Jocilane Rubert

Capixaba, publicitária, uma procrastinadora em reabilitação e uma apaixonada por poesia, seja literária, fotográfica ou cinematográfica. Ainda estou buscando minha razão de ser no mundo e quem sabe escrever ajude.

Muito além da moralidade

Permeado por debates relevantes, Irina Palm nos leva a pensar sobre um dos mais antigos tabus morais: o sexo.


irina_palm.jpgMaggie ou Marianne Faithfull, viúva que vive em um subúrbio londrino e que divide seu tempo entre jogar baralho com as amigas, lavar as roupas do seu único filho e, a contragosto da nora, visitar seu neto, Ollie (Corey Burke) no hospital. O menino sofre de uma grave doença e piora a cada instante, seu tratamento já custou todo o dinheiro e os poucos bens da família, sem que tenha conseguido resultado. A única esperança de cura existe apenas na Austrália, no entanto, a família não possui mais dinheiro para custeá-lo e Ollie tem pouco tempo de vida.

Em meio ao desespero, Maggie vagueia pelas ruas de Londres à procura de trabalho, mas não há vagas para uma pessoa idosa, sem experiência e formação profissional. De empresa em empresa ela só ouve recusas, então vai ao banco, pede um empréstimo, mas até a casa onde mora está penhorada e assim coleciona respostas negativas. Até que em seu caminho ela encontra uma placa: “Precisa-se de recepcionista” - mero eufemismo. Ao descer as escadas ela se vê em um clube noturno (vulgo puteiro) e o dono do estabelecimento (leia-se cafetão), Mikky (Miki Manojlovic) analisa as mãos de Maggie e lhe diz que ganhará muito dinheiro, se usá-las bem. Depois de uma noite pesada pela dúvida entre a vida do neto e algo considerado errado e repugnante, Maggie aceita o emprego, que consiste em masturbar homens por um buraco na parede (uma punheteira profissional).

Para os habituados com a velocidade dos frames holywodianos o filme pode parecer arrastado, mas o ritmo lento se justifica por ser a projeção da monótona vida da protagonista, que gradativamente vai se transformando. Além disso, em dado momento o espectador se vê como uma personagem da trama, alguém que já não está convicto sobre o que é certo e o que é errado. A direção do enredo faz o observador se encontrar ora no papel da amiga que acusa Maggie de imoral, ora na protagonista, vítima da revolta e do desprezo de seu filho devido à origem do dinheiro que pode salvar a vida de Ollie. Assim, são levantadas questões sobre a visão romântica e religiosa do sexo, sobre a instituição familiar e a liberdade (ou falta dela) das mulheres.

Apesar de utilizar de tabus sexuais, o roteiro e a direção de Sam Garbarski não formam um filme escrachado sexualmente, como muitos dos filmes nacionais, nem é um melodrama estadunidense no qual você se emociona (e esquece o nome do filme assim que deixa a sala). Esse longa metragem não faz uso de chavões cinematográficos para aumentar a bilheteria, ao contrário, ele é permeado por debates relevantes e coloca em cheque a discussão a respeito do que é a ética e do que é a moral. O expectador de Irina Palm é pressionado a se posicionar, mas para isso é preciso cogitar a possibilidade de que muitos dos conceitos aprendidos e creditados talvez não sejam tão bons quanto se imaginava. Afinal, entre o 8 e 80 existam muitos outros números.

Ficha técnica

Título original: Irina Palm

Gênero: drama

Duração: 103 min

Ano de lançamento: 2007

Origem: Alemanha/Bélgica/França/Luxemburgo/Reino Unido

Direção de cena: Sam Garbarski

Roteiro: Sam Garbarski, Martin Herron e Philippe Blasband

Produção: Sébastien Delloye, Diana Elbaum e Georges van Brueghel

Música: Ghinzu

Fotografia: Christophe Beaucarne

Direção de arte: Regine Constant, Véronique Sacrez e Karen Wakefield

Figurino: Anushia Nieradzik

Edição: Ludo Troch


Jocilane Rubert

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