Leonardo Patikowski

Publicitário que acredita que somente quem tem diploma acadêmico em comunicação pode trabalhar com tal.

Chatô, o mais contemporâneo Rei do nosso Brasil

Apesar de todas as traquinagens, do terror que destilava a seus inimigos, da descortesia à minorias e da disparatada forma como se aplicava na política e nos negócios, Assis Chateaubriand foi um visionário. Um homem a frente do seu tempo que transformou a comunicação em um fenômeno cultural no país. O biografo Fernando Morais traz na obra um Chatô com cara de Brasil, remontado na histórica malandragem que alteou a sociedade brasileira.


Chatô, o Rei do Brasil – Companhia das Letras, 1994 – é uma adocicada obra com sabor de “suco de Brasil”. E por qual motivo eu digo isto? Porque ela remonta, malandramente, um pedaço da nossa história como sociedade e país. Fernando Morais, biografo do livro, é impecável na sua pesquisa. Além de trazer à tona as traquinagens e verberações de um Chatô oblíquo, o autor desmistifica o sujeito por de trás do mito. Assis Chateaubriand foi um homem que surgiu do nada. Quando criança era gago e somente aprendeu a ler aos 14 anos de idade. Aos 16 descobriu que queria ser lido e começou a trabalhar com comunicação. Desde então, não deixou mais de fazer o que mais amava. Após formar-se em direito, pode montar um império chamado Associados.

chateaubriand

Chateaubriand era um contemporâneo do futuro. Soa estranho traduzi-lo desta forma, de maneira que a palavra nos remete a um estado de coexistência de modernidade. Mas ao jornalista, isto era sinônimo de progresso e poder. Um homem como fogo, sem escrúpulos, caráter e medo. Uma espécie de tropicalista que inovou para sempre a maneira como enxergaríamos a comunicação e o Brasil. Mandou e desmandou por meio século. Colocou em transe desafetos e aliados. Foi capaz de enviar cascavéis em caixas para inimigos. Ousado em interromper um beijo ao vivo de telenovela para destilar e destroçar potenciais ameaças ao seu império. Dr. Assis mesclou as quimeras ficcionais com a realidade como ela era. Seria ele um monstro ou um gênio? Fosse malévolo ou não, Chateaubriand foi um dos primeiros sujeitos que lançou para o Brasil um olhar progressista de que havia a necessidade de modifica-lo para o futuro. Trouxe para o país a publicidade como a conhecemos hoje. Fundou importantes jornais e rádios. Adquiriu empresas. Lançou mão para a mais intensa das aventuras “tupiniquezas”(sic): a televisão.

Por toda obra Moraes apresentou um Chatô manhoso, sagaz e manipulador. É importante trazer este olhar posto que não é muito diferente do observando na atual sociedade. Não faltam arguciosos, especialmente na política. A propósito, Assis também foi um homem do poder político. Equiparável às velhas raposas dos nossos tempos. Vendia apoio em troca de prestigio e dominação. Esteve ao lado e, também, contra figuras importantes da primeira metade do século XX do país, por dezenas de vezes. Onde o vento soprava, estava lá Chateaubriand.

O protagonista da biografia acreditava no poder da crítica. Julgava que ela poderia construir, da mesma forma que destruir. Pode com ela mandar e desmandar na comunicação, no legislativo, no judiciário e no executivo. Colocou a sua máquina jornalística a favor dos seus interesses particulares. Um verdadeiro “doido varrido” que colocou a comunicação do Brasil no radar do mundo. Emissoras de televisão, rádios, revistas, jornais, um misto de velocidade e informação como uma nova cultura de massa no país. Mas, ao mesmo tempo de status e prestígio a causa própria. Sempre destacou que não batia em gente mais fraca, porque o seu prazer era desfilar agressões aos “Golias”. Tanto que se via como um “Davi” de 1,60m. Foi capaz de criar bestadas honrarias vicejadas somente enquanto esteve em vida. O que dirá da tal Ordem do Jagunço?

O temor que Chatô despertava nos mais poderosos e a forma como mostrava seu poder era inquietante, de tal modo que se torna difícil acreditar nos fatos que Moraes escreveu para a biografia. Mas um biografo tem o dever de trazer os fatos como eles foram. Não necessariamente, exatamente, da forma como ocorreram. O escritor astutamente consegue romancear a história, trazendo fluidez e, até mesmo, um tom cômico. A sua pesquisa é impecável e a licença poética que coloca em nada estraga a experiência do leitor. Muito pelo contrário. O livro se torna ainda mais “delicioso” quando Fernando consegue realizar o casamento da ficção com fatos reais. Traz em 700 páginas um dos homens brasileiros mais poderosos do século XX.

Indiscutivelmente Chateaubriand foi um visionário, capaz de transformar a comunicação em um acontecimento cultural. Contudo, também, um deselegante e descortês homem – por muitas vezes machista e xenófobo. Mas desse baixinho amalucado tivemos ótimas heranças. O MASP e a ESPM são frutos da sua incansável busca pela modernização do país a nível cultural e comunicacional.

Mesmo no final da sua vida Assis Chateaubriand, comedido por uma tetraplegia decorrente a uma trombose, continuou a ser o terror da burguesia e dos poderosos. Isto mostrava a sua tenacidade e coragem de viver. Mesmo com seus membros paralisados e sem falar uma só palavra continuava a influenciar a imprensa e a política brasileira. Como tudo na vida se exauri, Chatô morreu e, logo após, seu império ruiu. É difícil mensurar o quão importante este homem do interior da Paraíba foi ao Brasil. Da sua busca implacável pelo poder. De saber exatamente onde queria chegar. Foi um incomum visionário, daqueles que caminham sobre as nossas terras somente uma vez a cada século. Irresponsável, disparatado, imoderado. Este foi o mais contemporâneo Rei do nosso Brasil.


Leonardo Patikowski

Publicitário que acredita que somente quem tem diploma acadêmico em comunicação pode trabalhar com tal. .
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