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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

Lion - e a busca pela verdade

Chegou ao Brasil este mês o filme Lion - cujo título compreendemos ao final da história.


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Lion fala-nos de várias coisas. Mas fala-nos, a meu ver, principalmente de duas: da busca pela verdade e, mais especificamente, da busca pela verdade na origem de cada um – questão geralmente presente em todos nós e particularmente agora, ao permear os milhares de imigrantes levados a ‘perder’ (ou distanciar-se) de sua origem. Tal qual temos visto acontecer quotidianamente sobretudo na Síria - mas também no Sudão, na Jordânia, no Líbano, no Afeganistão, no Paquistão e no Iraque (para nomear somente alguns).

A busca da origem de cada um me parece, logo de partida, algo intrínseco ao ser humano – enquanto espécie: “De onde viemos, para onde iremos?” Aí as diversas construções culturais ousarão das mais variadas respostas, desde a reencarnação até o pó das estrelas; de volta à poeira ou o fim aqui mesmo. Ou, da pergunta individual – ontológica – da pequena criança, em algum inevitável e esperado momento de sua vida: como eu nasci? De onde eu vim? Aí também teremos diversas versões.

Mas o que interessa aqui é que a ‘curiosidade sobre si’, é algo que nos atravessa desde nossa origem, até o fim. Porém, para alguns grupos de pessoas, estas questões se fazem especialmente pertinentes. Penso nas crianças adotadas e nos expatriados. O protagonista Saroo, neste filme, encarna nada menos que ambas.

Perdendo-se de seu irmão mais velho numa fatídica manhã da agitada Calcutá (Índia) e contando com apenas cinco anos de idade (brilhantemente interpretados pelo pequeno Sunny Pawar), Saroo, após algum tempo e muitos percalços (sua luta pela sobrevivência é indescritível - deve ser assistida no próprio filme), é levado a uma instituição para menores órfãos e/ou abandonados. Outro dia não longe deste, ele é adotado por um casal australiano.

Salto no espaço-tempo: Saroo tem agora 25 anos e tornou-se australiano. Ele estuda, aprende, se diverte e se desenvolve. Seus pais adotivos, afetivos e compreensivos, formam (com mais uma criança adotada pouco tempo após a chegada de Saroo) uma verdadeira família.

Mas Saroo, uma noite qualquer, se encontra entre amigos e em vias de se apaixonar. São jovens, falam de viagens, de origem. Não é somente Saroo que ‘veio de outro lugar’. O problema é que Saroo não sabe ao certo de onde veio; nem de quem veio - até re-encontrar, nesta mesma noite por acaso, o jalebi, o doce, objeto do desejo de sua infância.

Ele havia tentado passar ao lado deste passado. Ele sabia que vinha de outro lugar – seus pais, sábia e amorosamente, nunca o omitiram. Mas Saroo tentou até onde pôde – por suas próprias razões - passar à margem, no fundo, de si mesmo. Porém, diz o simples e certo ditado popular: a verdade sempre aparece. Ou ao menos, tenta com todas suas forças, clamar por reconhecimento – primeiramente, o nosso próprio.

E esta verdade que ele ainda não re-conhecia – conscientemente – se impunha. Assim, ele avistava ao horizonte a figura de seu irmão (tal qual ele o havia conhecido quando criança); o rosto de sua mãe; alguns chãos que percorreu. Imagens que a partir de certo momento, ‘não lhe saiam da cabeça’, pulsavam feito um coração que bate, com pedaços vivos de sua própria história que buscavam um lugar junto ao seu sol, agora, oceânico. Ele já não podia mais se esquivar, já não podia protelar. Já não podia mais, em realidade, negar. Ele precisava reconstruir e reconhecer, esta verdade: sua origem.

E lá ele foi, mapeando suas memórias, mapeando o mundo, reconstruindo rotas, construindo o reencontro. Até chegar de onde saiu. (O resto da história pouparei a quem ainda não assistiu a este bonito filme).

Mas, Saroo ‘teve sorte’. Teve oportunidades e as abraçou. E o que fazem os que não têm acesso a esta reconstrução, a este contato com seus terrenos originários? Penso novamente nos imigrantes arrancados de suas terras-mães para se salvarem. Os milhares que vêm aportando em terras alheias, deixando para trás casas, famílias, escolas, trabalhos, vínculos - enfim, suas histórias. Laços e identidades que terão de refazer do zero, a partir de algo que carregam somente por dentro. Porém, muitas vezes chegando à ‘nova terra’, abandonam a própria língua, cultura e referenciais – impelidos pela crença de que devem ‘aprender e se adaptar ao novo local’. Acreditando que, para se construir novos referenciais, precisar-se-ia abrir mão dos anteriores. Não haveria mal maior.

É sempre preciso dialogar com o que já existe - jamais negando ou invalidando, que se constrói o novo.

Uma das maneiras de se entender um processo de análise está na assertiva, “É onde busca-se a verdade”. Não a verdade defendida pelo Direito ou pela História, mas aquela ‘de cada um’: pessoal, permeada por desejos, dores, percalços, abismos, construções, experiências, possibilidades, sonhos e pesadelos. Geralmente, entrando-se em contato com este vasto, profundo, sinuoso e infinito território (o da própria mente) faz-se descobertas até então insondáveis – às vezes dolorosas.

Um pouco como Lion, que somente pôde compreender seu nome – assim como nós espectadores -, ao final da história, de sua própria história. Pôde juntar as peças de seu próprio quebra-cabeças, até então, deixado de lado.

Por fim, nos damos conta que sua maior mudança não havia sido da Índia para a Austrália, como poderia parecer (esta, somente a primeira) - mas a abertura de seu próprio calabouço, avistando e visitando, suas próprias terras internas.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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