letrismos

Era só pra deixar a música tocando mas quando me dei conta já estava escrevendo

Ana Clara Alves Ribeiro

Advogada, tocantinense, pisciana com ascendente em Gêmeos, apaixonada por música, arte, cultura, entretenimento, humanidades e tudo que envolve criatividade, cores, palavras, ângulos, sonhos, possibilidades, conexões...

É melhor ser aceito ou ser compreendido?

Entre as carências do indivíduo estão a aceitação e a compreensão, tanto perante o Estado quanto no campo dos sentimentos. Politicamente, ser aceito e compreendido significa ser incluído e ser enxergado como ser digno de direitos, de acordo com as particularidades que o fazem mais ou menos diferente dos demais. Já nas relações de amor de todas as espécies, ser aceito e compreendido envolve um nível de empatia muito maior.
Não sendo possível ter as duas coisas, qual delas seria preferível: a aceitação ou a compreensão?


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Psicólogos e filósofos concordam que ser e sentir-se amado é uma das maiores necessidades que o ser humano possui. Trata-se de uma necessidade cujo suprimento geralmente fica a cargo de outrem (já que comumente, ao falar dessa necessidade, boa parte das pessoas não considera o autoamor) e como tal, envolve aceitação e compreensão alheia.

Aceitar e compreender são dois processos diferentes. É possível que alguém se sinta aceito sem que tenha sido compreendido, ou que se sinta compreendido sem no entanto ser aceito.

Vislumbrada a inconciliabilidade da aceitação com a compreensão, pensamos: qual das duas é preferível? Na incapacidade de alguém nos aceitar por completo ou nos entender perfeitamente, qual das duas virtudes nos pareceria mais importante?

Abraham Maslow, na sua famosa pirâmide hierárquica das necessidades humanas, situa as necessidades sociais (socialização, sentir-se aceito em grupos, fazer amizades, entre outras) como pressupostos para as necessidades de estima (obter reconhecimento, obter respeito, obter confiança). Sentir-se como parte de algo (seja de uma relação, de um grupo ou de uma comunidade) seria então uma necessidade primacial em relação à necessidade de sentir-se realmente respeitado, reconhecido e compreendido.

Pirâmide de Maslow.png A pirâmide hierárquica das necessidades humanas, elaborada pelo psicólogo Abraham Maslow

Em tempos de discussão, positivação e concretização de direitos humanos, em tempos de liberdade de expressão, em tempos nos quais fala-se em empoderamento das minorias e dos grupos historicamente oprimidos, em tempos em que o bullying passou a ser seriamente considerado na formação da personalidade infanto-juvenil, em tempos de censura ao body shaming, entre tantos outros eventos e causas, muito se fala em inclusão. A inclusão muito tem de aceitação, pois incluir alguém é enxergá-lo, é reconhecê-lo como merecedor de espaço e de direitos.

No campo do amor e das relações, a inclusão não necessariamente requer compreensão. É possível garantir a inclusão de um indivíduo sem que tenha havido prévio entendimento das razões que os levam a ter as características que o excluíram em primeiro lugar – é até mesmo possível fazer um indivíduo sentir-se aceito sem sequer entrar no mérito das particularidades de sua personalidade e/ou contexto de que vem. Ser essa a melhor postura é outra questão; porém, o fato é que é possível enxergar um ser humano como um irmão, um colega, mesmo sem entender as suas razões e motivações.

Lavaram os pés.jpg Em junho de 2015, após ter sido alvo de críticas e acusações de “blasfêmia” por ter aparecido crucificada e seminua (em alusão a Jesus Cristo) em um movimento em favor da causa LGBT, a atriz transexual Viviane Beleboni protagonizou um episódio no qual teve seus pés lavados por um padre e um pastor evangélico. Sem entrar no mérito da maneira como suas religiões enxergam a questão homoafetiva e transgênero, os dois líderes religiosos quiseram demonstrar humildade, solidariedade pelas ofensas e ameaças que a atriz sofreu, e sentimento de irmandade para com ela.

Politicamente, a inclusão sem compreensão é algo mais complicado. A mera garantia de inclusão, maciça, feita sem um prévio processo de compreensão do contexto histórico, filosófico, antropológico e/ou biológico do indivíduo/grupo, pode fazer com que o objetivo inclusivo falhe.

