lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade.

Dia dos namorados: sob a lente do amor

A fotografia, como arte que se preza, tem o dom de contar histórias inteiras, não importa se reais ou não. Trata-se de uma obra aberta cujas interpretações são bem-vindas e enriquecem. A fotógrafa carioca Marilda Souza encontra flagrantes do cotidiano com todos os seus elementos, incluindo homens e mulheres em situações a dois. E não se sabe se formavam casais ou não. Porque, no toque mágico do "clique", eles se tornaram namorados.


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Pobre de quem nunca teve a certeza que o mundo é feito apenas de dois. O entorno, os outros integram uma perspectiva distante, uma plateia passiva que não tem nenhum poder de interferir na sensação sublime de um abraço de corpo inteiro, de um beijo de quem tem pressa. E não interessa o quanto dure esse desejo: a tão sonhada eternidade ou os segundos de uma viagem de escada rolante. A imagem, registrada em uma estação de metrô de Moscou (Rússia), expõe a linguagem oficial dos enamorados: o momento correto de amar é sempre.

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A metalinguagem dos namorados no retrato sobre a selfie. Selfie que define muito bem a paixão porque é instante. Capta o melhor ângulo do romance, faz o namoro sair bem na foto. Os jovens, que passeavam por Colônia de Sacramento (Uruguai), podem nem formar mais um casal no tempo agora. Mas o que foi vivido tem o mérito de construir parte da trajetória deles. Nossas experiências – românticas ou não – edificam algo dentro de nós, servem de alicerce para o que virá, até quando tudo o que resta são escombros. Foi assim com o Convento de São Francisco Xavier, cujas ruínas lhes serviram de cenário. O que sobra, o que fica contará uma história, seja qual for o enredo.

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Namoro também é tédio. É cara amarrada. É a não identificação com o outro, mesmo que temporária. É o amargo sabor de não ser compreendido. As nuances da relação constroem o quadro afetivo, no qual há amor, mas há guerra. A intuição de expor que algo não vai bem para que o outro se penalize e reaja não tem hora ou lugar: pode ser a quatro paredes ou no meio de uma praça em Budapeste (Hungria), na hora do almoço. O gestual deixa claro que não há espaço para contra-argumentos, para revides. “Estou aqui, mas sigo contrariado. Seduza-me. Inspire-me. Porque ainda estou aqui.”

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Mas o corpo também sabe se expressar favoravelmente, mostrar-se receptivo ao outro. Aqui, às margens do Rio da Prata (Montevidéu, Uruguai), a fotógrafa pode ter flagrado o início do flerte, os primeiros passos da sedução. Olhares cruzados, corpos dourados voltados favoravelmente um para o outro. O dourado que se repete nos outros elementos da cena e faz a foto ganhar temperatura em elevação.

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Saber olhar na mesma direção e desfrutar das paisagens, das surpresas e das não surpresas deveria ser propósito de quem escolheu o parceiro e foi correspondido. Tudo ganha mais graça quando é apreciado a dois. Ou mais do que isso: quando gera cumplicidade. E cumplicidade costuma estruturar relacionamentos longos. O abraço direcionado em meio à rotina de uma grande cidade, como Budapeste, ampara e comunica: até em preto e branco, a vida pode ser colorida.

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Nem sempre o amor é romântico. Talvez um dia tenha sido. Talvez um dia, compartilhar o mesmo banco e contemplar o entardecer à beira do Mar Adriático (Dubrovnik, Croácia) tenha sido a única condição para ser feliz. Hoje, o roçar dos corpos não é mais urgente. Porque os namorados também entardecem.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade..
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