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Era só pra deixar a música tocando mas quando me dei conta já estava escrevendo

Ana Clara Alves Ribeiro

Advogada, tocantinense, apaixonada por música, arte, cultura, entretenimento, humanidades e tudo que envolve criatividade, cores, palavras, ângulos, sonhos, possibilidades, conexões...

"More life", more challenges

O mais recente trabalho de Drake oferece perspectivas reveladoras sobre as recentes mudanças nos hábitos de consumo de música e sobre a ressignificação do conceito de arte.


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“A playlist é o novo álbum”, têm dito muitos críticos de música. De fato, em uma indústria que precisou se adaptar rapidamente às mudanças nos hábitos de consumo dos fãs de música, a exploração da ideia das playlists parece uma interessante alternativa encontrada para driblar a queda nas vendas de álbuns e singles físicos.

O mais recente e interessante exemplo de como o conceito de playlist pode ser explorado é o do rapper canadense Drake, que lançou em março de 2017 seu trabalho “More Life”, uma compilação de 22 músicas que ele mesmo classificou como playlist. Um dos maiores nomes do rap na atualidade, Drake tem se destacado também no ramo de music business devido às suas parcerias com a Apple Music e inteligentes decisões de marketing. Marcar “More Life” como playlist em vez de álbum foi mais uma dessas decisões.

O crescimento dos serviços de streaming de música colocou em voga o viés artístico das playlists. Obviamente, a ideia de uma combinação de músicas não é recente; é esse, afinal, o trabalho do DJ, do seletor de trilhas sonoras de filmes, do radialista e dos profissionais envolvidos no lançamento de um álbum, por exemplo. Porém, se a princípio a função de realizar a seleção musical cabia a profissionais que tinham acesso a catálogos variados de artistas e estilos, enquanto que o consumidor final possuía um papel mais passivo, hoje a adoção de playlists é não só uma possibilidade, mas uma necessidade a qualquer amante de música. O consumo de música digital tornou acessíveis aos usuários uma quantidade de músicas tão grande que requer organização e adequação.

Se, há pouco tempo, a glamourização da playlist consistia basicamente em listas de dicas de celebridades em revistas (“Os 5 hits do verão preferidos da celebridade X”, “O setlist do DJ Y para a festa Z”), hoje são empresas como Spotify, Deezer, Tidal e Apple Music que fornecem playlists à mão cheia, constantemente aperfeiçoadas e atualizadas com os últimos lançamentos, aliadas a um design de UX (user experience, ou “experiência do usuário”) cuidadosamente planejado.

Dessa forma, o sucesso das playlists também trouxe para a música popular a ideia de curadoria, originária do mundo das artes e que tem estado em evidência no mundo dos negócios de entretenimento desde o início dos anos 2010. Especialistas de marketing, branding e humanidades dizem estarmos vivendo “a era da curadoria”. Trata-se de um evento que denota o quanto a sociedade tem estado mais sensível à personalização daquilo que consome, em meio a tantas opções disponíveis.

(Sobre isso, remeto o leitor ao texto “A era dos mundos individuais”, no qual analiso os prós e contras de viver em uma época na qual é possível personalizar toda e qualquer atividade, devido às facilidades que o mundo digital traz)

Segundo Burdick, Drucker, Lunenfeld, Presner e Schnapp no livro “Humanidades digitais”, “em uma linguagem popular, curadoria refere-se à supervisão e organização de itens físicos preservados ou exibidos (...). O termo explodiu na cena contemporânea, invadindo até mesmo a linguagem empresarial: slogans como ‘nossa era é a da curadoria’ e ‘por que chamar você mesmo de curador é a próxima grande jogada’ são proclamadas em blogs de negócios e em análises. O que eles estão apontando é o mesmo desejo que anima o trabalho de humanistas digitais: que a mera existência de vastas quantidades de dados, artefatos ou produtos não é garantia de impacto ou qualidade. Curar é filtrar, organizar, aperfeiçoar, e em última análise, cuidar de uma história composta de – ou até mesmo resgatada de – uma infinita disposição de potenciais contos, relíquias e vozes”. Em resumo, a curadoria consiste em um “vasto alcance de práticas de reorganização e representação de registros culturais da humanidade, a fim de criar valor, impacto e qualidade”.

Atentos a necessidades dessa natureza, os serviços de streaming de música têm usado de ferramentas para oferecer uma experiência personalizada para o ouvinte. Através da colheita de dados sobre os hábitos e preferências dos usuários e o desenvolvimento de algoritmos que localizam e combinam músicas com base nesses dados, permite-se que o ouvinte seja seu próprio curador. O Spotify, por exemplo, gera todas as segundas feiras uma seleção exclusiva de sugestões de músicas segundo o gosto do usuário, a “Discover Weekly”.

Além disso, existe a possibilidade de ouvir playlists criadas por profissionais. Os serviços de streaming oferecem centenas dessas, com os mais variados temas. Por vezes, o sucesso é tão grande que conquista tantos ouvintes quanto um lançamento original de um artista - é o caso da playlist “Your Favorite Coffeehouse”, do Spotify, que possui mais de 2.300.000 de seguidores no mundo todo.