Para que um indivíduo se sinta parte de um grupo é necessário que ele se sinta em igual patamar de dignidade e consideração, mas oferecer essa igualdade no plano fático requer primeiramente um entendimento das necessidades de cada um.

O princípio da igualdade, que já vem sendo talhado desde a Grécia antiga, consta na Constituição brasileira como um direito e garantia fundamental, enunciando o caput do art. 5 que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (...)”. Tal enunciado contempla a igualdade formal, que é um dos desdobramentos do princípio da igualdade – o outro é a igualdade material, ou seja: é atuação do Estado no sentido de garantir um tratamento efetivamente igual aos indivíduos. Garantir isso requer primeiramente entender que os indivíduos não são iguais. Assim, como Rui Barbosa explana em sua “Oração aos moços”: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade... Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real.

Igualdade formal e material.jpg

Perante o Estado, portanto, ser aceito não é suficiente; é preciso ser compreendido. Como sujeito de direitos, o indivíduo precisa ter suas particularidades, sua história, suas necessidades e seu contexto enxergados e compreendidos pelos legisladores e formuladores de políticas públicas, sob pena de não se efetuar a igualdade material.

Conceder oportunidades exatamente iguais a indivíduos que vêm de contextos diferentes não é igualá-los, pois obviamente a parte mais privilegiada não partirá do mesmo ponto que a parte menos privilegiada.

No campo jurídico-político, concretizar a igualdade requer muito mais que empatia: requer conhecimento, estudo, análise, para que se possa compreender as peculiaridades da situação em que cada titular de direitos se encontra, e a partir disso conceder-lhe as oportunidades mais adequadas para incluí-lo e fazê-lo sentir que é tão digno quanto os seus semelhantes.

Em determinadas ocasiões, a compreensão jurídico-política envolve também dar uma dose de autonomia ao indivíduo/grupo para fornecer as ferramentas mais adequadas à inclusão. Isso ocorre, por exemplo, no campo do Direito do Trabalho, que tem como algumas de suas fontes (junto à legislação, obviamente) o acordo coletivo de trabalho e a convenção coletiva de trabalho, espécies de instrumentos normativos elaborados pelos próprios trabalhadores.

Outro exemplo muito destacado contemporaneamente se vê também em movimentos militantes que têm requerido do Estado autonomia para pautar a sua própria agenda de reinvindicações; afinal, se a intenção é atender às necessidades de alguém/algo, antes faz-se preciso entender quais são essas necessidades, e ninguém melhor para responder isso que o próprio indivíduo/grupo.

Mas e nas relações pessoais? É possível ser aceito sem ser compreendido?

figura do texto sobre aceitação e compreensão.png Entender não é tão simples quanto aceitar.

Na eventual impossibilidade fática de o autoamor ou o amor universal serem bastantes ao indivíduo, o amor ideal de que se desejaria ser destinatário seria aquele no qual o indivíduo se sente aceito e compreendido.

Contudo, ainda, na impossibilidade fática de não encontrar alguém que ame de forma a aceitar e compreender, ouso dizer que, caso fosse possível escolher entre um e outro, sentir-se aceito seria mais importante que sentir-se compreendido.

Sentir-se aceito por alguém é sentir que esse alguém se sente à vontade ao seu lado e que abraça a sua existência, reconhecendo-te como ser humano digno de fazer parte daquele espaço tanto quanto ele próprio. O ato de aceitar tem muito a ver com lealdade, pois ser leal é sentir-se compromissado a apoiar alguém pelo ser humano que ele é independente da concordância de ideias; é enxergar alguém pela totalidade do seu ser, ainda que um ou outro detalhe lhe pareçam desagradáveis.

A compreensão envolve um nível de empatia maior do que a aceitação e talvez por essa razão seja mais difícil ser compreendido do que ser aceito. Compreender requer buscar saber o porquê, requer exame, análise, reflexão. Para compreender é preciso mergulhar no universo do outro.

É nesse ponto que reside a dificuldade de encontrar pessoas que realmente compreendam (enquanto, por outro lado, é um pouco mais fácil encontrar pessoas que aceitem) e que compreendam e aceitem ao mesmo tempo. É ele que justifica a possibilidade de existirem pessoas que aceitem sem compreender ou compreendam sem aceitar.

Justamente por envolver uma dose um pouco maior de racionalidade que a aceitação, a tentativa da compreensão é mais passível de colocar o indivíduo em armadilhas.

