letrismos

Era só pra deixar a música tocando mas quando me dei conta já estava escrevendo

Ana Clara Alves Ribeiro

Advogada, tocantinense, apaixonada por música, arte, cultura, entretenimento, humanidades e tudo que envolve criatividade, cores, palavras, ângulos, sonhos, possibilidades, conexões...

Em algum lugar, um terapeuta sabe seu nome

Tentar contabilizar quantas versões de você existem é impossível. Aceitar isso te torna mais desesperançoso ou mais grato?


Codex Seraphinianus.png Ilustração do livro "Codex Seraphinianus"

“Kashmarin desvelou mais uma imagem de Smurov. Faz diferença qual? Porque eu não existo: o que existem são milhares de espelhos que me refletem. Em cada relacionamento meu, a população de fantasmas que se parecem comigo cresce. Em algum lugar eles vivem e se multiplicam. Eu, sozinho, não existo. Smurov, porém, vai viver por um bom tempo. Os dois meninos, meus pupilos, vão envelhecer, e alguma ou outra imagem de mim vai ver com eles como um parasita. E então chegará o dia em que a última pessoa que se lembrar de mim vai morrer. Como um feto ao contrário, a minha imagem também vai se enfraquecer e morrer dentro da última testemunha do crime que eu cometi pelo simples fato de viver. Talvez um história aleatória sobre mim, uma simples anedota na qual eu apareço, vai passar dela para seu filho ou neto, e depois meu nome e meu fantasma vão aparecer aqui e ali por mais algum tempo. E então virá o fim.” – Vladimir Nabokov, O Olho

Seja lá quem você for, você existe de mais maneiras do que pode contar.

Talvez você seja a inspiração de alguém por motivos que nem você mesmo gosta.

Talvez você cause rejeição a alguém por coisas que nem fez, ou coisas que fez quando você ainda nem era você de verdade.

Há também aqueles que te enxergam melhor do que você mesmo, aqueles nos quais as sementes que nem você enxerga em si já despertam algum tipo de sentimento.

Você vive em todas essas sementes; cada uma delas germina de um jeito diferente no terreno da alma de cada um que passa pela sua vida.

Na encruzilhada de milhões de versões de milhões de pessoas, é rara a probabilidade de duas versões concordarem sobre as percepções que têm de si.

Aceitar isso te torna mais desesperançoso em relação ao amor e à compreensão, ou mais grato pelos encontros felizes e os relacionamentos que mudaram sua vida?

Você pode ter diferentes respostas para esta pergunta em diferentes momentos da vida, e cada uma delas é também uma versão diferente de você.

Tentar contabilizar quantas versões de você existem é impossível, mas ignorar que elas existem não vai tornar sua vida mais fácil.

É preciso fazer as pazes com os milhões de espelhos e olhos que existem à nossa volta, mesmo aqueles – ou, principalmente aqueles – que você não conhecer ou nunca chegará a conhecer.

Alguém, por algum motivo, já foi impactado pela sua existência.

Em algum lugar, um terapeuta sabe seu nome.


Ana Clara Alves Ribeiro

Advogada, tocantinense, apaixonada por música, arte, cultura, entretenimento, humanidades e tudo que envolve criatividade, cores, palavras, ângulos, sonhos, possibilidades, conexões....
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