lições de partir

É preciso partir para buscar ser inteiro outra vez. E é essa busca que reparto por aqui.

Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade.

Queria ter a idade de hoje e a maturidade dos 18


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Eu sei que a frase usual, aquela que todo mundo fala sem pensar, não é essa. Mas sabem o que seria uma pessoa com a bagagem de (quase) 50 em um corpo de 18? Um adolescente porre.

Porque a "experiência" acumulada com o passar dos anos não cabe em um corpo jovem. O excesso de responsabilidade não me deixaria sair de quarta a domingo, dormir três horas e passar metade das aulas cochilando atrás dos óculos escuros. "Como assim? Você lutou tanto para passar no vestibular?", imporia a tal maturidade. E eu não teria conhecido metade das pessoas e dos lugares que conheci. Teria chorado de rir em porcentagens bem menores. Não descobriria, na prática, que tequila, vinho e cerveja não combinam. Não andaria com a amiga bagaceira, que era má companhia. E, sem ela, não teria fabricado tantas memórias, que me fazem gargalhar até hoje. Não me apaixonaria por pessoas erradas e, por conta disso, nunca encontraria as certas.

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Com pouca idade não se pensa tanto: se experimenta. Um egoísmo que permite avançar sem olhar muito para os lados. Você é o centro. Sua dor é a maior do mundo, mas sua alegria também. E não se engane: não era o corpo mais leve que te movia. Era sua consciência que não pesava mais que um grão de areia.

"Em meia hora estamos passando pra te buscar. Joga qualquer coisa na mochila.” E, em meia hora, você tinha promovido a terceira guerra mundial no seu quarto, jurado seu irmão de morte pela mala estragada, pedido a emancipação para sua mãe e lavado só a franja porque não dava tempo de ensaboar o cabelo todo. E ia. E esquecia o biquíni, mas levava sapatos para três semanas.

O excesso de planejamento nos engessa. Projetar as consequências faz a gente estacionar e, com o tempo, a roda fica quadrada e não se vai a lugar algum. Avaliar o tempo todo o que nossas atitudes causarão no entorno faz a trajetória ser resumida em dois parágrafos na conversa do WhatsApp: “o que você tem feito?” "Ah, eu me formei. E arranjei um emprego bacana. Depois casei. E tive os gêmeos. E cuido dos gêmeos porque os gêmeos precisam crescer saudáveis para viverem até mais ou menos os 18 anos, quando se tornarão adultos responsáveis, cheios de maturidade e com menos vida."


Wal Reis

Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade..
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