Spotify Your Favorite Coffeehouse.png Captura de tela efetuada em 04.04.2017

Hábitos como esse introduziram no mercado novas profissões, como o “criador de playlist”, que, por exemplo, foi citado pelo site Complex em 2014 em uma matéria denominada “Empregos na indústria da música que não existiam há 5 anos atrás”.

O fato de haver pessoas que têm se especializado em atuar na curadoria de música chama a atenção para outro importante fato: o de que a figura do curador importa tanto quanto a própria curadoria enquanto função. Ter um ser humano por trás de um trabalho, em vez de um mero algoritmo, portanto, faz diferença.

Há quem critique essa tendência de denominar qualquer seletor de conteúdo como “curador”, entendendo que se trata de apenas dar um nome bonito a um trabalho simples. Em artigo de 2013 para o Chicago Tribune intitulado “Todo mundo é um curador”, Christopher Borrelli chamou a atenção para uma possível banalização do termo (“Uma das funções do curador professional é o obsessivo e rigoroso arranjamento de materiais para contar uma história? Alguns chamam isso de Facebook”) e entrevistou profissionais para analisar a maneira como a popularização da seleção de conteúdo estavam impactando o trabalho de quem atuava na área de curadoria de arte antes de isso se tornar algo autoproclamável.

Segundo Sarah Higgins, coordenadora do programa de graduação em estudos curatoriais da Faculdade de Bard em New York, em entrevista mencionada nessa matéria, programas como o seu nasceram bastante voltados para “objetos de arte”, mas conforme as práticas de curadoria têm se tornando mais discursivas, as aulas têm visto cada vez mais alunos interessados em testar os parâmetros do que é ou não passível de ser objeto de uma curadoria.

Intitular alguém como “curador” tem sido uma estratégia para redefinir e agregar valor ao trabalho de seleção de conteúdo. Os serviços de streaming de música também têm apostado nisso como fator de atração de público para suas playlists. Recentemente, a rapper Nicki Minaj atiçou seus fãs com a promessa de lançar “algo exclusivo” no Tidal, o que, em vez de uma nova música ou álbum, como muitos imaginavam, era uma playlist denominada “Queens got da crown”. A ideia de colocar grandes nomes da música como curadores de playlists exclusivas, inclusive, foi um dos pilares do Tidal quando ele foi lançado.

Trazendo essa ideia para o contexto do mundo da música, quando publicações de música afirmam que “a playlist é o novo álbum” ou que as playlists ultrapassaram os álbuns”, chama a atenção o fato de que, embora o futuro dos álbuns continue ameaçado, ainda existe demanda por ouvir peças compostas de vários trabalhos individuais organizados segundo algum critério.

Formalmente, a playlist não é uma obra sistematizada e estruturada para ser lançada assim como é o álbum; porém, no que diz respeito ao conteúdo, a diferença entre um álbum e uma playlist estaria nas ideias sintetizadas naquele conjunto de músicas. As playlists, conforme a excelente colocação do jornalista Jon Caramanica, do The New York Times, “sugerem uma mudança estética do álbum, que em sua forma platônica ideal é, narrativamente estruturado e contido, um pensamento completo do criador, expressado em partes. Uma playlist na era do streaming, em contraste, é um conjunto de estados, impressões, influências e referências; é um rio que flui em uma direção, terminando em algum lugar longe do início (se é que termina)”.

Tanto uma playlist quanto um álbum são um conglomerado no qual fatores como a ordem das músicas, o estilo, o sentimento transmitido, fazem a diferença. A playlist, porém, é mais descompromissada com a ideia de continuidade e coesão pois não necessariamente cumpre um conceito até o fim. Não que não seja possível para um álbum fazer incursões em diversos estilos sem perder a identidade (e alguns artistas o fazem com maestria, como Beyoncé em “Lemonade”); mas, uma seleção de músicas, justamente por ser apenas “uma seleção”, tem licença para abranger mais variações de estilo do que um álbum normalmente contém. É um diferencial e tanto, n’um tempo em que a sobrecarga de conteúdos e possibilidades tem tornado as pessoas menos estimuladas a acompanhar uma execução longa de uma ideia até o fim.

No caso de “More Life”, Drake marcou vários pontos de uma só vez. Adrian Lee, da publicação canadense Macleans’, afirma que “More Life” funciona mais como playlist do que como álbum justamente porque “libertou Drake para ser mais casual enquanto também tentava rejeitar a ideia de que um projeto longo é necessariamente algo ruim”.

Drake, afinal, têm sido um observador e curioso sobre novos nomes, novos artistas, e gêneros musicais que estão fora do radar da música mainstream. Um projeto como “More Life”, para ele, funciona também como uma oportunidade de aproveitar suas pesquisas e passear entre suas influências e mais recentes obsessões, como os ritmos de origem caribenha e os novos gêneros da cena urban britânica. Em “More Life” temos ainda trap, R&B, house music e colaborações com grandes nomes do hip hop como Kanye West, 2 Chainz, Young Thug, nomes mais novos como Partynextdoor (primeiro artista da gravadora de Drake, OVO) e internacionais como o rapper britânico Giggs e o DJ sul africano Black Coffee. Como se pode notar, Drake é um curador nato.

