letrismos

Era só pra deixar a música tocando mas quando me dei conta já estava escrevendo

Ana Clara Alves Ribeiro

Advogada, tocantinense, pisciana com ascendente em Gêmeos, apaixonada por música, arte, cultura, entretenimento, humanidades e tudo que envolve criatividade, cores, palavras, ângulos, sonhos, possibilidades, conexões...

Arte e seu lugar no tempo: uma perspectiva histórica e metafísica da música retrô a partir do álbum “Reboot” das Wonder Girls

A música é uma forma de expressão da individualidade do artista, de seus desejos, ideias e sentimentos, moldada por padrões sonoros que dificilmente escapam da influência das tendências da contemporaneidade.
A música de uma época, portanto, passa uma mensagem sobre aquela época. Sendo assim, qual é a mensagem que passa a música que imita as tendências de uma época passada?
Que lugar ocupa, na linha do tempo, a música cuja proposta é reproduzir o padrão de outra época?


Wonder-Girls_1438095801_af_org.jpg

... cada época tem que reescrever a história para encontrar a si mesma no processo inexorável dos séculos.” (Gregorio Robles) (Do livro “O direito como texto”; 2005; p. 26)

Apesar das previsões apocalípticas relativas ao ano de 2015 para o mundo da música, podemos dizer que foi um ano de bons álbuns, no qual confirmou-se a tendência da dilatação da indie music (que vem ganhando maior espaço no mainstream desde “Pumped up kicks” da banda Foster the People em 2011), do hip hop (que já deixou de ser exclusividade das rádios urban e tem conquistado espaço no mainstream desde meados da década de 2000), e das músicas com pegada retrô. Não foram poucas as músicas e álbuns lançados em 2015 com sonoridade claramente influenciada (ou intencionalmente reprodutória) pelos estilos musicais típicos das décadas de 1960, 1970 e 1980.

Logicamente, não se trata de uma tendência nova e nem de uma exclusividade dos lançamentos do ano de 2015. Esse “anacronismo ao contrário” tampouco é algo que se nota apenas na área da música. A moda também se repete de tempos em tempos, assim como a arte, a arquitetura, decoração... O que essa repetição tem a dizer sobre essas formas de arte?

A obra artística por Gregorio Robles.png (Do livro “O direito como texto”; 2005; p. 22)

Para esse texto, tomemos como exemplo a música.

A música é uma forma de expressão da individualidade do artista, de seus desejos, ideias e sentimentos, moldada por padrões sonoros que dificilmente escapam da influência das tendências da contemporaneidade. Assim, os estilos e tendências musicais predominantes de uma época refletem o estado da sociedade; afinal, é uma criação dos indivíduos que fazem parte dela.

A década de 1920 nos Estados Unidos, por exemplo, foi marcada pelo jazz esfuziante que refletia o american way of life, o gosto por festas e a vivacidade das classes sociais média e alta antes da quebra da bolsa de valores em 1929.

Outro exemplo de contexto histórico que se refletia na produção musical da época foi a música popular brasileira da segunda metade da década de 1960, notável pelas canções de protesto e crítica (ainda que inexplícitas, devido à censura do governo) à ditadura militar e à repressão da liberdade de expressão imposta após o golpe militar de 1964.

Outro fator que exerce enorme influência na moldagem do padrão musical de uma época é o desenvolvimento da tecnologia. A era da informação, período entre o final da década de 1970 e início da década de 1980 no qual os computadores tornaram-se cada vez mais sofisticados e utilizados, coincidiu com a explosão de ritmos musicais prevalentemente eletrônicos como o new wave, o freestyle e Miami bass, o synthpop e o electropop.

O estilo musical oitentista, inclusive, foi um dos mais reproduzidos pelos compositores e produtores musicais no ano de 2015, e foi eleito para os últimos álbuns da cantora norteamericana Carly Rae Jepsen e da girlband sul coreana Wonder Girls, para citar alguns exemplos.

Aliás, as Wonder Girls, especialmente por esse último álbum – que eu particularmente incluo na minha lista de melhores do ano de 2015, seja em uma lista exclusiva de música coreana ou mesmo em uma lista worldwide – são um exemplar interessante para analisar o assunto em questão.

