lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade.

Deixa o cupido virtual te clicar

Nada de fazer o sinal da cruz ou bater na madeira quando o papo são os sites de relacionamento. Pega seu mouse e se joga na rede. Quem sabe não aparece um peixão?


beverage-1838933__340.jpg

Outro dia, conversando com uma amiga new solteira na pista, que reclamava da falta do gênero masculino de qualidade no mercado e de sua vontade de voltar a se relacionar com um cara bacana, companheiro, de meia idade, solteiro, com bom nível cultural e – vá lá – alguma grana, lasquei uma pergunta, já meio sabendo que ia voltar chumbo grosso: “e os sites de relacionamento?” A cara que ela fez me lembrou a expressão de uma testemunha de Jeová, que me interpelou no meio da rua num domingo com três sóis em cima da minha cabeça, querendo me convencer a conhecer sua igreja. Para tentar me livrar, declarei que era umbandista.

Os argumentos capengas da minha amiga eram na linha: “naaaaaaaaaaao, isso não é pra mim, sou antiga ...gosto do tête-à-tête, de olhar no olho, de conhecer a pessoa ...não sou adepta dessas coisas de tecnologia”. Suspirei longamente imaginando mil maneiras para fazer cair por terra aquele blábláblá que até lembrava a pregação da crente. Mas me contive.

Isso porque, quem sabe, ela estava certa? Quem sabe o bacana, o cool seja o tête-à-tête. Isso vale para o tanque. Algo mais impessoal do que lavar a roupa na máquina? Ou usar o aspirador de pó? E se é para sapatear em cima da tecnologia, a comunicação não pode ficar de fora. Que mané Whatsapp, Snapchat e o cacete. Vamos mandar cartões-postais, escrever longas missivas e ir até os Correios selar a carta molhando o selo com a língua. Ah, para, né?

girl-926225__340.jpg

Se a tecnologia é nossa aliada no mundo moderno por que ela necessariamente precisa ser a vilã dos relacionamentos? Ao contrário: ela lapida e aproxima pessoas certas. Não. Eu nunca figurei num site do gênero, é verdade. Mas simplesmente porque o recurso não estava disponível durante minha solteirice. E olha: as plataformas teriam me evitado muita perda de tempo, muito fumante, muito iletrado, muito babaca pagando de gostoso que, para ser educada, tive que encarar do outro lado da mesa, fingindo prestar atenção na conversa enquanto imaginava se a janela do banheiro feminino era suficientemente grande para eu fugir por ali.

Tem gente sem noção nos sites de relacionamento? Nossa, às pencas. Mas a vantagem é que é possível filtrar. E refiltrar depois de trocar algumas palavras pelo smartphone. Ali, confortavelmente instalados em casa, de pijama diante da telinha brilhante. Ao primeiro “derrepente” você bloqueia o cidadão. Da primeira vez que ele te convidar pra sair num domingo à tarde, entre às 16h e 18h, coincidentemente no mesmo horário em que estaria no estádio vendo os jogos dos campeonatos regionais, você nem responde. Se começar com graça de sexo virtual na segunda conversa online, chuta que é macumba.

Olha só que economia de tempo e energia. Você precisaria de uns quatro ou cinco encontros para descobrir essas particularidades que, em meia dúzia de tecladas, faz o príncipe da foto retocada virar sapo. Melhor que mágica.

couple-1845334__340.jpg

Por isso me custa entender a resistência das pessoas a este tipo de “botequim da rede”. Adoraria ver um pessoal legal e avulso que conheço – homens e mulheres, heteros e homos – sendo flechados pelo cupido virtual. E aí sim, após afunilar as possibilidades, partirem para o encontro presencial, com o tal olho no olho, primeiro beijo, mão boba e tudo mais. Depois de uma certa idade, a gente precisa ter pressa de ser feliz.


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade..
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Wal Reis
Site Meter