leituras contemporâneas

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Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever

AS ESCOLHAS QUE NÃO FIZEMOS

O presente que não demos; o filho que não tivemos; a viagem que não fizemos; o amor que não vivemos.


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Em 2009, sem maiores pretensões, a enfermeira australiana Bronnie Ware escreveu um artigo a respeito de sua experiência com pacientes em fase terminal – geralmente em seus três últimos meses de vida -, mas que, apesar dela, em 2011 se transformaria no best-seller The Top Five Regrets of the Dying (ed. Hay House); literalmente “Os cinco maiores arrependimentos daqueles que estão morrendo”, traduzido para sua versão em português como “Antes de Partir – os 5 Maiores Arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer”, agora já em sua segunda edição (Geração, 2017). Seu testemunho foi também traduzido em 29 outras línguas através do mundo.

Parênteses: é interessante observar o fenômeno do que se torna best seller. Na Internet encontramos as listagens completas. No mundo, Harry Potter liderou algumas décadas; a saga O Crepúsculo andou junto, entre outros. Nos Estados Unidos, dois livros de Barack Obama se tornaram best sellers após seu mandato (e sua principal fonte de renda diz o site). O Código de Vinci, O caçador de pipas, A Vida de Pi, Persepolis, Marley e Eu (?!!), também tiveram seus lugares de grande destaque. No Brasil, sites indicam que a obra de Edir Macedo lidera as leituras em nosso país (ao menos, em número de livros vendidos/comprados). A Culpa é das Estrelas, Cinquenta tons de Cinza, Ansiedade, O pequeno Príncipe, Cinquenta tons mais escuros e depois os Cinquenta tons da Liberdade (?!!), e os Segredos da Mente Milionária (?!!), constam na listagem.

Deixemos o “Diga-me o que lês e direi quem tu és” para lá por um instante. Estava somente procurando os best sellers e acabei me surpreendendo um pouco com o que encontrei. Mas certamente as razões para que cada um destes (e muitos outros) tenha encontrado eco nos numerosos leitores, são diferentes. O de Bronnie Ware, suspeito compreender: conscientemente ou não, Bronnie tratou do assunto que nos toca a todos. Independentemente de nossa nacionalidade, língua, cultura, gênero, time de futebol, religião, nível econômico. O que todos temos em comum, sem exceção, são a Vida e a Morte.

Da vida tratamos (ou não) o tempo todo. Já a morte... É preciso alguma ‘distância’ (ao menos ilusória) para que se possa falar dela. É o grande mistério, o grande fato da vida. Criamos uma centena de teorias, explicações, contornos, para falarmos (ou não) dela.

Estas pessoas com quem Bronnie passou bastante parte de seu tempo ao longo de vários anos, também falavam de suas vidas (estavam próximas demais da morte). Essa é a experiência que eu também tive, ao estagiar no último ano de Psicologia no departamento de Oncologia (para tratamento do Câncer) do hospital Municipal Mário Gatti de Campinas. Por seis meses (infelizmente o estágio somente durou isto) eu atendi aos pacientes deste setor, em seus leitos. Na maior parte das vezes, passariam em breve por uma cirurgia determinante. Outras vezes, acabam de fazê-lo.

E por incrível que pareça, não queriam falar da morte que rondava por ali, o quinto andar do hospital municipal. Eles queriam era falar da vida. Dos parentes, dos netos que estudavam não sei onde, dos filhos que trabalhavam ou haviam visitado não sei qual país. Falavam da vida. Ansiavam – invariavelmente - pela continuação dela.

Curioso instinto este que nos liga a ela. Na hora “H”, queremos é viver. Seguir vivendo. Não importa se há dívidas, pendências, tristezas, incertezas, solidões. Não importa nem se há um diagnóstico para a morte. Quer-se viver. Os pacientes de Bronnie lá da Austrália e os aqui de Campinas, também. E se encontravam neste momento tão delicado, que é o da hospitalização. Momento vulnerável que coloca a pessoa cara a cara com estas questões, quer ela queira quer não. E aí ela teve esta ideia interessante de “dar voz” (e depois papel) aos sentimentos destas pessoas, nestes momentos em que se encontravam em fase terminal. Uma espécie de momento à flor da pele, ao máximo: à flor da pele da vida. E olha o que disseram:

1. Eu queria ter vivido a vida que desejava - não aquela que os outros esperavam de mim. 2. Eu queria não ter trabalhado tanto. 3. Eu queria ter tido coragem de expressar os meus sentimentos. 4. Eu queria ter estado mais perto dos meus amigos. 5. Eu queria ter me feito mais feliz.

Foi então que Bronnie se deu conta, de que se remetiam a ‘arrependimentos’ mas, quase invariavelmente, não do que haviam feito. Quase nunca! Mas do que não haviam feito! O presente que não deram; o filho que não tiveram; a viagem que não fizeram; o amor que não viveram. Na voz de alguns, a coragem que não tiveram. A vida que desejavam e não a que acreditavam que deles se esperava. (E ainda presumo que, provavelmente, equivocadamente. Pois costumamos ‘projetar no outro o que se espera de nós’, para livrarmo-nos dessa responsabilidade – a de assumirmos nossa própria vida).

Bronnie, hoje consultora, diz ensinar (em palestras e cursos) como viver uma vida livre de arrependimentos. Acho difícil, mas... Para algumas coisas, sempre há tempo.


Cláudia Antonelli

Cláudia Antonelli é Especialista em Saúde Mental; Mestre em Psicologia Clínica; Psicanalista em formação. Diplomada em Línguas estrangeiras. Gosta muito de ler e escrever .
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