Um dos mais bem sucedidos e importantes grupos da história do k-pop (sigla para korean pop, a música pop da Coreia do Sul), as Wonder Girls sempre tiveram como uma de suas características marcantes o fato de apostarem no retrô. Tornaram-se ícones por serem o primeiro grupo coreano a emplacar uma música nas paradas americanas da Billboard, em 2008 com o single “Nobody”, uma música que evoca o pop dos girl groups dos anos 1960, com um videoclipe que inclusive reproduz o estilo das apresentações e roupas típicos da era da Motown e dos grupos de doo wop.

Seja pela sacada de trazer a ideia de “conceito” para a promoção do artista (o que posteriormente veio a ser usado de forma exaustiva e quase obrigatória pelos demais grupos e solistas no pop coreano), seja pela escolha do conceito retrô, seja pela tática de investir pesadamente nos visuais e no videoclipe, o fato é que JYP (a agência responsável pelas Wonder Girls) fez de “Nobody” um divisor de águas, considerada a marca do início do k-pop moderno.

A inserção de elementos de épocas passadas sempre esteve nos planos para as Wonder Girls – o próprio nome do grupo remete ao famoso seriado The Wonder Years, que se passava nos anos 1960, e que inclusive é o título do álbum de estreia do grupo. Além disso, “Nobody” não foi a única vez em que o grupo se aventurou em terrenos nostálgicos. Essa seria a marca do grupo ao longo de vários anos de carreira.

“Reboot”, lançado em 2015, como o próprio título sugere (“Reiniciar”), é um álbum de new wave, electropop e hip hop dos anos 1980 – sequer é um álbum inspirado ou com elementos desses estilos: é um álbum de new wave, electrop e hip hop oitentista, eminentemente. Do começo ao fim. Sem releituras, sem elementos de modernização.

O ouvinte pode escolher qualquer música do álbum, aleatoriamente, e o que ele terá é uma canção que poderia muito bem se passar por algo que ouviria em uma discoteca americana na década de 80 – exceto pelo idioma. A última faixa, “This moment” (título original: 이 순간), poderia muito bem se passar por uma balada de Debbie Gibson, assim como o instrumental de “Loved” ou do lead single “I feel you” (vídeo abaixo) poderiam muito bem estar em uma coletânea de freestyle juntamente a hits como “Silent morning” de Noel ou “Fantasy girl” de Johnny O.

Até mesmo nos títulos das músicas (“Rewind”, “Gone”, “Back” – que significam “Rebobinar”, “Foi-se” e “De volta”) se vê o propósito de deixar claro que se trata de um álbum que quer “voltar” a algum lugar – seja ao cenário musical dos anos 1980 ou ao auge das Wonder Girls.

Essas duas hipóteses são ilustradas na faixa “Back” (outro destaque do álbum, que lembra vagamente “Heat it up” do grupo Wee Papa Girl Rappers, outro sucesso dos anos 1980), cujos primeiros segundos iludem o ouvinte com uma batida de hip hop contemporâneo para logo depois ouvir-se o “rebobinar da fita” e o grupo entregar um belo hip hop no melhor estilo das raízes do movimento, inclusive com todas as integrantes fazendo rap. A letra, inclusive, é elaborada com várias sacadas inteligentes.

O refrão “We’re back” (“Estamos de volta”) dá o tom da música: após um hiato de 3 anos, as Wonder Girls estão de volta. De volta aos holofotes, de volta ao posto de ícones do k-pop... Mas, é claro, estão voltando no tempo também em termos de sonoridade.

O fato de um álbum com sonoridade 100% oitentista ser lançado em pleno 2015 leva-nos a pensar sobre o lugar da música no tempo.

Como dito antes, a música é uma forma de arte e de expressão que inevitavelmente deixa-se moldar pelas tendências da época.

Parafraseando mais uma vez Gregorio Robles, o espírito de uma instituição condensa o espírito da época (“O direito como texto”; 2005; p. 10).

Dessa forma, um gênero musical pode ser considerado a apreensão das características do momento no qual ele é criado e difundido.

A música de uma época, portanto, passa uma mensagem sobre aquela época. Sendo assim, qual é a mensagem que passa a música que imita as tendências de uma época passada? Que lugar ocupa, na linha do tempo da estética artística, a música cuja proposta é reproduzir o padrão de outra época? Quando uma geração “imita” a moda de uma geração passada, o que isso diz sobre a geração mais recente? Significaria que os conceitos difundidos naquela época também voltaram? Que o contexto histórico está se repetindo?

