lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade.

Desculpe, foi engano

Não. Não dá para passar uma borracha e esquecer tudo. E também não dá para culpar o outro por erros seus. Mas, por sorte, a estrada é de mão dupla: o caminho que vai, também volta.


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- Concentra. Tenho certeza que você vai lembrar. Começa tirando a lente cor-de-rosa e encara: ele era isso o tempo todo.

Esse exercício, proposto por mim para uma amiga, tinha a intenção de fazê-la puxar para o nível de consciência situações desagradáveis e mensagens subliminares – e outras nem tão subliminares assim – de um relacionamento que já não fazia mais sentido.

Parecia cruel. Ela lá, do outro lado do mundo, querendo ser consolada, querendo ouvir que era possível esquecer tudo, passar uma borracha, como dizem por aí (como se fosse possível apagar dores dilacerantes), e se atirar nos braços traidores que lhe eram estendidos novamente. Mas aí era eu que nunca me perdoaria por assistir e não agir.

Foram meses de ligações, voltas atrás, broncas, lágrimas, convicções quebradas, cansaço de mil maratonas. Mas ela sempre soube qual era o caminho. Por isso eu nunca desisti dela. Por isso ela nunca desistiu de mim. E esse caminho passava longe de ser o mais fácil. Mas, aos poucos, aquela história de amor se dissolvia. Não por esquecimento, mas porque nunca tinha sido de amor. E o final feliz demorou um pouco, mas aconteceu. Me pego pensando na quantidade de vezes que sabemos de tudo (e ela sabia), mas nos recusamos a ver. As desculpas se acumulam ou viram teorias mirabolantes: “ela agiu com essa frieza porque há 32 anos nesta data tirava um 3,5 em matemática” ou “homens ficam mesmo absortos em seus pensamentos e optam pela reclusão. Por isso ele preferiu adiar aquele encontro para daqui a dois meses.”

Esses mecanismos de defesa trazem a culpa para nós. E isso nos dá uma hipotética sensação de controle e a falsa impressão de que podemos mudar os ventos: “eu pressionei. Não deveria ter tocado naquele assunto. Preciso tomar cuidado com as palavras. Sou tão negligente.”

Tão doído isso, essa anulação. A artimanha para tentar transformar o duvidoso em certo. Esse frenesi para colocar o outro no molde da pessoa sob medida para seus sonhos, fingindo não reparar nas arestas que ficam do lado de fora. No fundo, você sabe que a peça do quebra-cabeça não é aquela, mas, mesmo assim, força o encaixe. É como comprar a calça menor esperando que a dieta a torne viável. Ou optar pela foto retocada para estampar a rede social. Não dá certo. Porque a realidade é outra. E ela vai gritar com você, invariavelmente.

Os sinais sempre estarão ali. Às vezes respondem pelo nome de intuição, outras vezes são fatos declarados, que nossa miopia desfoca. E vamos seguindo meio às cegas, olhando para o chão, desviando dos galhos, com medo de levantar a cabeça e encarar que o caminho ainda é muito longo para fingir que os espinhos não machucam. Talvez não seja fácil porque não seguir adiante pode ser confundido com derrota. E porque recomeçar a busca, do zero, desestimula. Mas aí que está: não é mais do zero. Escolhas equivocadas também ensinam e fazem parte da trajetória.

Deveríamos nos dar a chance de não insistir na ligação errada e declarar solenemente: “desculpe, foi engano. Engano meu, não seu. Você é o que é e não o que eu gostaria que fosse. A gente se vê por aí. Mas nunca mais vamos nos reconhecer.”


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade..
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