidente – metáfora talvez para a distância que nos separa a todos -, entre as relações humanas confinadas ao espaço daqueles vagões.

Naturalmente, como numa boa história policial, todos são suspeitos. Porém, não irei me ater ao script que pode ser encontrado em páginas da Internet ou, naturalmente, no excelente livro de Christie. Mas, ao que mais me chamou a atenção em meio ao luxo e ao glamour que a caneta tinteira de Christie nos oferece: aquele fator humano tão menos belo, menos aristocrata, menos nobre, que por ela (e Poirot) nos é revelado. A história até então é uma história de detetive. É plausível, lógica e investigativa. Mas, quando alguém é morto entre os seletos 12 passageiros e ali permanece até que o trem seja resgatado, algo da morte, do crime, do além da lei, paira entre estes personagens que, assim como todos os humanos, revelam-se detentores de afetações muito além da superfície fina e estética.

Quem não gosta dos tais spoilers, pare por aqui. Mais que suspeitos, todos se revelarão culpados. Sob uma doce e inocente trilha sonora ao fundo que é a delicadeza ela mesma (algo como aquela frágil pequena música que escutamos em brinquedos de bailarinas que rodopiam ao darmos corda), o filme revela também o bruto do humano, em câmera lenta: o momento do assassinato. É um momento passado, a cena é em preto e branco, recriada/recontada pela mente do detetive. Ali, vê-se então o quão mesquinhos, vingativos, passionais e imperfeitos, aqueles distintos passageiros (nós todos, diga-se de passagem), são. De crimes que tentamos guardar, esquecer, distorcer.

Todos somos culpados. É isto que Christie (e Branagh) revelam nesta complexa – e simples - história. Desde a rica aristocrata (a grandiosa Jude Dench) até a bela e independente americana (Michelle Pfeiffer); desde o erudito médico britânico, até a recatada religiosa, todos tinham uma razão para matar o sujeito assassinado, e o fizeram.

Algo da fina camada da vida, da superfície que cobre o horror que subjaz – assim como a camada de neve que recobre o trem -, derrete no calor daqueles humanos, revelando seu subtexto.

Fez-me pensar em quantas coisas ‘matamos’ em nosso dia-a-dia. Quantos encontros, diálogos, possibilidades, quantas trocas afetivas que morrem (prematuramente) ao preço das obrigações, do tempo que dizemos não ter, da pressa e distância que insistimos em alimentar. Quanta vivência humana que é abortada quotidianamente. Quando nos mantemos – e na maior parte nos mantemos – no superficial, no ludibriado, no equivocado, no iludido, no mascarado. Vivemos assim.

Dos personagens de Agatha, um após o outro, vemos ‘cair a máscara’. Certo, retiradas um pouco à força – do pensamento e do trabalho – de Poirot que, não contendo-se com a superfície, escava além. “Eu vejo a fenda do humano”, diz ele em determinado momento. A fenda que revela então, o que estava às escuras. (Sabemos que Agatha Christie foi casada com um grande Arqueólogo, o que me faz pensar nestes processos de estratigrafia da arqueologia: a retirada das camadas que cobrem objetos soterrados, “a poeira de cima”, para se descobrir o que há abaixo).

Nesta história, Christie o faz no contexto europeu de seu tempo, num luxuoso trem de dar inveja a qualquer viajante. No entanto, se retirarmos o figurino e os contornos da primeira classe, resta mesmo o humano. O demasiadamente humano.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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