É intrigante pensar sobre isso, mormente quando se pensa sobre os primórdios do uso do conceito “retrô” na música. Não faz muito tempo desde que a música começou a repetir a si mesma – ou pelo menos não com tanta intensidade como se tem visto desde a segunda metade da década de 2000.

duffy, adele e amy.jpg Nos Estados Unidos e na Inglaterra houve o revival da soul music (encabeçado por Amy Winehouse, com auge entre 2006 e 2008 com Duffy e com o álbum de estreia de Adele) e recentemente do synthpop (mais crescente ainda devido ao crescimento da indie music, como dito no início do texto)

No Brasil, o exemplo mais “antigo” que eu poderia me lembrar é “Whisky a go go”, do grupo Roupa Nova, canção de 1984 que reminiscencia ao pop rock da Jovem Guarda da década de 1960.

Quanto à música norteamericana, eu citaria “Here comes your man”, da banda The Pixies, que é de 1989 mas soa como algo dos anos 1960; e na Inglaterra temos “Crazy little thing called love” (vídeo abaixo), da banda Queen, que é de 1979 mas soa tão rockabilly quanto qualquer hit de Elvis Presley dos anos 1950 – aliás, foi mesmo a intenção da banda fazer uma homenagem a Elvis.

A banda inglesa Queen fazendo uma homenagem a Elvis Presley, lançando um rockabilly (estilo musical típico dos Estados Unidos dos anos 1950/60) em plena virada da década de 1970 para 1980

A partir de que momento pode-se dizer que uma arte torna-se suficientemente “antiga” a ponto de poder repetir a si mesma? E qual a intenção do artista ao renunciar aos padrões de sua própria época ou até mesmo rejeitar a oportunidade de iniciar um padrão totalmente novo, para repetir um padrão já usado?

A ideia desse texto não é fazer uma crítica ou julgar a criatividade desses artistas – até porque, como se sabe, não existe certo ou errado na arte. A questão é muito mais histórica e metafísica.

Histórica porque: considerando-se um padrão musical é o “retrato sonoro” de uma época, como retratar a época que repete os retratos passados? Qual é a característica principal desse período? O fato de a arte passar a ser cada vez mais reprodutória significa que esgotaram-se as possibilidades? Significa que atingiu-se o ponto no qual tudo já foi feito e só resta usar de tudo que já existe para criar coisas novas que por sua vez não são 100% novas? Em uma analogia com a economia e a política, seria esse “o fim da história” como o economista Francis Fukuyama sugeriu?

Bom, até o próprio Fukuyama posteriormente voltou atrás em sua teoria de que a humanidade atingiu o ponto no qual não mais caberiam processos de transição histórica. Isso em economia – que dirá se não se poderia relativizar a mesma ideia no que diz respeito a algo tão mais maleável e subjetivo, como a música!

Voltemos às Wonder Girls e seu hit “Nobody”. O fato de uma música com pegada retrô ser considerada o início do k-pop moderno é muito mais que um curioso paradoxo ("o antigo gerando o novo"); ele dá uma pista sobre uma das possíveis funções da “reciclagem” e da “imitação” de tendências antigas: a repetição pode ser novidade. Trazer algo de volta pode ser uma forma de inovação.

wonder girls nobody.png (Fonte da imagem: http://www.k-pendium.com/003/)

O processo de reinventar-se pode também incluir o uso de elementos característicos de eras passadas sem que isso descaracterize a unicidade de uma era; porque, ainda que haja algum tipo de repetição, o simples fato de o evento estar acontecendo n’um momento diferente torna-o diferente – “ninguém se banha no mesmo rio duas vezes”, como propuseram os filósofos Heráclito e Crátilo.

E aqui entra a perspectiva metafísica.

Se seguirmos à risca a regra de que cada época necessariamente possui um padrão/estilo particular, então, a cada vez que uma geração mais recente reproduz um estilo pretérito, o passado e o presente estariam acontecendo ao mesmo tempo – e talvez até mesmo o futuro, se levarmos em consideração a possibilidade de que o mesmo padrão poderia vir a ser repetido outra vez. E essa simultaneidade acabaria por eliminar as diferenças entre passado, presente e futuro, fazendo com que todos se tornassem um só momento.