Um exemplo: ao tentar compreender o outro, um indivíduo pode perder-se durante o processo de reconstituição das razões do outro, e esbarrar em alguma razão que o leve a conclusões diferentes. Assim, o indivíduo crê que compreende alguém porém não consegue ser amigável a ele, ou seja: ele julga ter entendido o porquê de alguém pensar como pensa, mas discorda desse porquê e apega-se mais à discordância que à beleza de ter entrado em contato com a natureza do outro, afastando-se dele em vez de aproximar-se – e assim, “compreende” sem aceitar.

A falsa compreensão é mais prejudicial que a simples aceitação. Martin Luther King Jr. em sua Carta da Prisão de Birmingham disse que “a compreensão superficial de pessoas de boa vontade é mais frustrante do que a incompreensão completa de pessoas de má vontade”. É o caso da pessoa que está disposta a buscar o entendimento, porém se perde no meio da busca, o que pode fazer com que a incompreensão inicial seja até maior, ou pode fazer com que a incompleta compreensão cause desunião em vez de união. Ou seja: a boa vontade de querer entender o outro nem sempre é suficiente para afinizar-se com ele.

excluded.jpg Stephen Hawking certa vez que disse que “o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão da verdade”. Supor entender, portanto, é muito mais prejudicial que não entender.

A busca da compreensão, se não estiver aliada a um profundo senso de compaixão e humanidade, pode muito mais separar do que unir. A iniciativa de tentar compreender algo/alguém pressupõe altruísmo (porque para ter essa iniciativa é preciso antes de tudo desprender-se da própria vaidade), e se esse altruísmo não se mantiver vivo durante todo o processo, abrirá espaço para a emersão do ego. Quando o indivíduo está mais preocupado em estar certo do que em estar ao lado do seu próximo, é sinal de que falhou na sua proposta de compreender.

Ser compreendido está a um passo adiante de ser aceito, pois enquanto a aceitação envolve reconhecimento da sua condição humana, a compreensão consiste não só nesse reconhecimento de alguém como humano mas também no reconhecimento de todas as razões que o tornam tão humano quanto você.

um pintinho e um cabrito.jpg "O amor é uma decisão, é um juízo, é uma promessa. Se o amor fosse meramente um sentimento, não haveria sentido em prometer amar um ao outro para sempre. Um sentimento vem e ele pode ir. Como posso julgar que ele vai permanecer para sempre, se minha atitude não envolver juízo e decisão?" (Erich Fromm, em "A arte de amar")

Uma vez que a compreensão envolve mais racionalidade e elaboração do que a aceitação, isso significaria dizer que a aceitação é mais inclusiva justamente por ser mais “ignorante”? Sendo assim, por que então me referi à aceitação como mais importante que a compreensão no caso de não ser possível ter ambas? E por que politicamente é necessário exigir ambos (aceitação e compreensão), enquanto no âmbito dos relacionamentos é mais sensato esperar menos?

Na esfera política, como já foi dito, aceitação sem compreensão é insuficiente e ineficiente. Incluir sem entender não é incluir – é forçar; é impor um padrão que não atende de fato às necessidades do excluído. Novamente parafraseando Rui Barbosa: igualar os desiguais requer primeiramente entender em que nível eles se desigualam.

Uma vez compreendido e incluso no grupo, o indivíduo terá enfim maiores condições de nutrir autoestima e realizar-se como ser humano. Um indivíduo socialmente aceito tem maiores chances de realizar-se e sentir-se também aceito – e, quem sabe, até mesmo compreendido! – no campo das relações interpessoais.

Quando se exige que o indivíduo seja politicamente aceito e entendido, não está-se falando de necessidades afetivas e carências emocionais – trazer felicidade não é dever do Estado. Seu dever é, isso sim, propiciar as condições (por meio da garantia e concretização dos direitos individuais e dos direitos sociais) para que cada indivíduo busque ser feliz da maneira que achar melhor. A busca da felicidade é um direito do indivíduo, mas a garantia da felicidade não é dever do Estado.

Lutar pela inclusão e pelos direitos dos indivíduos e grupos, do ponto de vista jurídico e político, não é esperar do Estado que os faça felizes – o Estado não deve amor e carinho a seus cidadãos; o que ele deve é dignidade.

