letrismos

Era só pra deixar a música tocando mas quando me dei conta já estava escrevendo

Ana Clara Alves Ribeiro

Advogada, tocantinense, apaixonada por música, arte, cultura, entretenimento, humanidades e tudo que envolve criatividade, cores, palavras, ângulos, sonhos, possibilidades, conexões...

As falácias constituindo empecilhos à eficácia do ativismo digital

“Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”... Pleonasmo? Pode até ser, mas é justamente por descartar a lógica contida nessa sentença que muitas discussões têm se enfraquecido – nesse exato momento, por exemplo, alguém pode estar lendo essa frase e achando que “discussão” é sinônimo de “briga” ou “embate”. Nem sempre algo significa somente aquilo que a percepção individual consegue enxergar – e quando ignoramos isso, na sede e pressa para twittar ou retwittar a respeito de um ponto de vista publicado por alguém, corremos o risco de prestar um desserviço à causa discutida.


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A proliferação das redes sociais e do uso da Internet – o que se deve, entre outras causas, ao aumento do consumo de smartphones e das redes wi fi – tem tornado a informação mais acessível, bem como tem facilitado aos cidadãos mobilizarem-se quanto aos mais diversos gêneros de causas sociais. Não se pode mais ignorar a realidade do cyberativismo (ou ativismo like ou ativismo digital), movimento no qual os indivíduos fazem uso da Internet enquanto espaço público para terem suas vozes ouvidas, defenderem as suas convicções e mobilizarem-se em torno das causas que apoiam.

Essa facilidade, somada à criatividade e loquacidade típicas do povo brasileiro, torna fácil entender porque essa espécie de ativismo cresce tanto no Brasil. Daniel Carvalho, diretor de desenvolvimento de negócios do Twitter, já chegou a conceituar essa rede social como “o maior sofá do mundo”, referindo-se ao hábito dos usuários de twittarem sobre tudo que estão assistindo na TV e sobre quaisquer assuntos, interagindo com os outros e formando então uma grande rede de conversa. O Brasil está entre os países que mais se fazem presentes no Twitter.

Mas, se por um lado, essa geração marca pontos por exercer a sua cidadania (ainda que às vezes esse exercício se restrinja aos tweets, hashtags, textos de Facebook e pare por aí – comportamento que inclusive gerou os termos “ativismo de sofá” e “slacktivism”), por outro lado a eficácia do ativismo digital vê-se seriamente comprometida cada vez que as falácias permeiam as discussões nas redes sociais.

Como é bom lembrar, uma falácia é um argumento logicamente incoerente. Nem sempre é um argumento falso ou produzido especificamente para enganar; mas é sempre um argumento que trata de maneira errônea a realidade que está sendo debatida.

Nas redes sociais, por exemplo, não é raro o uso das falácias nos debates (sejam eles de ordem política, cultural ou de qualquer causa que mobilize um grande contingente de pessoas). Isso não se dá somente por deficiências de interpretação e argumentação, mas também pela avidez em alimentar a discussão.

Essa avidez certamente é inerente à própria instantaneidade que a Internet proporciona: as atualizações do Instagram, Facebook, Twitter se dão em questão de segundos. Produzir e reproduzir conteúdo é muito fácil e muito rápido, o que pode fazer com que o interesse daqueles que desejam realmente aprofundar-se nos assuntos fique prejudicado pelos que preferem aproveitar-se da ocasião para apenas produzir cultura (ou contracultura, mais especificamente) através do ataque (por meio dos “shades”) ou do humor (gerando os “memes”) – não que essa produção não tenha seu valor enquanto cultura e entretenimento, mas muitas vezes ela faz com que o tema do debate fique em segundo plano.

