Nelson Teixeira Neto

Quem tem medo do pensamento crítico?

O pensamento crítico incomoda, tira as pessoas da sua zona de conforto. Isso porque a crítica desnuda tudo o que é mediocridade, não tem medo de separar o joio do trigo. Faz o papel do menino que, com seus olhos livres, denuncia a nudez do rei, enquanto as demais pessoas estão lá, anestesiadas, vendo vestes onde não as há e ainda se achando as inteligentes.


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Uma das principais falácias no campo das artes é atribuir ao crítico o papel do ressentido. O crítico literário que desmonta um romancista famoso, porém medíocre, é na verdade, dizem algumas pessoas, uma espécie de romancista fracassado, ou alguém que não conseguiu escrever um romance. Quando o crítico torce o nariz para a escritora de livros infanto-juvenis que vende milhões, algumas pessoas o atacam, dizendo que pelo menos a autora escreveu alguma coisa. Como se o trabalho crítico não fosse um trabalho intelectual, muitas vezes artístico, como se o crítico não estivesse escrevendo algo, produzindo um objeto de trabalho, como se o crítico fosse obrigado a cultivar o gênero matéria da sua análise.

Ora, um ensaio crítico, um artigo, um livro de crítica nada mais são do que textos, tão importantes quanto qualquer romance. Se pegarmos os grandes críticos literários, teremos trabalhos tão bons quanto qualquer arte, de modo que há quem diga ser a crítica literária um gênero da literatura. O mesmo vale para outros críticos, de outras artes, do cinema às artes plásticas.

O que percebo é que, tirante os artistas apegados a uma visão romântica e piegas da arte, a maior parte desses detratores do trabalho crítico está apenas reagindo à mediocridade que percebem em si mesmos. Quando não, estão apenas defendendo o seu mal gosto - muitas vezes um gosto cuja gênese é algum apego infantil, uma aquisição emotiva, de modo que a pessoa se sente particularmente atacada quando o crítico alanceia uma peça cultural de sua preferência.

Outro sintoma desse fenômeno de ataque à crítica é uma visão romântica de que a arte é tão somente fruto da emoção e que sendo ela genuína, acaba por ser intocada, além de ser superior ao trabalho crítico, este mais intelectual. Tais pessoas se esquecem ou não sabem de que a arte é também trabalho intelectual, consciente ou inconscientemente sedimentada pelo acúmulo de leituras e muito, muito trabalho. As grandes obras de arte são geradas pelo trabalho suado do artista, numa mistura complexa de consciência e inconsciência, emoção e intelecto. E como todo trabalho intelectual, estão fadadas à análise também intelectual de um leitor. Leitor que, possuindo um melhor conhecimento técnico, pode muito bem mostrar as falhas e as lacunas daquilo que está sendo exposto, sem que necessariamente seja um produtor daquela arte.

A crítica é um gênero e não é um gênero de fácil cultivo. Para produzi-la, é necessária uma formação gestada a fogo baixo, longamente cultivada pelo silêncio e pela solidão. O crítico, o mais frio dos críticos, ama profundamente a arte que está criticando, mesmo que seu amor seja feito pela cabeça e não pelo sangue quente da artéria aorta. Se o crítico ataca com sanha uma obra que se pretende arte, mas que não passa de lixo industrial, ele está nada mais nada menos do que defendendo com paixão aquilo que ama, e está sendo aos poucos substituído pela pseudo-arte, pelo gosto Kitsch, pelo mais fácil das facilidades, pelos objetos que nada mais são do que objeto de troca pelos magnatas culturais. O que a maior parte das pessoas não tem em mente é que a arte industrial mata a arte profunda e que o crítico é o seu último e quixotesco defensor.

Numa época em que a informação circula sem qualquer filtro ou hierarquia de importância, o trabalho do crítico se faz cada vez mais necessário. É a consciência crítica que, apartando-se do objeto, pode vê-lo em seus contornos mais nítidos e desapaixonados. Vendo o objeto de longe, o crítico o percebe com estranhamento, estranhamento que permite um olhar diferenciado do que a maioria das pessoas está acostumada a ter com seus olhos anestesiados. O crítico erudito, por exemplo, possui uma longa carga de leitura que permite ver determinado poema dentro de uma longa tradição, muitas vezes desconhecida pelo próprio artista; consegue ver em determinada pintura traços das pinturas mais antigas, de sociedades mais remotas. E o melhor crítico, o qual possui em sua formação um faro apurado pelos movimentos da economia e da história, consegue perceber se determinado fato artístico é ou não produção industrial sem substância, se é uma arte propagandística ou se de fato é uma arte-fratura, ou seja, se é uma arte cujas sendas nada mais são do que as sendas da História.

O trabalho artístico e o trabalho crítico são verso e anverso de uma mesma folha. De modo que só é possível atacar um trabalho crítico com outro trabalho crítico; do contrário, o que você está fazendo nada mais é do que desabafo, expressão dos que não têm o que falar. Aquele que detrata um texto crítico sente-se pequeno e não sabe lidar com a sua pequenez, pensa como rebanho e ao ver a crítica como algo menor, nem desconfia que um texto crítico é filho de uma gestação delicada e dedicada dos que colocaram à dura e muitas vezes ingrata tarefa de estudar a arte.


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