lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade.

Até que o excesso de amor nos separe

Ficamos assim: você segue por aqui e eu por ali. Assim teremos a certeza de que a felicidade, essa traiçoeira, não vai nos alcançar.


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Já vai? Não, toma mais um café. É cedo. Ainda preciso te contar umas histórias... na verdade, agora não lembro quais são essas histórias. Mas ainda há muito para contar. Afinal, foi dessa forma que Sherazade se livrou da morte e ganhou o amor eterno do rei Shariar, não foi? Hoje entendo o empenho de Sherazade. É difícil encarar o fim.

Sempre depois que você sai, eu me recordo de algo que não dividi. E fico esperando a próxima oportunidade. Sim, eu sei. Não teremos outra oportunidade. Por isso acho importante você ficar mais um pouco. Assim eu tenho matéria-prima para recarregar minha memória, todas as vezes que precisar recorrer a ela para ter você por perto.

Está certo. Combinamos de não dar um tom melodramático. Na verdade, você combinou. A mim, me coube aceitar.

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Concordo, claro. Que futuro a gente teria? Só porque nos amamos incondicionalmente, completamos a frase um do outro, rimos juntos a maior parte do tempo, temos princípios similares, os mesmos ídolos, entendemos nossas diferenças e somos nossos maiores fãs?

Como dois seres humanos que sentem que o tempo ganha cor quando um está com o outro, que experimentam um prazer quase sexual ao conversar sobre qualquer coisa, que se apoiam e incentivam sobre todos os aspectos podem pensar em compartilhar uma biografia? Não, seria loucura.

Imagine não ter motivos para lamentar? Acordar todos os dias e descobrir que o sonho começa junto com o toque do despertador? Encarar os problemas dando a "minimez" que eles merecem? Concretizar projetos e ser feliz para sempre? Insano: esse excesso de realizações deve ser altamente tóxico.

Ficamos por aqui então. Mas nos encontramos por aí, nas letras das músicas, que acreditamos piamente terem sido feitas para nós. No travesseiro com a fronha úmida. Na expectativa nossa de cada dia, de que o destino traga, de bandeja, a felicidade que não tivemos coragem de buscar e que vimos, pelo espelho retrovisor da vida, ir ficando para trás.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade..
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