Nelson Teixeira Neto

Roma resiste!

"A grande beleza" é o filme que melhor traduz nossa época quando diante do passado: uma época de decrepitude. Ou em outras palavras e tomando o título do último livro de Milan Kundera (o qual, aliás, foi publicado no mesmo ano do lançamento do filme de Sorrentino): vivemos uma verdadeira festa da insignificância.


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“Roma resiste” é uma frase popular na Itália. E é ela que funciona como leitmotiv do filme "A grande beleza" de Paolo Sorrentino. No entanto, seu significado está um pouco alterado: ao invés de pautar a resistência de um tempo antigo, de glória, o filme nos passa a sensação de que a resistência de Roma está em seu período agônico. Há uma cena em que isso fica bem patente. Trata-se do momento em que se filma o Coliseu. Com um travelling, o deslocamento desemboca numa rua engarrafada e ruidosa- eis uma passagem dos tempos de glória para os tempos de decrepitude. A própria trilha sonora corresponde a esses momentos, aliada às sequências, como é o caso do inicio do filme, em que após o coral acima da Fontana de Trevi somos deslocados até a balada ruidosa e fútil.

Joga-se com imagens de oposição. Sorrentino está trabalhando com os conceitos do sublime e do grotesco. Eles permeiam o filme o tempo todo. E estão atrelados à seguinte mensagem: já quase não é mais possível uma vida de Beleza. E quando dizemos Beleza com B maiúsculo, estamos nos referindo a todo um contexto sócio-historico em que a beleza é valorizada, junto com os valores de comunidade, de profundidade, de busca interior – a verdadeira, não essa beleza vazia dos tempos atuais, representada no filme pela mulher bela que se mete a postar fotos no Facebook.

Notemos como a oposição sublime x grotesco fica claro quando percebemos no filme as constantes comparações entre as artes antigas e as artes contemporâneas: vivemos a decadência. Sorrentino quer nos mostrar que o passado é bem maior do que o nosso presente, e que nos esvaziamos, somos fúteis e estamos nos destruindo. Eis uma explicação para a atitude de Gambardella, que assiste a tudo com desprezo, ao mesmo tempo em que faz parte do jogo, num misto de estoicismo e ceticismo.

Nós sabemos que o homem contemporâneo é dividido entre o peso do passado, que nos parece superior, e a necessidade do presente. Estamos desprovidos de futuro, já que não existem mais as utopias. Cabe-nos conviver com as disparidades entre um presente caótico e destrutivo, que cresce cada vez mais e mais rapidamente, trazendo em seu bojo a dissolução das verdades e dos valores, a incerteza sobre quem somos e o que queremos; do outro lado, um passado de valores imutáveis, uma quantidade enorme de grandes pensadores e escritores, os quais são impossíveis de superar, uma arte harmônica e profunda que visava sempre atingir o absoluto, num misto de sensualidade corporal e profundidade espiritual. Vivemos entre esses dois polos, e o filme de Sorrentino é muito bom na medida em que os problematiza. E inclusive nos propõe uma solução:

É possível ainda atingir a Grande beleza, mas devemos procurá-la em meio à desordem, ao caos, aos escombros do grotesco. É uma busca. Gambardella consegue encontrá-la ao se deparar com a beleza de seu passado, com a rememoração, com a lembrança de seu primeiro amor. E consegue, ao que tudo indica, atingir o caminho para o seu tão ansiado romance. “Roma resiste”, e se queremos ter uma vida com significado, uma vida profunda e apegada aos valore sólidos, devemos buscar nesses escombros romanos, esses bolsões, como diria Ítalo Calvino, de não inferno. Uma imagem cara aos italianos, que remete ao poema de Montale, "Os limões", em que o mundo opressor e esvaziado da cidade deixa entrever num portão entreaberto uma dimensão outra, um contato com a natureza, com um tempo em que homem e mundo andavam irmanados. Mas é preciso buscar a Grande beleza, ela não se da tão facilmente, está escondida nos escombros da decadência: “Antes, no entanto, existe a vida, escondida debaixo do bla bla bla bla. Tudo sedimentado sob o palavrório e o barulho”. O que devemos fazer é buscar a beleza que como estilhaços está espalhada, fragmentada, não como outrora, em que ela existia em sua completude. Busquemos, pois, esses bolsões de não inferno.


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