letras perdidas

Para grandes, pequenos e médios leitores

Ricardo Ramos

Bucólico desde sempre, educador e ecologista. Fotógrafo que procura incansavelmente todos os finais de tarde, lágrimas e sorrisos que colocam o meu universo em movimento.

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Georges Dussaud, o fotógrafo que captou o último suspiro de Trás-os-Montes Arcaico

Georges Dussaud fez o registro dos últimos restos do Portugal de antigamente, registou o último suspiro de vários rituais que hoje são raros, mas que ainda perduravam nos anos 80.
Congelou, eternizou pessoas, e os seus modos de vida, indivíduos anónimos que sorriam apesar da dureza do quotidiano das suas vidas.


Georges Dussaud é um fotógrafo francês que se apaixonou pela região de Trás-os-Montes em Portugal. Quando mais ninguém queria saber desse bocado de terra, distante e agreste. Fica bem situado a norte do paìs e que poucos tinham curiosidade em conhecer. Atrevo-me a dizer que Dussaud sentiu as dobradiças da alma a ranger, da mesma forma que Miguel Torga o escritor, sentiu no seu tempo, que apelidou a região de “Reino Maravilhoso”.

Crianças do Barroso

O fotógrafo começou a fotografar Trás-os-Montes na década de 80, desde aí já fez mais de 80 viagens a Portugal. Numa viagem vulgar a Portugal, encontrou por acaso a região, em que ficou fascinado com o modo de vida de certa forma ainda muito arcaico, mas ao mesmo tempo reparou que havia uma alegria contagiosa à volta das pessoas. Nos meses seguintes ainda fascinado e curioso, decidiu fixar-se durante o inverno na região do Barroso. Na época não existiam hotéis, mas amavelmente uma senhora disponibilizou a sua modesta casa, fria e sem electricidade. Foi nessa casa que Dussaud ficou sempre hospedado até à morte da senhora.

Cambezes escola, 1983

Casas modestas, rústicas, sem aquecimento, numa região onde o frio se faz sentir, pessoas aparentemente pobres que viviam maioritariamente da agricultura e do gado mas que eram felizes. Era uma região cheia de personalidade, intocável ainda pela tecnologia e pelo progresso.

Interior de uma cozinha, Agrelos 1981

A luz essa, está muito bem aplicada nas fotografias, lembrando até as técnicas de pintura renascentistas do “sfumato”. As fotografias são todas a preto e branco, obrigando o espectador a embrulhar-se no mistério e a mergulhar na cena, numa espécie de linguagem muito próxima da poesia.

Carro de bois Sempre acompanhado da sua Leica, com lente fixa de 35mm, as pessoas deixaram que Dussaud as contagia-se ao mesmo tempo que elas lhe tocavam na alma.

As fotos do fotógrafo mostram interiores de casas e sorrisos alegres ou tímidos. Dussaud percebeu desde cedo que estas pessoas eram modestas e carregadas de simplicidade, algo único já talvez difícil de encontrar. Criança vestida de anjo, era usual nas festas e romarias das aldeias que as crianças se vestissem de anjos

Quem nasceu e cresceu numa aldeia nesta mesma região, vê estas fotografias com uma certa nostalgia, uma espécie de tecido cinzento e quente, forrado por dentro com a seda das cores mais variadas e vibrantes, é neste tecido que nos enrolamos quando sonhamos.

Ali está retratado um povo sem máscaras, distante do materialismo de hoje, com as suas mãos marcadas pelo trabalho, mas alegre, a transbordar com o mais infinito acolhimento. Despedindo-se com as lágrimas nos olhos, dando o abraço forte que se faz sentir o coração.

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Além disso, nota-se que o fotógrafo soube esperar, pelo sorriso mais contagiante e pelo olhar mais penetrador. Nota-se que não precisou de dizer às pessoas o que fazer, apenas se aproximou e deixou-se envolver. Como uma mulher que descasca batatas com as panelas ao lume, a luz que entra pela janela, dá um toque subtil à foto, rasgando todo o preto envolvente.

Actualmente Trás-os-Montes tem quase todas as escolas encerradas, aldeias-fantasmas, campos abandonados e uma população envelhecida. Nunca como agora as marcas da desertificação humana foram tão nítidas em Trás-os-Montes. A região continua a perder gente a um ritmo galopante.

Frades 1982

A cidade de Bragança, reconheceu o trabalho do fotógrafo e concedeu-lhe um centro de fotografia com o seu nome, o fotógrafo retribui, em nome de toda a hospitalidade que sempre caracterizou a região e cedeu o seu trabalho ao mesmo centro. Hoje vive em França onde é representado pela prestigiada agência Rapho e visita Portugal esporadicamente. Grande parte do trabalho pode ser visto no seu site pessoal: http://www.dussaud-g.fr/rubriques/portom-enfants.html


Ricardo Ramos

Bucólico desde sempre, educador e ecologista. Fotógrafo que procura incansavelmente todos os finais de tarde, lágrimas e sorrisos que colocam o meu universo em movimento. https://www.instagram.com/rmmramos/ https://www.facebook.com/rmmramosphotos/?fref=ts .
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