letras perdidas

Para grandes, pequenos e médios leitores

Ricardo Ramos

Bucólico desde sempre, educador e ecologista. Fotógrafo que procura incansavelmente todos os finais de tarde, lágrimas e sorrisos que colocam o meu universo em movimento.

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Eliot Porter - as cores cruas e puras da Natureza

Eliot Porter ficou conhecido por dar cores à natureza quando os registos fotográficos ainda eram monocromáticos. As suas paisagens silenciosas e elegantemente equilibradas abraçam-nos numa mansidão de cores belas que nos aconchegam a alma que parece andar de mão dada com a natureza.


Ser um fotógrafo de cores não era particularmente apreciado na altura pelos puristas. A comunidade artística não apreciava a cor, achando que só devia ser utilizada para publicidade. Mas a expressão estética da fotografia de Eliot Porter chama de facto a atenção, principalmente naquele tempo em que as pessoas não estavam habituadas a ver a natureza a cores em fotos.

Eliot Furness Porter nasceu em 1901 nos subúrbios de Chicago, é o segundo dos cinco filhos de uma família de classe média alta. O seu pai era arquiteto, e entusiasta pela história natural, influenciou aos seus filhos o amor pelas ciências. A sua mãe, uma formadora, foi quem ofereceu a Porter a sua primeira câmara em 1911, que imediatamente a utilizou para começar a fotografar pássaros. Mais tarde vai para Harvard, formando-se em Engenharia química em 1923, posteriormente em 1929 forma-se em Medicina.

20120418-004844.jpg

Durante todo este trajeto nunca deixou de lado a sua paixão pela fotografia. Nos seus tempos livres, e especialmente incentivado pelo seu irmão, pintor, dedicava-se a fotografar a paisagem do Norte de Nova Inglaterra. Em 1938, depois de conhecer os seus trabalhos, Alfred Steiglitz convida-o a expor na sua galeria em Nova Iorque, numa exposição que seria intitulada "An American Place". Esta exposição a solo consolidou Porter como um artista à altura de outros fotógrafos contemporâneos, como Paul Strand, Ansel Adams e o próprio Alfred Steiglitz.

"Moss, Waterfall, Cinders, perto do Monte. Hekla, Islândia" 1972

As imagens chegam a ser até uma ferramenta na educação ambiental. Pois no contacto com a fotografia, o sujeito é conduzido a novas linguagens, à beleza da natureza, de pormenores que nunca tínhamos reparado e que são tão belos e perfeitos. Como é que a casca de uma árvore pode ter uma textura tão bela, assemelhando-se a um quadro de arte moderna? Depois de ver o portefólio tenho a certeza que olharemos a natureza com outros olhos.

“Peeling Birch Bark" 1969

As fotografias fazem-nos viajar para o Outono num final de tarde. Numa mansidão de cores belas que nos aconchegam a alma que parece andar de mão dada com a natureza. Uma natureza serena, em que as cores se abraçam na plenitude da harmonia, seja da fraca luz do envergonhado sol, seja nas folhas que adormecem no chão húmido de uma floresta, mergulhar em vales profundos, onde bosques de cores alaranjadas, nos permitem observar um cenário ímpar digno de ficar para sempre tatuado na nossa memória.

Eliot Porter

Se fecharmos os olhos quase que se consegue sentir o cheiro da terra húmida e o pôr-do-sol contemplativo. As imagens chegam-nos puras e cruas, de pormenores que nunca tínhamos reparado que seriam tão belos. Em algumas fotografias existe uma espécie de atmosfera fúnebre e tenebrosa mas ao mesmo tempo sempre bela. Ao olhar para estas fotos, inevitavelmente, somos assolados por uma profunda solidão, fazendo lembrar as obras de pintores do Romantismo, pois nelas sente-se, quase sem querer, um profundo estado de solitude fazendo-me muito lembrar as obras do pintor Caspar David Friedrich.

Balsam Spruce Forest, North Carolina Side of Clingman's Dome Great Smoky Mountains National Park, North Carolina, May 11, 1968.jpg

Os lugares fotografados são de facto muito bonitos, que trazem uma paz de espírito, mas que, ao mesmo tempo, nos fazem mergulhar numa imensa floresta, quieta e silenciosa mas que comunica connosco. Por outro lado existem as fotografias que invocam a primavera, sempre com a natureza omnipresente exercendo o papel principal.

Colorful Trees, Newfound Gap Road, Great Smokey Mountains National Park, Tennessee, 1967

Enquanto outros fotógrafos de natureza têm que viajar imenso para captar uma imagem, Porter é um observador nato, com um sentido de estética apurado e sem falar oferece-nos aulas de como contemplar a natureza na sua inteira grandeza, conseguindo encontrar beleza no quintal de casa.

Para mim, Eliot Porter foi um fotógrafo ímpar, sem se importar com as críticas, pelo facto de fotografar a cores, continuou o seu trabalho sem tentar agradar às massas, apenas fotografava porque amava esta arte, tanto que mais tarde abdicou da carreira de medicina para se dedicar apenas a fotografar. Ainda hoje as fotografias, podem não agradar a todos os públicos, infelizmente. Somos constantemente bombardeados com fotografias manipuladas digitalmente todos os dias, com explosões de cores absurdas e cenários irreais que quase que nos esquecemos de como é a natureza na realidade. Eliot Porter conseguiu isso mesmo, captou toda a essência da natureza, até nos pormenores mais escondidos.

Millipede, Laurel Falls Trail, Great Smoky Mountains National Park, Tennessee, May 10, 1968.jpg

Eliot Porter morreu em 1990, transformou a arte da fotografia de natureza através do seu sentido de observação apurado, brio e habilidade técnica extraordinária, ao mesmo tempo que passava uma mensagem de conservação ambiental.


Ricardo Ramos

Bucólico desde sempre, educador e ecologista. Fotógrafo que procura incansavelmente todos os finais de tarde, lágrimas e sorrisos que colocam o meu universo em movimento. https://www.instagram.com/rmmramos/ https://www.facebook.com/rmmramosphotos/?fref=ts .
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