A ideia de que a curadoria e, por exemplo, o design, não mais são considerados termos segmentados, tem colocado artistas em papéis mais ativos na seleção dos elementos a serem incluídos em seus trabalhos, assim como Drake tem feito, e difundido a criação de arte e conteúdo como trabalhos muito mais acessíveis e democráticos. O rapper e produtor Kanye West é uma das figuras que frequentemente desafia o padrão de que a arte deve ser algo elitizado e não inclusivo, atribuindo a si mesmo títulos como de inventor, criador, designer e curador – ele descreve suas músicas como “invenções sônicas curadas por emoção”.

tweet kanye.jpg Fonte: Twitter

É revelador o fato de que cada vez mais artistas de hip hop, como os próprios Kanye e Drake, além de Jay-Z e Nicki Minaj, estejam cada vez mais usando termos como arte, design e curadoria para falar de seus trabalhos. Também é no mínimo sugestivo que, nos últimos meses, os debates mais intensos sobre a figura da playlist no mundo da música tenham advindo de episódios que envolvem o hip hop, como as playlists citadas de Drake e Nicki Minaj, além do caso da coletânea “Epic af”, uma playlist da gravadora Epic Records que não foi lançada como álbum físico e mesmo assim figurou no Top 10 das paradas de álbuns da Billboard. O hip hop é, por essência, um movimento que desafia o conceito e de arte e os padrões estabelecidos sobre ela; logo, não é de se espantar que debates sobre esse assunto estejam sendo impulsionados por artistas desse nicho.

A playlist, nesse contexto, assume papel intrigante, pois traz o elemento da curadoria artística em um formato que escapa ao conceito artístico tradicional do “álbum”.

Obviamente, existe uma agenda comercial nos bastidores dessa cena, pois desde 2014 a Billboard tem considerado streams de música para a configuração de suas paradas musicais; logo, a possibilidade de preencher uma coletânea com músicas de estilos variados e todas com potencial para conseguirem boas execuções nos serviços de streaming, é mais interessante do que o lançamento de um álbum com fillers, músicas que geralmente cumprem a mera função de apoiar os singles e preencher o álbum.

(Nota posterior: em 04.04.17, o Spotify anunciou um acordo com a Universal Music Group, que trará aos assinantes benefícios como poder ouvir as faixas de um álbum em primeira mão, enquanto apenas os singles ficariam disponíveis para os não assinantes. Daniel EK, cofundador e atual CEO do Spotify, disse que “nem todo álbum deve ser tratado da mesma maneira e estamos trabalhando arduamente junto à UMG para desenvolver uma nova política de lançamento, mais flexível”. É mais um movimento da indústria da música em resposta às mudanças no consumo do álbum)

Mas, além dos interesses dos serviços de streaming e das gravadoras, não se pode ignorar a relevância cultural das questões que esses eventos têm nos levado a discutir.

Curador, artista e designer são apenas nomes bonitos que têm sido atribuídos a pessoas normais exercendo ofícios simples? O que um trabalho requer para ser considerado “arte” e outro não? As diversas possíveis respostas a essas perguntas revelam perspectivas sobre o papel que cada um tem potencial para exercer na sociedade.

A relativização do significado de ser artista, ser criador, ser curador, ser designer de algo, consequentemente leva à democratização das artes que são objeto desses ofícios. Discussões à parte sobre ser isso algo positivo ou não, o simples fato de nos levar a pensar sobre os motivos que tornam alguém menos ou mais qualificado para exercer esses ofícios já é, por si só, extremamente válido.

Já no que diz respeito ao modo como se consome música, o formato da playlist satisfaz às ânsias do perfil do consumidor atual, que busca a máxima adequação aos seus gostos e o mínimo de enrolação. Conquistar esse consumidor é, portanto, uma tarefa que exigirá cada vez manejo e talento, pois a capacidade média de concentração tem diminuído tanto quanto o nível de exigência tem aumentado.

Ao lançar “More Life” como uma playlist em vez de um álbum ou mixtape, Drake assumiu a proposta de fazer com que o ouvinte viaje com ele durante mais de 80 minutos de música – não é o compromisso conceitual de um álbum, mas ainda assim, é uma viagem longa, que ele executou bem e tem sido bem recebida, como atestam seus números de streaming que lhe renderam o primeiro lugar na parada musical Billboard 200.

“More Life” é um bom exemplo de aproveitamento das circunstâncias atuais, tanto para fins de conceito artístico, como para marketing e comercialização. Se os eventos que sucederem a jogada de Drake confirmarem que a playlist é realmente a versão atual do álbum, o desafio para os artistas e curadores se tornará maior a cada dia.


Ana Clara Alves Ribeiro

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