Leonardo Patikowski

Um rapaz latino-americano que não sabe como veio parar no Obvious

Atores como leões, produtores como carneiros

O filme Leões e Cordeiros expõe um diferente balanço e crítica a famosa “guerra ao terror” de 2007. No entanto, a obra não passa de uma produção mediana, confusa e entediante.


O mundo passa por um processo de ascensão e transformação. Neste processo, especialmente, países em desenvolvimento consomem o sonho de se tornarem uma liderança global. Trabalham o desejo de ascenderem à condição de potência. Entretanto, carregar o fardo de enfrentar dilemas econômicos, diplomáticos e, principalmente, militares requer talento e engajamento político. Diante dos olhos de uma gestão controvérsia, em 2007, do ex-presidente estadunidense George W. Bush, o filme Leões e Cordeiros (EUA, 2007, distribuidora Fox film) expõe um diferente balanço e crítica a famosa “guerra ao terror”. Contudo, demonstra o quanto pontos de vista diferentes podem causar contrariedade, fazendo de um posicionamento político algo reacionário e entediante.

O filme, basicamente, tange a linguagem do patriotismo estadunidense. Das feridas ainda abertas em decorrência aos ataques do 11 de setembro. Da famosa caçada aos “inimigos da democracia estadunidense”. Enfim, do viés destorcido do quanto qualquer governo pode manipular opiniões sob o pretexto individualista da idealização de propósitos eleitoreiros. O diretor, e também ator no filme, Robert Redford, tenta transmitir uma mensagem liberal, contudo, peca na desnecessária narrativa, por vezes cansativa. Diante deste detalhe, o filme, que poderia ter uma linguagem moderna, se torna desinteressante, principalmente a quem pouco entende o universo político. A produção basicamente possuí diálogos complexos, forçando o telespectador a manter-se compenetrado na trama. A redobrada atenção tem um motivo: compreender, de fato, as três narrativas, em paralelo que acontecem. Na primeira vértice, observamos os diálogos que tangem o debate entre o Senador Irving (Tom Cruise) e a jornalista Janine Roth (Meryl Streep). Na oportunidade, é apresentado ao telespectador a relevância da mídia no círculo político estadunidense. Os diálogos vão além. No mesmo instante, em outra vértice, soldados estadunidenses se encontram prontos para atacar uma base terrorista em solo afegão. Contudo, algo dá errado e desse acontecimento desencadeia uma série de situações. O que chama atenção, nesta trama paralela, é o fato dos protagonistas serem dois negros e um hispânico (lê-se latino). Os produtores tentaram, claramente, demonstrar o quanto o trabalho pesado, e perigoso, em todas as esferas, é feito pelas cujas classes. A última vértice, e talvez a mais interessante, é protagonizada em um ambiente de ensino entre o professor Stephen Malley (Robert Redford, diretor do filme) e o estudante Todd (Andrew Garfield), persuadido pelo seu mestre a mudar o curso de sua vida. De alguma forma todas as tramas estão elencadas em um triangulo que possuí como única ideia fazer uma crítica a “guerra ao terror”.

A tentativa de equilíbrio entre os diferentes pontos de vistas, representados nas cenas, em tempo simultâneo, é incontestável. Enquanto, por exemplo, Meryl Streep e Tom Cruise conversam, no mesmo instante soldados estadunidenses arquitetam um ataque a uma base terrorista em solo afegão. A ideia é interessante, contudo, os enredos se perdem. Por vezes o telespectador sofre com a falta de linearidade, transformando a obra em um filme confuso e, por vezes, sem nexo. Fica clara a intenção do diretor em inovar, com uma produção que mistura a vivência de situações diferentes, em tempo real, sob o mesmo ponto de vista. A percepção de elenca-los pode parecer inteligente, contudo, má produzida. O filme, em alguns momentos, traz citações interessantes que culminam em reflexões ao tema abordado pela produção. É incontestável não reconhecer a credibilidade dos produtores quanto ao estudo realizado para abordar o tema na obra. Tom Cruise, em certos momentos, consegue roubar a cena com frases impactantes, típicas de políticos aristocratas. Assim como Robert Redford, com citações que justificam o nome da produção. Talvez, o cujo ator seja o personagem melhor trabalhado, fazendo-o dele uma espécie de “mentor” para os alunos da universidade.

Tom Cruise.jpgTom Cruise (imagem), em certos momentos, consegue roubar a cena com frases impactantes, típicas de políticos aristocratas.

Vejo Leões e Cordeiros como um filme que reproduz antigos debates políticos sob os olhares da imprensa e de esferas sociais. Ficou claro que o diretor buscou referencias em outras produções, entretanto, pecou na tentativa de unificar estas ideias em uma obra de apenas 80 minutos. Pouco para um filme que tenta abordar temas como política e guerra. Resgate do Soldado Ryan de Steven Spielberg, por exemplo, possuí cenas de ação, no campo de batalha, com um sentimento quão presente que nos faz o sentir que estamos em meio ao combate. Em Nixon, filme de Oliver Stone, Richard Nixon é apresentado sob um olhar doloroso que, de certa forma, não há como não se emocionar, e sentir pena, com o drama que o cujo ex-presidente sentiu na época da sua renuncia em virtude do caso Watergate. Leões e Cordeiros tinha a grande chance de fazer, em apenas um filme, frente a estas duas superproduções (guerra e política, respectivamente), elencando dois temas quão complexos, de maneira inteligente e convincente. Entretanto, pecou. Mesmo com falhas nas narrativas, Leões e Cordeiros consegue ser um filme mediano. Os diálogos poderiam ser melhor construídos e amarrados. A atuação de Robert Redford se destaca mais pela sua representação como ator quanto a de diretor. Basicamente o filme é uma crítica ferrenha aos Estados Unidos e ao sonho delirante, e individualista, de todo político (seja ele estadunidense ou não). Pode não ser uma grande obra, entretanto, o filme consegue ser dualista mostrando a faceta dos que sonham e dos que fazem. Em um certo momento, há uma citação que o personagem de Robert Redford diz: “Em nenhum outro lado pude ver tamanhos leões comandados por tamanhos carneiros”. Nunca uma frase foi quão plausível para um filme. Atores como leões, produtores como carneiros.


Leonardo Patikowski

Um rapaz latino-americano que não sabe como veio parar no Obvious.
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