Deixar de dar a devida atenção à escolha de palavras e ao ponto central do argumento (tanto para quem fala/escreve quanto para quem escuta/lê) é um erro que pode minar mesmo as conversas melhor intencionadas. Isso acontece, por exemplo, quando alguém:

faz uma afirmação geral sobre uma realidade com base em parte dessa realidade: é a chamada “falácia da divisão”, na qual toma-se a parte pelo todo. Acontece, por exemplo, quando alguém confunde gênero com espécie ou vice-versa (sendo que espécies são subgrupos de gêneros; p. ex.: professor e médico são espécies do gênero profissão; assim como, se se considerar médico como um gênero por si só, ginecologista e cardiologista são espécies do gênero médico); quando alguém usa o caso de uma unidade determinada para fazer afirmações sobre todo o grupo do qual ela faz parte (p. ex.: usar o exemplo de um Estado do Brasil para fazer afirmações sobre toda a região ou todo o país); entre outras situações;

faz suposições sobre as convicções/características pessoais do interlocutor e tenta usá-las contra ele: uma das formas de se usar a falácia ad hominem e a falácia do espantalho, desvirtuando-se negativamente (geralmente por meio de suposições) o argumento a fim de torna-lo mais fácil de ser rebatido, ou fugindo do assunto através do ataque à pessoa e não ao argumento. Um exemplo é quando se critica a forma como um indivíduo expõe seu ponto de vista por achar que ele está “com recalque” ou “está dizendo isso porque vem de um ambiente X e nunca passou pela experiência Y”, sem expor nenhum contra-argumento que realmente demonstre o contrário do que foi defendido;

acredita que qualquer ponto de vista diferente do seu é o oposto absoluto: essa é a falácia do falso dilema, na qual a pessoa acredita que existe um número limitado de possibilidades (frequentemente acredita-se que existem só duas) e qualquer um que não concorde com a sua está necessariamente do outro lado. P. ex.: o escritor José lançou o livro A; Fulano não gostou, Ciclano adorou. Beltrano logo inferiu que Ciclano é fã de José e Fulano é opositor de José. Beltrano errou ao tirar essa conclusão, pois se esqueceu de que Ciclano pode não ter gostado de algum outro livro de José, ou que Fulano não gostou desse mas pode ter gostado de outro.

Vejamos: é claro que, no caso acima, pode ser que Ciclano realmente seja fã de José. Porém, a informação de que ele gostou do livro A, isolada, desacompanhada de informações a respeito dos gostos e paixões de Ciclano, não é suficiente para afirmar que ele é fã de José. No exemplo anterior a esse, pode ser que A critique a opinião de B por estar com inveja de B. Mas pode ser que não. E mesmo que esteja, pode ser que a crítica contenha informações verdadeiras e válidas. E mesmo que não esteja, pode ser que a crítica contenha informações falsas. De qualquer forma, as informações contidas na crítica merecem ter o seu conteúdo analisado.

PIRAMIDE DA DISCORDANCIA DE PAUL GRAHAM.png O programador inglês Paul Grahamm, em seu artigo “Como discordar”, propôs uma “hierarquia da discordância”, desde o mais eficiente até o menos. (Imagem retirada do site Uptade or die)

O raciocínio por trás do suposto pleonasmo "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa" é mais importante do que parece - em várias discussões a que as redes sociais dão palco, é comum ouvir (ou ler, no caso!) que ser defensor de comportamento A é a mesma coisa que ser simpatizante do partido político B, discordar do comportamento C é a mesma coisa que ser simpatizante do indivíduo D, entre tantas situações que vemos.

São raciocínios generalizadores e preguiçosos, que trabalham com suposições ou com a incapacidade de enxergar todas as nuances de uma questão. No ápice das exaltações, para alguns é difícil entender que "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa" - apesar de que mais sensato seria dizer que "uma coisa pode ou não pode ser também outra coisa". Pode ser que sim. Pode ser que não. Convém-nos tentar considerar todas as possibilidades que existem além daquelas que as nossas paixões particulares conseguem enxergar.

tira cômica.jpg (Tira cômica retirada do blog do jornalista Leonardo Sakamoto)

As falácias atrapalham a eficácia do ativismo digital na medida em que o argumentante perde o verdadeiro sentido do ponto de vista proposto pela outra parte. Ao formular um argumento para rebater uma opinião usando de fragmentos dela ou de suposições feitas sobre a personalidade e contexto do interlocutor, o formulador desperdiça a chance de debater o assunto com a seriedade devida.

refutando argumentos com fracasso.png

O uso da falácia por parte do contestante pode aniquilar por completo o debate; mas obviamente também é necessário bom senso por parte do primeiro argumentante, para que ele próprio não seja o causador do desvio do assunto.