Como bem disse certa vez a Ministra do Superior Tribunal de Justiça Nancy Andrighi em entrevista ao site Valor Econômico: a participação do Estado na construção da felicidade individual é indireta, pois o Estado apenas propicia as ferramentas básicas para essa construção.

Já no campo das necessidades afetivas, conforme vimos, compreender torna-se um ato extremamente mais complexo e exigente, não só pela imperfectibilidade dos seres envolvidos, mas também porque demanda uma imersão maior na individualidade do outro.

A busca pela aceitação e compreensão interpessoais é mais complicada porque não tratará do preenchimento das necessidades mínimas do indivíduo (essas já foram supostamente preenchidas pelo Estado: saúde, vida digna, educação, entre outras), mas sim, das mais grandiosas necessidades, desejos e aspirações: sentir-se valorizado, amado, admirado, digno de atenção e de amor, sentir-se efetivamente aceito e compreendido por outro ser humano. Deposita-se em outro ser humano (tão falível e necessitado quanto você próprio) a expectativa de que todas essas necessidades e desejos sejam preenchidos e realizados. É uma exigência demasiado pesada a ser feita para outro indivíduo que está nesse mundo na mesma condição de humanidade que você.

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Enquanto perante o Estado um indivíduo é relativamente impotente, perante outro indivíduo incluso na mesma sociedade de que se faz parte ele é moralmente semelhante; interage-se de igual para igual. Assim, esperar compreensão de alguém nessa condição é, no mínimo, injusto. É uma responsabilidade muito grande para se depositar sob os ombros de um semelhante.

Ser aceito sem ser compreendido pode ser decepcionante, mas ser compreendido sem ser aceito é mais doloroso. Ao sentir-se compreendido mas não aceito, a sensação é de rejeição. Afinal, a partir do momento em que se sabe que o outro te compreendeu, isso significa que ele já “mergulhou” no seu universo... Mas, se ao fim desse “mergulho” não houve aceitação, isso significa que o indivíduo não gostou do que encontrou.

Desejar a aceitação é uma postura um pouco mais caridosa. E mesmo a aceitação, embora não seja tão completa quanto a compreensão, também não é tão fácil de se encontrar em um relacionamento amoroso (seja ele de qualquer espécie). Pode-se considerar, indubitavelmente, que ser e sentir-se aceito são por si só grandes dádivas, independente de quão longe esteja a possibilidade de ser e sentir-se também compreendido.

Isso seria dizer que a compreensão é uma etapa necessariamente posterior à aceitação?

A aceitação guarda em si a compreensão em estado potencial. A aceitação é uma esperança de compreensão. Quem te aceita está mais propenso a te entender um dia, pois ao aceitar estar ao seu lado terá chances mais frequentes de abrir-se para o seu universo até um dia conseguir compreendê-lo. Porém, não é impossível que o caminho inverso seja realizado: ser compreendido para depois ser aceito.

Mas sentir-se aceito antes de sentir-se compreendido é sentir-se mais amado do que no procedimento contrário, pois a aceitação é incondicional. Quem compreende sem aceitar pode discordar, mudar de ideia e consequentemente mudar de lado... Mas quem aceita é leal pois não depende da concordância de ideias para permanecer ao lado.

Quando um indivíduo é excluído, seja qual for o motivo da exclusão, é-lhe negado totalmente o amor. Quem rejeita, rejeita por inteiro. No racismo, por exemplo, o único elemento que diferencia o excluído do excluidor é a cor da pele – em todos os demais aspectos, o excluidor e o excluído são iguais: são seres vivos, têm um corpo, um cérebro. Um único elemento priva o indivíduo de toda uma convivência digna com tratamento decente. Na aceitação não há meio termo: quem aceita, abraça todas as características.

Assim, no campo dos sentimentos, a aceitação é preferível à compreensão, pois cumpre melhor o objetivo de fazer o indivíduo sentir-se amado. Contudo, não é suficiente no campo jurídico-político, no qual o ser humano é credor de dignidade.

Saibamos a diferença para que possamos cobrar de César aquilo que é justo e não esperar das pessoas mais do que o que elas podem dar.


Ana Clara Alves Ribeiro

Advogada, tocantinense, pisciana com ascendente em Gêmeos, apaixonada por música, arte, cultura, entretenimento, humanidades e tudo que envolve criatividade, cores, palavras, ângulos, sonhos, possibilidades, conexões....
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