Jocilane Rubert

Capixaba, publicitária, uma procrastinadora em reabilitação e uma apaixonada por poesia, seja literária, fotográfica ou cinematográfica. Ainda estou buscando minha razão de ser no mundo e quem sabe escrever ajude.

A incrível história de Adaline e a imprevisibilidade da vida

A vida é imprevisível, com essa premissa, a incrível história de Adaline questiona o desejo humano de controlar os fatos vindouros, inclusive por meio de fugas que acabam por adiar a própria felicidade.


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A vida é imprevisível. Apesar disso, construímos o futuro em nossa mente, ás vezes tão rico em detalhes que até parece um filme de Del Toro. Muitas vezes nos angustiamos com essa perspectiva, sofremos pelos problemas que poderão nos acometer como se eles já estivessem acontecendo. E por mais que saibamos que sofrer por antecipação é um enorme desperdício de tempo e energia, geralmente não sabemos como controlar ou impedir que isso ocorra.

O mais irônico é que, por mais que a gente sofra antecipadamente dificilmente tentamos de fato prevenir o pior. Pelo contrário, atravessamos a rua fora da faixa de pedestre porque nunca seremos atropelados; transamos sem camisinha porque nunca teremos DST’s (nem gravidez indesejada!); empanturramo-nos de lanches felizes porque nunca sofreremos um infarto; e por aí vai. Assim, somos sempre surpreendidos por algo que não imaginávamos que aconteceria. Com Adelane (Blake Lively, protagonista de Gossip Girl) não foi diferente, ela nunca considerou que em uma noite com nevasca fosse sofrer um acidente de carro quase fatal.

Adaline Bowman, nascida na década de 20, tinha uma vida como o esperado: era casada com o seu amor de infância e tinha uma pequena filha para criar. Mas desde o acidente deixou de envelhecer, permanecendo para sempre com a aparência de 29 anos. O que hoje parece ser o sonho de muitas pessoas tornou-se um fardo para a protagonista de A Incrível História de Adaline (The Age of Adaline, 2015).

A personagem de Lively teve uma vida longa, 107 anos, e curta ao mesmo tempo, Adaline viveu fugindo, mudando de nome e evitando criar vínculos com as pessoas, inclusive se privou da companhia de sua única filha. Afinal, qual cientista não gostaria de estudar (destrinchar) um caso real de eterna juventude? Como as pessoas reagiriam se soubessem de seu segredo? Qual seria o valor da sua vida para o mundo? As respostas dessas questões revelam mais sobre a sociedade do que sobre Adaline.

Contudo, mesmo sem ter o carma do elixir da vida, muitos de nós fugimos da própria felicidade por insegurança, comodismo e infinitas razões (leiam-se desculpas). Assim, a história de Adaline nos questiona enquanto sociedade, capaz de transformar um ser humano em um mero objeto de estudo, e como Adaline, que escolhe fugir ao invés de se arriscar. Esse enredo nos leva até o momento em que a personagem está prestes a fazer uma nova mudança de nome, emprego e endereço, mas conhece Ellis (Michiel Huisman).

Então se desenvolve uma fábula do amor verdadeiro, onde o diretor Lee Toland Krieger (escolhido para dirigir A Série Divergente: Ascendente, 2017) busca fugir do comum, acrescentando ao romance à ficção de passagem do tempo e o realismo fantástico. O último é utilizado para explicar o drama da personagem por meio da narração que, sem se ater a argumentos científicos, avisa: a causa do "fenômeno Adaline" só será descoberta em 2035.

Lively, com uma atuação elogiável, nos convence da avançada idade de sua personagem ao apresentar uma mulher muito segura e experiente, adaptada a uma vida solitária. Enquanto que Ellen Burstyn, na pele da já idosa filha de Adaline, nos faz crer na relação de cumplicidade e paridade entre mãe e filha, e Harrison Ford, apesar de coadjuvante, também acrescenta qualidade na sua interpretação de alguém relacionado ao passado da protagonista.

Assim, apesar da previsibilidade do roteiro de A Incrível História de Adaline (mesmo tratando do imprevisível), o romance entrega um resultado delicado, que traz à baila o desperdício de vida, energia e tempo com ansiedades e, principalmente, com fugas, muitas vezes daquilo que mais precisamos e amamos.


Jocilane Rubert

Capixaba, publicitária, uma procrastinadora em reabilitação e uma apaixonada por poesia, seja literária, fotográfica ou cinematográfica. Ainda estou buscando minha razão de ser no mundo e quem sabe escrever ajude..
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