Perguntar à sociedade se uma mulher de minissaia está mais suscetível a um estupro é bastante diferente de perguntar se uma mulher de minissaia merece ser estuprada, pois a segunda pergunta contém um juízo de valor que parte do pressuposto de que é possível haver situações em que alguém mereça ser estuprado, enquanto a primeira não emite nenhum juízo e parte apenas do pressuposto de que no mundo real os estupros acontecem.

Desse simples caso já se depreende o quanto a má escolha de palavras pode desvirtuar o rumo de uma discussão.

Como nada se perde, até mesmo esses desvios comumente acabam rendendo (sub)discussões produtivas (o caso do estupro, acima citado, foi válido para fazer a sociedade brasileira refletir sobre a questão da violência contra a mulher); porém, o prejuízo pode ser muito maior, uma vez que as falhas de interpretação e de argumentação fomentam a desunião – desunião que é justamente a causa de grande parte dos males que o ativismo visa combater!

No âmbito da Internet, com as paixões dos usuários à flor da pele, discussões que começam como simples discussões (no sentido original da palavra: conversa sobre um assunto, análise de pontos de vista) se transformam em embates e perde-se tempo destilando ódio e alimentando preconceitos, quando se poderia estar usando dessa mesma energia para proliferar os conceitos que efetivamente constituem a razão de ser das causas sociais trazidas à tona: o respeito, a igualdade, a solidariedade, a empatia para com as diferenças, a representatividade e o empoderamento das minorias e dos grupos historicamente oprimidos.

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O cyberativismo tem a sua importância especialmente por proporcionar a divulgação das causas, atingindo um número maior de pessoas e de maneira mais cômoda a elas. Sentado em frente a um computador ou deitado com um celular na mão, qualquer um com conexão à Internet tem a possibilidade de explorar diferentes horizontes e ter contato com informações e opiniões diversas. Engana-se quem pensa que o único aspecto relevante dessa comodidade é a sua relação com a passividade. Em matéria de divulgação e conscientização, o ativismo digital pode ser tão ou mais útil que as formas mais tradicionais de protesto e participação política.

Porém, o nível de sucesso dessa forma de ativismo dependerá também do nível de seriedade dos seus participantes e do quanto eles estão dispostos a abrir mão de suas vaidades, preconceitos e - por que não dizer? - preguiças para poderem analisar com mais sensatez tudo que chega até eles.

Entre distorções lógicas e ataques/defesas pessoais todos usados para fugir do assunto, causa-se discórdia de cada grupo para com os demais grupos e até dentro dos próprios grupos (ex.: ambientalista A brigando com ambientalista B sobre a maneira de defender a causa; feminista A brigando com feminista B para tentar impor a sua visão sobre o melhor tipo de feminismo), gerando mais segregação e enfraquecendo os movimentos.

Se a eficácia do ativismo digital já é ameaçada pelo risco de ele se tornar mero “ativismo de sofá”, mais ameaçado ainda ele fica quando seus próprios componentes não conseguem se entender – ou o que é pior: quando fazem questão de não se entenderem, engajando-se mais na disputa pela melhor réplica ou na criação do melhor “meme” que na própria causa que os levou a estarem juntos.

let's not fight.jpg Não vamos brigar!


Ana Clara Alves Ribeiro

Advogada, tocantinense, apaixonada por música, arte, cultura, entretenimento, humanidades e tudo que envolve criatividade, cores, palavras, ângulos, sonhos, possibilidades, conexões....
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