É uma hipótese plausível se se partir do princípio metafísico-quântico de que “a diferença entre passado, presente e futuro é apenas uma persistente ilusão”, como enunciava Albert Einstein.

time is an illusion.jpg

Afinal, se o tempo é a quarta dimensão (aquela que ninguém enxerga, justamente porque está dentro dela), se tudo que existe é o agora, e se o agora irradia-se para o passado e para o futuro, então passado e futuro não existem, e não poder-se-ia dizer que existe um padrão “típico do passado” ou “típico de década X” ou “típico de época Y”. Tudo estaria acontecendo ao mesmo tempo e nada seria exclusividade de época nenhuma.

Heráclito com o aforisma panta rei afirmava que “tudo flui enquanto resultado da tensão contínua dos opostos em luta"; sendo assim, enquanto confrontarmos passado com futuro (ou, aquilo que nós designamos ser o passado e ser o futuro), partindo do princípio do passado, falar-se-á em “cópias”, “imitações”, “reproduções”, assim como se falou ao longo de todo esse texto. Mas, considerando passado, presente e futuro como uma só coisa, não se concebe falar em “copiar o estilo da década X” pois “a década X” sequer será considerada uma esfera de tempo fechada e estanque.

Popular Music Through The Decades.gif A música pop através das décadas

Então, o que está correto?: acreditar que nada é original, ou que tudo é original? Tudo está sempre mudando? Ou nada muda?

Novamente recorremos a Einstein para encontrar respostas. A teoria do físico alemão sobre a relatividade vem nos mostrar que o tempo e o espaço são diferentes se analisados sob pontos diferentes.

A direção do tempo, afinal, existe – inclusive, estudos recentíssimos, datados de dezembro de 2015, comprovaram a existência da seta do tempo a nível molecular. A relatividade, portanto, está na percepção desses eventos.

Só se pode comparar presente, passado e futuro se se tiver em mente esse conceito de “linha do tempo” – que tem a sua importância, assim como a ideia de consciência geracional (proposta pela sociologia), que liga o tempo biográfico ao tempo social e dá ao indivíduo um sentimento de conexão para com todos que vieram antes dele e todos que ainda virão.

Porém, a nível individual, essa “linha do tempo” deve ser relativizada.

Considerando a passagem do tempo pela medição de segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, séculos, inevitavelmente conclui-se que o tempo passa; ele tem uma direção. Essa direção, contudo, não é sentida da mesma maneira por todas as pessoas.

Relativity litografia do holandês Escher.jpg "Relativity", litografia do artista holandês Escher, de 1953

E assim retornarmos à arte, que é forma de expressão individual e que, como já foi dito, não abriga conceito de “certo” ou “errado”, pois expressa sentimentos, e sentimentos dizem respeito a ninguém além da pessoa que os sente.

E enquanto houver um único ser vivo que sinta algo de forma diferente dos demais, haverá sempre nova arte, independente dos elementos que ele escolha usar, pois a individualidade do artista agrega elemento novo aos já existentes; tal qual ocorre, por exemplo, no processo de composição musical, em que a alteração de um mero acorde já torna diferente toda a música. Quão diferente? Quão original? Quão imitadora? Mais uma vez: isso é relativo, dependerá de qual é o parâmetro de comparação, dependerá de definir se o que está em julgamento é a capacidade do indivíduo de ser “original” ou de transmitir a essência do contexto (social, histórico, político) com que ele se identifica.

A arte Cristina Pescuma.png

Enquanto houver alteridade, diferença, idiossincrasia, haverá mudança, haverá reinvenção, e consequentemente, haverá arte nova. O fato é que: a arte, assim como a humanidade, sempre encontrará maneiras de se reinventar. Estamos ainda muito longe de presenciarmos “o fim da história”.


Ana Clara Alves Ribeiro

Advogada, tocantinense, pisciana com ascendente em Gêmeos, apaixonada por música, arte, cultura, entretenimento, humanidades e tudo que envolve criatividade, cores, palavras, ângulos, sonhos, possibilidades, conexões....
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp //Ana Clara Alves Ribeiro