lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/

Dia Internacional da Mulher: um pouco além do óbvio

A lente feminina em busca do feminino em estado natural, sem poses ou subterfúgios. Fotos do acervo da fotógrafa carioca Marilda Souza revelam facetas da mulher no mundo, na busca da artista por composições que contenham histórias completas. Reais ou não.


jerusalem, israel.jpg

Sem glamour. Sem maquiagem. Sem pose. Em estado natural. O instante do clique da carioca Marilda Souza traz um raio-X da realidade, costumes e até mesmo da cruz de ser mulher. Um apanhado de fotos femininas do acervo desta artista – já que comemoramos o dia internacional – é uma amostra de cultura regional, em que a resignação, a austeridade, a fé e a versatilidade das ninfas da atualidade são retratadas em seu habitat. A mágica da coletânea reside no fato de a fotógrafa captar não apenas expressões faciais, mas, principalmente, o entorno, o contexto. E é este contexto que traduz mais fielmente quem são estas mulheres do mundo.

Imagem artigo.jpg

A imagem, na cidade de Mostar, na Bósnia, é representada quase monocromaticamente, remetendo a uma paisagem de fábula, com a ajuda da neblina matinal, que chega a camuflar o passado, representado pelas construções históricas. Enquanto isso, as moças, alheias à muralha secular que lhes serve de assento, se voltam para o futuro, compartilhando tecnologia e cumplicidade. A cor, nesta foto, funciona como foco e destaca as protagonistas.

10689837_1507802272817290_5044018887770323706_n.jpg

A tradição das mulheres indianas ganha movimento e ideia de passagem de bastão nesta fotografia, vencedora de menção honrosa da ABAF (Associação Brasileira de Arte Fotográfica), em 2014. A pequena indiana segue levando a tradição sobre seus pesinhos descalços e sujos, seguida, de perto, pela figura materna. As sombras no piso de mármore emprestam calor à cena e os demais elementos arquitetônicos (Taj Mahal, Agra, Índia) garantem a ideia de uma cultura imperativa que, muitas vezes, maltrata essas mesmas mulheres.

10370418_835957609769243_5108134594051435152_n.jpg

Nesta captura em uma praça de Viena (Áustria), a composição sugere a mulher-flor: o cabelo, no tom das folhagens, e a blusa esverdeada não poderiam ser mais providenciais para a harmonia do quadro, no qual os elementos se sobrepõem de forma tão plástica, que fica impossível dizer quem é o personagem central.

10698505_1510178605912990_4429407887143244780_n.jpg

Um salto da delicadeza para a aspereza. O cenário cru (rua do distrito de Água Vermelha, São Carlos, SP) remete à severidade de uma vida com poucas possibilidades. A idade não está expressa apenas nos ombros curvados, mas no limo, nas paredes sem pintura, no calçamento rústico, na sugestão implícita de solidão e abandono, como se todos os elementos se solidarizassem com a trabalhadora que, mesmo sem ter sua expressão facial declarada, denota o peso dos anos e do caminho difícil, mas que deve ser seguido. Mesmo porque, há luz depois da sombra.

DSC_4251.jpg

A própria fotógrafa batizou esta obra de “A pensadora”, em alusão à escultura homônima do francês Auguste Rodin. Quase oculta pela paisagem do interior do canal de Suzhou, na China, a moça parece mesmo ter procurado o anonimato para refletir. Porém, uma certeza sobressai: não provoque. É cor-de-rosa choque.

jerusalem, israel.jpg

Carregar cruzes é a sina de muitas mulheres. Nesta imagem, a artista abusou da sensibilidade ao clicar o momento exato em que a moradora parece ocupar o papel que já foi de Outro protagonista, na mesma Via Crucis, na mesma Jerusalém (Israel). A sugestão da foto reporta a uma pagadora de promessas, resignada e de passadas firmes. Ou até mesma da morte que, no inconsciente coletivo, também veste negro e também é feminina.

Marilda.jpg

Marilda Souza se descobriu fotógrafa muito cedo. Mas só pôde revelar esta faceta artística depois da maturidade, quando a aposentadoria e os filhos criados lhe deram a autonomia necessária para se perder em cidades de incontáveis países, movida pela vontade de conhecer povos por suas próprias lentes. O resultado, que podia ser confundido com hobby, cresceu junto com sua busca por aprimorar técnicas e equipamentos. Souza nunca fez um curso formal, mas suas pesquisas pessoais - além da participação em clubes de fotografia no Rio de Janeiro e, mais recentemente, em Araraquara, no interior de São Paulo, sua morada atual - e a troca de experiências com esses grupos, segundo ela própria, contribuíram para o resultado de seu trabalho, reconhecido por prêmios e menções honrosas, como do Salão Jauense Internacional de Arte Fotográfica, do Concurso Fotográfico Intel e do Clube de Arte Fotográfica de Camaçari, entre outros.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade. Confira minha página "Em Outras Palavras", no Fabebook: https://www.facebook.com/porWalReis/ .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/fotografia// @obvious, @obvioushp //Wal Reis