lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade.

Quando a vida é muito melhor do que a arte: a diferença entre escritores e contadores de histórias

Ao escrever “A Estrela de Prata”, a jornalista americana Jeannette Walls prova que seu primogênito “Castelo de Vidro” deveria ser filho único.


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De maneira nenhuma cabe aqui uma crítica ácida à jornalista Jeannette Walls, escritora de um dos meus livros da list heart, o best-seller Castelo de Vidro (Nova Fronteira, 2007). Mas a constatação de que sua história real, retratada neste primeiro, é muito mais rica que sua ficção vem com a leitura de seu segundo trabalho, A Estrela de Prata (Globolivros, 2014).

Para quem leu Castelo de Vidro fica mais fácil esta compreensão. Porque trata-se de uma obra que não apenas sai do lugar comum como vai além: ela te arranca do lugar comum. Faz sentir raiva visceral sem que Walls escreva uma única palavra que te oriente neste sentido. Mostra as nuances do ser humano e prova que somos multifacetados, independente do papel social de cada um. Ninguém é bom ou mau. Mas sim bom e mau.

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Um dos meus parágrafos prediletos em Castelo de Vidro e que exemplifica essa máxima é quando a autora relembra sua “aula” de natação, ministrada pelo pai, Rex Walls, que assiste a seu quase afogamento: "Arrastei-me para fora d´água e sentei sobre umas pedras calcificadas, com o peito arfando. Papai também saiu da água e tentou me dar um abraço, mas eu não quis nada com ele, nem com a mamãe, que tinha ficado boiando o tempo todo, como se nada estivesse acontecendo, nem com o Brian ou com a Lori, que vieram até mim para me dar os parabéns. Papai ficava dizendo que me amava, que nunca me teria deixado na mão, mas que eu não podia passar a vida inteira agarrada à borda, que uma lição que todo pai tem que dar ao filho é que "se você não quer afundar, é melhor tentar descobrir uma maneira de nadar". Que outra razão, perguntou ele, poderia haver para me fazer passar por aquilo? Quando recuperei o fôlego, eu comecei a achar que ele estava certo. Não podia haver outra explicação."

Em Castelo, Walls tem o dom de terminar uma ideia que inflamaria o mais centrado dos leitores dessa forma. Mostrando a dualidade, deixando no ar que, de repente, a técnica paterna não era totalmente inadequada. Apenas menos óbvia.

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Já em A Estrela de Prata a arte não consegue imitar a realidade e o resultado acaba sendo menos qualitativo em termos narrativos e de conteúdo. A história de duas irmãs, filhas de uma pseudo-artista, se passa na década de 1970, entre os estados americanos da Virgínia e da Califórnia. Novamente temos aqui elementos biográficos da autora, como a negligência materna, que impulsiona as filhas de 11 e 15 anos a procurarem, por conta própria, um lugar seguro para viver. Ao chegarem a então decadente casa onde a mãe passou uma infância de menina rica encontram um tio viúvo e sem filhos, que leva uma vida controlada, depois que a fortuna da família ficou no passado. Lá, as irmãs conquistam um pouco de normalidade cotidiana. Talvez a normalidade que a própria Walls tenha buscado para si.

Mas, a partir daí, a narrativa ganha simplicidade excessiva. A sequência de fatos não é costurada de maneira realista, como seria de se esperar em um trabalho desta autora. Falta aprofundamento em várias sequências, como quando a caçula encontra a família do pai já morto. A aceitação de ambas as partes é relatada de maneira excessivamente prosaica, em algumas linhas, deixando o leitor órfão de elementos que contextualizem a situação, tornando-a verossímil. E esta sensação de estarmos diante de uma história rasa, com poucos recursos literários, nos acompanha em várias outras sequências.

Outros elementos biográficos também estão presentes em A Estrela de Prata, como a tentativa de estupro da irmã mais velha. Em Castelo, a jornalista sugere que o próprio pai a havia colocado em uma situação vulnerável, na tentativa de conseguir algum dinheiro. Poucas situações seriam mais revoltantes, mas acreditem: a mágica das palavras de Walls em seu livro de estreia faz com que o leitor entenda o que aconteceu, mas sem colerizar.

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Nesta segunda obra também está presente a troca de papéis entre adultos e crianças. Enquanto a mãe vive em um mundo fantasioso, repleto de fábulas e meias-verdades, cabe às meninas imputarem um pouco de ordem à vida doméstica. Aqui, porém, Walls é menos sutil ao retratar a psicopatia da figura materna, deixando claro, em várias passagens, que não se trata apenas de excentricidade, mas de algo realmente patológico.

Li algumas resenhas em que as personagens centrais de A Estrela de Prata são apresentadas como “(...) filhas de uma artista, aspirante a cantora e atriz...”, mas a descrição não condiz com a verdade do livro. Em todas as referências à “antagonista” (assim, entre aspas, porque para Walls não existem antagonistas clássicos), fica claro que “artista” é uma autodenominação da própria personagem para mascarar uma realidade bem menos glamourosa perante as filhas.

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Também não consegui ver coerência na opção da autora em colocar a narrativa sob a ótica de Bean, a irmã mais nova, de 11 anos, gerando um contrassenso narrativo: ora os elementos linguísticos reportam ao universo de uma garotinha de 11 anos no comando da história e ora isso se perde e temos uma linguagem demasiadamente adulta descrevendo e analisando fatos.

Outro ponto fraco da segunda obra é o título. Além de não reportar a nada que faça realmente sentido no contexto – e confesso que estava ansiosa por encontrar algo sintetizador para “estrela de prata” – é um elemento perdido na trama. Mais ou menos na segunda metade do livro, a tia presenteia a caçula com uma condecoração que fora de seu pai, quando este serviu ao exército americano. Sem mais elementos que façam um link afetivo entre a garota e o progenitor, a abordagem fica vazia.

E mais uma vez a comparação é inevitável: um “castelo de vidro” era o que Rex Walls prometia construir para a família, mas sua simbologia não se esvai quando seus filhos já entenderam que o castelo nunca existirá. O título, onipresente do primeiro ao último capítulo, remete à fragilidade dos sonhos e da própria vida e ainda sugere a possibilidade de visualização, na medida em que Walls se permitiu contar suas memórias de modo transparente e sem censura.

Outros livros poderão vir, mas dificilmente a escritora superará a contadora de histórias.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade..
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